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28/10/2004 Pedro Campos Dois meses e meio depois do
referendo que confirmou o apoio maioritário ao processo político bolivariano
encabeçado por Hugo Chávez e que significou uma derrota demolidora para a
reacção local, a Venezuela vai de novo a eleições no final do mês para
definir o poder local. Pouco mais de 14 milhões de
cidadãos preparam-se para eleger governadores, deputados regionais e
vereadores, no que se antecipa como uma nova alteração do mapa político da
nação, da qual deverá resultar uma correlação de forças mais favorável aos
bolivarianos. Os resultados do referendo de
Agosto mostram que as forças bolivarianas ganharam em todos os estados menos
num (Nova Esparta). Se bem que destes resultados não se possa fazer uma
extrapolação directa, alguma coisa de importante querem dizer, especialmente
porque a oposição perdeu os estribos com a derrota de Agosto – ainda não
encontrou outra resposta à mesma que não seja uma fraude da qual é incapaz de
mostrar uma prova – e está dividida sobre se participar ou não nas próximas
eleições. Vozes muito ruidosas, que não
gozam da preferência popular mas que contam com os espaços dos meios de
comunicação – claramente conspirativos – estão pelo boicote eleitoral, pela
«abstenção activa», que ainda não definiram como é, certamente porque pensam
contar os abstencionistas – a abstenção soe ser elevada neste tipo de eleição
– como votos a seu favor. Há, porém, outras forças que, sejam elas mais
realistas ou com maior opção de triunfo, parecem ter a intenção de disputar o
voto popular. Entre outros, encontram-se nesta situação o delfim da dinastia
autocrática que governa Carabobo e Manuel Rosales, do estado Zulia, que já ameaçou
separar-se do resto do país e declarar-se independente. Estão ainda outros
que ameaçam não entregar o poder, mesmo no caso de derrota… Esperança
no futuro Mas há também os que já
desistiram, como Alfredo Peña, que declarou publicamente que se retira para
não participar na «nova fraude». A verdade é que arruma as botas porque não
tem qualquer opção de vitória. Quando ganhou, tinha os votos chavistas do seu
lado, agora não… E este não será provavelmente o único desistente. Outros há
que ainda estão na corrida mas não têm pernas e que, em cima da hora,
gritarão fraude e preferirão não chegar à contagem final, eles que durante
meses a fio exigiram a Hugo Chávez que «se contasse». Ainda faltam perto de três
semanas para que sejam conhecidos os resultados da nova consulta eleitoral,
mas grande parte da oposição que já tentou várias formas ilegais de derrubar
o governo – golpe de estado, greve patronal de mais de dois meses, atentados
terroristas e desordens de ruas – grita fraude! e esgrime como evidência que
há no registo eleitoral algumas centenas de milhares de eleitores sem uma
indicação clara de domicílio. Isto pode resultar estranho
num país europeu, mas é absolutamente compreensível em qualquer país
latino-americano, onde há milhões de pessoas a viver em barracas, favelas,
ranchos ou barrios jóvenes, que não têm nem água canalizada, nem luz,
nem muito menos… uma rua com nome! O 31 de Outubro anuncia-se
como a nona vitória em série dos bolivarianos, um processo que, apesar das
falhas que o marcam, é visto como uma esperança de redenção por milhões de
venezuelanos tradicionalmente marginalizados numa das sociedades mais ricas
da América Latina. Habilidades
da direita Durante as últimas décadas, a
norma foi que primeiro se fazia a eleição presidencial – o regime político do
país tem sido tradicionalmente de forte concentração do poder nas mãos do
presidente – e depois se ia para as regionais. Desta forma, «permitia‑se»
que o novo presidente – devido «à dinâmica da vitória» – se assegurasse um
poder local não demasiado hostil. Deste esquema beneficiava
fundamentalmente o partido Acção Democrática (AD, social-democrata), o de
maior implantação ao nível nacional e que mais vezes deteve a presidência do
país. Esta sequência eleitoral respeitou-se até que apareceu na cena política
Hugo Chávez. Em 1988, quando as classes dominantes se aperceberam de que a
sua vitória parecia inevitável, empurraram os partidos ao seu serviço para
que trocassem a sequência por outra que lhes fosse mais favorável: primeiro
as eleições legislativas – ainda muito se podia ganhar –, depois as
presidenciais, porque tudo estava perdido. Desta forma, e porque o chavismo
não tinha ainda uma sólida estrutura em todo o país, garantiam uma importante
parcela de poder, que muito poderia dificultar a gestão presidencial. Como resultado desta
“habilidade”, neste momento a AD é a força partidária com o maior número de
municípios (91). Vem depois o bolivariano MVR (80) e em terceiro lugar outro
partido grande da oposição, o dos democratas-cristãos (41). Atrás vem o MAS
(20), do qual uma parte decidiu apoiar o processo bolivariano, e um pouco
mais longe o também bolivariano PPT (15). Os outros 29 municípios são
controlados por partidos mais pequenos, alguns sem implantação nacional, e na
sua maioria antibolivarianos. Por outro lado, actualmente a
oposição governa alguns estados fundamentais: Zulia, Carabobo, e Bolívar,
assentos respectivamente da indústrias petrolífera, ligeira e pesada;
Miranda, importante por ser vizinho da capital; e ainda Monagas e Anzoatégui,
neste caso – tal como o de Bolívar – por deserção de dois ex-aliados de
Chávez. Com a capital sucedeu o mesmo. Alfredo Peña, eleito nas
listas bolivarianas com um número impressionante de votos, deu muito cedo um
salto de malabarista e colocou-se ao serviço da reacção. |