|
Informação Alternativa |
|
África |
|
24/11/2004 Enrique Oliva Quando as riquezas da África
pareciam perto do esgotamento, os colonizadores europeus iniciaram uma
competição aberta contra o imperialismo anglo‑saxão pelo que resta:
petróleo recém descoberto, diamantes, um mineral raro usado para fazer
telefones celulares e as patentes biológicas do continente negro. Tanto os Estados Unidos como
a Grã Bretanha estão a ver esgotarem‑se as suas reservas estratégicas,
enquanto complicam as possibilidades de extracção e transporte normal do
Médio Oriente, por culpa dos intratáveis “terroristas” e “suicidas”, hábeis
em sabotagens contra oleodutos. Esta situação coincide com estudos
convincentes que provam a existência de grandes jazidas em África. E para lá
confluem as multinacionais ávidas por ganhar terreno, usando e abusando do
seu poder de violência e corrupção. Os sofridos povos africanos
só podem esperar novos saques das suas riquezas, trabalho escravo,
desenraizamentos forçados ou a eliminação física por mercenários das
multinacionais. Estes atropelos sangrentos são velhos, mas agora provocam
escândalos inocultáveis por causa da morte de tropas coloniais francesas na
Costa do Marfim. Mas a velha Europa, mesmo não
tendo ouro negro, detém real domínio político e económico de boa parte da
África, através das suas ex-colónias, onde instala e depõe ditadores, mantém
a propriedade das terras mais valiosas e o monopólio comercial. No caso da
Franca, esta potência imprime e manipula uma única moeda comum a treze nações
“independentes”: o franco CFA (Comunidade Financeira Africana), divisa que se
valoriza ou se desvaloriza de acordo com os seus interesses especulativos. Os treze países africanos
“independentes” vinculados ao CFA e admitidos como membros das Nações Unidas
são Togo, Senegal, Benin, Burkina Faso, Camarões, Congo, Chade, Gabão,
Nigéria, Guiné Equatorial, Malí, Costa do Marfim e República Centro-africana.
Para este último Estado independente é que foi conduzido, sequestrado pelos
Estados Unidos, o presidente haitiano Jean Bertrand Aristide,
democraticamente eleito, substituído por um governo “transitório” manipulado
por norte‑americanos e franceses. Como meada desse pacote
colonial, a França mantém há 44 anos, desde a Côte d’Ivoire, e em
todas as suas ex-possessões citadas, uma força militar permanente para
“garantir a democracia” e cuidar da vida e do capital dos privilegiados
moradores brancos (na sua maioria franceses). A Costa do Marfim é uma
república cujo povo se levantou contra os ocupantes militares franceses, os
seus proprietários de terra, os seus monopólios e o seu franco CFA. Os
rebeldes, já há mais de dois anos, dominam a metade norte do país. Para
cercar os seus patriotas, o governo cipayo e Paris recorreram às Nações
Unidas, que mandou uma “força internacional de interposição” entre os dois
lados. Lá a ONU tem 6 mil soldados e a França mais de 4 mil, todos com as
mais modernas tecnologias para matar, aumentando hoje esse poderio de forma
acelerada. Para Abidjan, a capital, os aviões levam mais tropas e apetrechos
e voltam com cadáveres ou feridos franceses e moradores brancos que fogem do
caos reinante. A trégua de Maio de 2003 foi
rompida. O acordo de Marcoussis, mediado pelo presidente francês Jacques
Chirac, obrigava o presidente socialista Laurent Gbagdo a convocar eleições,
mas essa condição ainda não tem data prevista. Os rebeldes, por sua vez,
comprometiam‑se a desarmar-se, o que começaram a fazer e depois
suspenderam por causa de “agressões” de Gbagdo por meio de “esquadrões da
morte”. Agora continuam a luta contra as forças armadas francesas,
assinaladas como inimiga do grupo combativo “Jovens Patriotas”, conduzido por
Charles Ble Goude. Dias atrás foram bombardeadas
instalações francesas em Abidjan, matando nove militares gauleses e ferindo
outros trinta. Os corpos dos falecidos já descansam na sua terra. Em Paris,
foram recebidos com honras oficiais como “heróis da França”. Com aquele primeiro
bombardeio, reiniciou-se a luta armada. Nela morreu também um civil, cidadão
norte‑americano. Este poderia ser um “empreiteiro”, como agora são
chamados os mercenários. Das acções dos últimos dias, não há informações
precisas nem sobre as vítimas das desordens que se intensificaram. Claro que Paris pediu mais
apoio da ONU e dos Estados Unidos, para “defender a população branca” das
multidões ensandecidas que matam, saqueiam e queimam, apesar das metralhadas
que os helicópteros franceses lançam sobre elas. A França, o país com mais
colónias do mundo, não aprendeu as lições do Vietname, Argélia e vários
enclaves menores em todos os mares do globo. Agora a resistência acontece em
África, encoberta pela moda de atribuir tudo ao terrorismo internacional,
como antes se fazia com os movimentos de libertação chamados de comunistas. A Costa do Marfim é parecida
com a província de Buenos Aires, tanto em tamanho quanto em quantidade de
habitantes. Rica em produtos agrícolas valiosos como a borracha, o tabaco e o
azeite de palma, é o primeiro exportador mundial de cacau. Mas tem a desgraça
de possuir importantes minas de diamantes cobiçadas por grandes empresas sem
escrúpulos. Desde a sua “independência”, em 1960, o país foi governado
durante 33 anos seguidos, até à sua morte, aos 88 anos, por Félix Houphouet
Boigny, que integrou o primeiro governo do presidente francês Charles De
Gaulle. As novas guerras africanas
enredam os indígenas levados à força a tomar partido na luta entre
multinacionais, apenas por razões económicas. Diante desta dolorosa e repetida situação, vale uma advertência. Como os meios de comunicação hoje estão globalizados contra o “terrorismo”, não se deve esperar notícias provenientes dos rebeldes independentistas. Só consumiremos o que emanar das multinacionais, em especial do petróleo e diamantes, sem informações sobre a verdade ou feitos selvagens dos exércitos mercenários. |