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25/07/2008 Lá vem a Quarta Frota Frei Betto No dia 12 de Julho os EUA decidiram reactivar a sua IV Frota Naval –
a que vigia os mares do Sul –, actuante entre 1943 e 1950, em decorrência da
Segunda Guerra, e desde então desactivada. Compõem a frota 22 navios: quatro
cruzadores com mísseis; quatro destróieres com mísseis; 13 fragatas com
mísseis; e um navio‑hospital. Segundo as autoridades usamericanas, o objectivo é “realizar acções
humanitárias”. Então, para quê tantos mísseis? E, nesse intuito, por que não
começar por permitir que Porto Rico recupere a sua soberania, suspender o
bloqueio a Cuba, devolver a base naval de Guantánamo (retirando os
prisioneiros de lá e do limbo jurídico a que estão condenados) e reduzir os
subsídios agrícolas que estrangulam o livre comércio? Segundo o almirante Gary Roughead, chefe das operações navais, a IV
Frota visa combater o tráfico de drogas, de armas e de pessoas, bem como a
pirataria que ameaça o fluxo do livre comércio nos mares do Caribe e da
América do Sul. Não seria mais sensato começar por combater o tráfico de drogas e
armas dentro dos EUA que, segundo relatório da ONU divulgado em Junho,
figuram entre os maiores consumidores desses dois produtos letais? É a velha história do lobo mau pretendendo enganar o chapeuzinho
vermelho. Quem acredita que nariz tão grande é apenas para cheirar a netinha?
Não é muita “coincidência” a IV Frota ser reactivada no momento em que Cuba
aprimora a sua opção socialista, Daniel Ortega volta a presidir à Nicarágua,
o Brasil descobre reservas petrolíferas sob a camada pré-sal, e a América do
Sul se vê governada por pessoas como Chávez, Lula, Correa, Kirchner, Morales
e, em breve, Lugo, que não morrem de amores pelo Tio Sam e se empenham em
reduzir a dependência dos seus países em relação aos EUA? O comandante da IV Frota é o contra-almirante Joseph Kernan, de 53
anos. Não fez carreira na Marinha convencional, e sim na força de elite
(SEAL) destinada a operações especiais de combates não‑convencionais e
repressão ao terrorismo. Muito humanitário... Os EUA sentem-se incomodados com a actual conjuntura
latino-americana. Em especial, com o facto de o presidente Lula se empenhar
na criação da UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) e do Conselho Sul‑Americano
de Defesa (agora apoiado até pela Colômbia), dois organismos que, como o
Mercosul e a ALBA, excluem a participação dos EUA e tornam inócuos o Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa,
que sempre estiveram sob controle da Casa Branca. A exemplo da União Europeia, a UNASUL integrará o Mercosul e a
Comunidade Andina de Nações, incluindo a Guiana e o Suriname. A integração
completa desses dois blocos foi formalizada em Brasília em Maio deste ano,
durante reunião dos presidentes sul-americanos. A UNASUL ficará sediada em
Quito; o seu Banco do Sul, em Caracas; e o parlamento em Cochabamba, na
Bolívia. Ainda por trás da fantasia de vovozinha, o Tio Sam quer impedir que a
China tome conta dos mares do Sul. Hoje, 90% do comércio mundial depende de
navios, e Pequim empenha‑se em ampliar e proteger as suas rotas,
incluindo as que conduzem ao nosso Continente. O governo brasileiro já manifestou a sua desconfiança à Casa Branca.
As recentes descobertas de petróleo nas costas brasileiras, no momento em que
o barril passa dos US$ 140, com certeza suscitam a cobiça dos EUA, cujos
fornecedores, como a Venezuela, não são confiáveis. Com tantas embarcações de alta tecnologia e poder de fogo nos nossos
mares, os usamericanos poderão pesquisar a plataforma submarina e controlar a
navegação dos nossos países rumo à África e à Ásia. Ensina a zoologia que todo animal acuado se defende com ferocidade. É
o caso do Tio Sam, cuja moeda perde poder de compra, a economia mergulha numa
crise de longo prazo, o atoleiro no Iraque não mostra nenhuma luz no fim do
túnel, e os brancos republicanos se vêem na iminência de transferir o poder
para um negro democrata. |