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24/11/2005 O dia sem compras (buy
nothing day) e a oniomania Uma
das taras características de um certo modo de vida é aquilo que, em linguagem
psiquiátrica, se designa por oniomania, isto é, a tendência obsessiva para
fazer compras. Trata-se, com efeito, de um dos legados das nossas sociedades
contemporâneas. Tendência essa que, de resto, ameaça expandir-se e
transformar-se num síndroma social do consumismo compulsivo e larvar das
futuras relações sociais se não atalharmos a tempo a evolução de tudo
transformar em valor de troca, os bens e serviços da mais variada natureza. Ao
contrário do século XIX em que a preocupação maior dos economistas era como
produzir em mais quantidade, o principal motivo de apreensão dos actuais
responsáveis empresariais prende-se com encontrar os meios e as estratégias
que melhor garantam o crescimento das despesas por parte dos consumidores de
forma a assegurar a continuidade do ciclo económico da
produção-rendimento-despesa, para o que contam com os mais variados
instrumentos, de uma sofisticação e eficácia jamais vista. Acontece
que esta “modernização económica” releva mais de um eufemismo de linguagem do
que propriamente de um verdadeiro processo de desenvolvimento social e
humano, uma vez que num tal processo “modernizador” está presente um fervor
religioso de tudo submeter aos diktats imperativos da razão económica senão
mesmo do deve-e-haver contabilístico, ignorando completamente todos os outros
aspectos da vida social e humana. A “doxa” económica e contabilística
converteu-se hoje efectivamente em dogma indiscutido e indiscutível a que,
sem hesitação, prestam vassalagem as elites, arrastando consigo a massa
informe das nossas sociedades. As
sociedades de consumo – que também, sintomaticamente, são conhecidas por
sociedades do desperdício – constituem um modelo social e económico que tem
sido objecto de estudos e análise pelas mais variadas áreas científicas,
desde a antropologia até à economia, passando pela sociologia, psicologia
social, ecologia, etc., e graças aos quais tem sido possível a compreensão e
a crítica da sua lógica interna e dos respectivos dispositivos de
funcionamento. Paralelamente,
a tomada de consciência dos consumidores da sua função económica e do seu
papel face aos interesses empresariais levou à verificação de quanto era
frágil a sua posição no jogo de interesses em presença. Daí à acção de defesa
dos direitos e interesses dos consumidores e respectiva consciencialização
para o consumo responsável foi um pequeno passo, logo dado, em 1º lugar, nos
países onde se regista maior nível cultural e participação das pessoas na
vida pública, mas rapidamente propagado para os demais países. Emerge então o
movimento consumerista destinado a sensibilizar os próprios consumidores para
as múltiplas implicações que o acto de consumo envolve, desde logo, as
consequências de carácter ambiental, mas também de ordem económica, social,
cultural, etc. Aliás, um outro movimento precedente tinha tido um papel
pioneiro na defesa e consciencialização dos consumidores: falamos, como não
podia deixar de ser, do cooperativismo (em especial, das cooperativas de
consumidores) que constituiu, na sua face inicial, uma viva esperança,
alimentada pelos espíritos mais lúcidos da época, contra o poder abusivo das
empresas e os efeitos danosos provocados pela mão cega do mercado. Já
mais perto de nós no tempo surgiram novas iniciativas e movimentos, como é o
caso do comércio justo, que são tentativas de criar circuitos comerciais
paralelos de forma a satisfazer quer os interesses dos consumidores quer
inclusivamente dos próprios produtores, muitos deles do mundo subdesenvolvido
que são, literalmente, espoliados pelas grandes cadeias de comercialização
dos seus produtos e das suas matérias-primas. Tudo isto vem a desaguar numa
nova ética do consumidor, mais exigente em termos ambientais, sociais e económicos. A
última iniciativa para alertar as consciências individuais foi a promoção do
Buy Nothing Day por ONGs internacionais como forma de relançar o debate e a
reflexão acerca da problemática relacionada com o consumo desenfreado. O
próximo dia 26 de Novembro foi justamente escolhido para marcar a nível
internacional o dia sem compras. Apesar do carácter simbólico, esta
iniciativa não deixa de ter um interesse redobrado se constituir um momento
para a consciencialização dos indivíduos para o estado actual do planeta e da
humanidade, de que o fenómeno consumista é, infelizmente, um triste sinal.
Cabe a todos nós assumir a sua quota de responsabilidade nessa situação e
retirar daí as suas devidas consequências. Um
Dia Sem Compras é um dia em que sabemos apreciar as coisas do mundo que não
têm preço. |