Informação Alternativa

Ásia

22/11/2004

 

Trespass Against Us: vinte coisas a saber

sobre a Dow Chemical no 20º aniversário de Bhopal

 

Russell Mokhiber e Robert Weissman *

Focus on the Corporation

Suponhamos por um segundo, como o faz a lei, que uma corporação é uma pessoa. Se uma corporação é uma pessoa, então porque não vemos biografias de corporações? Não estamos a falar de biografias “oficiais” – aquelas escritas por pessoas no bolso das corporações. É claro que existem. Mas porque não biografias com todas as verrugas das grandes corporações americanas? Como – a vida e os tempos da General Motors? Na verdade, um historiador de nome Brad Snell tem vindo a trabalhar há anos numa tal biografia sobre a General Motors – verrugas e tudo. Ele diz que está quase a acabar.

Em 1974, Gerard Colby Zilg escreveu um livro intitulado DuPont: Behind the Nylon Curtain, que era uma biografia da Corporação DuPont – verrugas e tudo. Zilg afirmou que o seu editor, sob pressão da DuPont, enterrou o livro – e não foi a lado nenhum.

Agora surge Jack Doyle.

Doyle está a tentar fazer carreira de tentar escrever biografias críticas sobre corporações. Em 2002, sob contrato com o Environmental Health Fund, Doyle escreveu a sua primeira biografia corporativa, intitulada Riding the Dragon: Royal Dutch Shell & The Fossil Fire.

Agora, para coincidir com o 20º aniversário do desastre de Bhopal, Doyle surge com Trespass Against Us: Dow Chemical and the Toxic Century (Common Courage Press, 2004).

À meia-noite de 2 de Dezembro de 1984, 27 toneladas de gases letais vazaram de uma fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bhopal, na Índia, matando imediatamente cerca de 8.000 pessoas, e envenenando milhares.

Actualmente em Bhopal, pelos menos 150.000 pessoas (incluindo crianças nascidas de sobreviventes do desastre) sofrem de efeitos relacionados com o incidente. Coisas como câncer, danos neurológicos, ciclos menstruais caóticos e doenças mentais.

Mais de 20.000 pessoas são forçadas a beber água com níveis inseguros de mercúrio e carbono tetraclorido, além de outros poluentes orgânicos e metais pesados.

Nas próximas duas semanas, activistas em redor do mundo – relacionados, entre outros, a causas dos direitos humanos, do meio ambiente, das leis e da saúde – mobilizar­‑se­‑ão para exigir que a Dow Chemical, proprietária da Union Carbide, responda pelo acontecido.

Vinte anos após o desastre, a companhia responsável pela catástrofe e os seus antigos executivos ainda são foragidos da polícia. A Union Carbide e o seu antigo presidente, Warren Andersen, são acusados de assassinato pelas mortes de Bhopal, mas recusam­‑se a comparecer perante os tribunais da Índia.

Dentre os muitos eventos planejados em redor do mundo para coincidir com o vigésimo aniversário, está o lançamento de um compêndio do escritor Jack Doyle contra a Dow.

Doyle tirou o título do seu livro Tresspass Agains Us, da oração ao Senhor:

O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que nos ofendem [those who trespass against us].

Perguntamos a Doyle se ele estava apelando à humanidade – aqueles que foram poluídos pela Dow – que perdoasse a companhia por nos ter ofendido.

«Nem um pouco», respondeu Doyle. «Ao utilizar a frase “que nos ofendem”, estou a tentar tornar visível o invisível – a tentar mostrar que existem limites que estão a ser violados diariamente por substâncias tóxicas. Corporações estão a obter lucros com a invasão do meu espaço pessoal, da minha biologia. Eles não controlam todo o custo das suas operações, e nós acabamos pagando o preço, na forma de doenças, baixa imunidade, reprodução alterada, defeitos de nascença, câncer. Isto não está certo. É uma ofensa mortal, uma transgressão imperdoável que deve ser detida. Certamente não estamos a pedir aos consumidores que perdoem as companhias – é o oposto. Elas precisam ser processadas. Companhias como a Dow estão a livrar­‑se de ofensas biológicas dia após dia».

E o seu livro documenta isto.

Em honra dos mortos e moribundos em Bhopal, apelamos à compra do livro de Boyle. Sempre que use artigos comuns de plástico, pense na destruição. Sempre que use Saran Wrap (originalmente um produto Dow), questione as consequências.

Em respeito ao vigésimo aniversário do crime de Bhopal, apresentamos aqui 20 coisas para se lembrar a respeito da Dow Chemical – a companhia responsável pelo que aconteceu em Bhopal, e uma fugitiva da justiça.

20. Agente Laranja/Napalm – O herbicida tóxico e a gasolina gelatinosa usadas no Vietname geraram horror entre velhos e jovens – o estardalhaço nos EUA foi tão grande que forçou a Dow a repensar a sua estratégia de relações públicas.

19. Rocky Flats – Localidade ultra-secreta administrada pela Dow Chemical no estado de Colorado, EUA, entre os anos de 1952 e 1975. Hoje, é um pesadelo ambiental.

18. Danos físicos – Em Março de 2001, o Centro para o Controle de Doenças dos EUA relatou que a maior parte dos norte-americanos apresentam no seu sangue níveis detectáveis de plásticos, pesticidas e metais pesados.

17. 2,4-D – Herbicida produzido pela Dow Chemical, ainda utilizado hoje em dia. Administrado para matar ervas daninhas. Um dos seus ingredientes chave é o Agente Laranja, o desfolhante tóxico usado no Vietname. O 2,4-D é o herbicida mais utilizado no mundo.

16. Mercúrio – No Canadá, a Dow utiliza, desde 1947, o método da célula de mercúrio para produzir clorina. A maior parte do mercúrio é reciclada, mas quantidades significativas são descarregadas no meio-ambiente através de emissões de gás, do despejo em rios e pela dispensa dos restos da sua produção.  Em Março de 1970, os governos de Ontário, no Canadá, e de Michigan, nos EUA, detectaram níveis bastante altos de mercúrio nos peixes do rio St. Clair, do lago St. Clair, do rio Detroit e do Lago Erie. A Dow foi indiciada por autoridades locais e estaduais por poluição por mercúrio.

15. PERC – Percloroetileno, a substância tóxica utilizada pelas lavanderias a seco em todo o lado. A Dow tentou boicotar alternativas mais seguras.

14. 2,4,5 T – Um dos ingredientes tóxicos do Agente Laranja. Doyle afirma que «a Dow lutou com todas as suas forças por esta substância – persistiu de todo o modo que pôde em tribunais e agências, nos níveis estadual e federal, para dar uma vida mais prolongada ao produto. Eles foram a um tribunal de Arkansas, EUA, no início dos anos 70, para desafiar um administrador da Agência de Protecção Ambiental. Fizeram isso para facturar tempo extra de mercado, e acabaram ganhando dois anos – ainda que, ao que parece, a Dow já soubesse desde aquela época que se tratava de uma substância perigosa. O produto causava defeitos de nascença em animais, e podia ser encontrado na gordura do corpo humano. Apesar disto, a Dow só deixou de produzir  o 2,4,5 T nos EUA em 1983; e, na Nova Zelândia, em 1987. As batalhas judiciais relativas às consequências do 2,4,5 T no corpo humano continuam até hoje».

13. Enfraquecimento de sindicatos – Em 1967, os trabalhadores da Dow eram, quase todos, sindicalizados. Centrais trabalhistas norte-americanas defendem, porém, que, desde então, a Dow se vem empenhando numa «campanha sem freios para se livrar dos sindicatos».

12. Silicone – Ingrediente chave dos implantes de silicone para seios, produzido por uma joint-venture entre as companhias Dow e Corning (Dow Corning). Deixa as mulheres maiores – mas também as deixa doentes. Responde, hoje, por danos físicos e batalhas judiciais.

11. DBCP – Ingrediente tóxico do pesticida Fumazone, produzido pela Dow. Médicos que testaram homens que trabalhavam com DBCP chegaram a pensar que eles fossem vasectomizados – não apresentavam qualquer sinal de esperma.

10. Dursban – Clorpirifos, pesticida tóxico com efeitos nervosos. Testado em prisioneiros de Nova Iorque, entre 1971 e 1998, através de um laboratório em Lincoln, Nebraska. Tomou o lugar do DDT quando este foi proibido, em 1972. Grande vendedor. O seu uso foi limitado pela Agência de Protecção Ambiental  dos EUA em 2000.

9. Dow no Natal – «Os plásticos da Dow são usados pela indústria de brinquedos em todo o lado»,  comemorou, num Natal, um memorando interno da companhia. «E mais e mais os nossos materiais são encontrados sob a árvore de Natal e sobre a mesa de aniversário, deixando alguma criança – e a Dow – bastante felizes». Entre as substâncias químicas encontradas nesses presentes, estão o poliestireno, o polietileno, resinas de etileno copolimero, resinas saran, resinas de PVC, além de vinis e etil celulose. E um Bom Ano Novo.

8. O Tittabawassee – Rio e leito poluídos pela Dow na cidade natal da companhia, em Midland, Michigan.

7. O rio Brazos, em Freeport, Texas – Em Fevereiro de 1971, uma manchete do diário Houston Post trazia a seguinte notícia: “O rio Brazos está morto”. Em 1970 e 1971, operações da Dow despejaram mais de 4,5 milhares de milhões de litros de dejectos por dia no Brazos e no Golfo do México.

6. Ofensas tóxicas – Doyle escreve: «A Dow Chemical tem poluído localidades e envenenado populações por quase um século, em escala local e global – ofendendo trabalhadores, consumidores e comunidades, e causando danos ao genoma e à variedade biológica globais... A Dow tem que pôr fim às suas ofensas tóxicas».

5. Experiências Holmesburg – Em Janeiro de 1981, uma história do jornal Philadelphia Inquirer revelou que a Dow Chemical pagou a um dermatologista da Universidade da Pensilvânia para que ele testasse dioxina nos prisioneiros do Presídio Holmesburg, em Filadélfia. Os testes foram conduzidos em 1964. Setenta presos foram testados.

4. Mortes de trabalhadores – A Dow tem uma longa história de explosões e incêndios nas suas fábricas. Um exemplo: em Maio de 1979, uma explosão varreu uma unidade de produção da Dow em Pittsburgh, matando dois trabalhadores e ferindo mais de 45.

3. Tumores cerebrais – Em 1980, investigadores encontraram 25 trabalhadores com tumores cerebrais numa fábrica da companhia em Freeport, Texas – destes, 24 foram fatais.

2. Filme plástico – A fina película de plástico essencial às nossas vidas. Produzido pela Dow até consumidores procurarem por produtos da companhia que pudessem boicotar. A Dow decidiu retirar-se do mercado de produtos directos ao consumidor por este motivo – venderam o filme plástico – desde então, a Dow dedica-se apenas à produção de substâncias químicas que componham os nossos produtos de consumo.

1. Bhopal – O pão nosso de cada dia nos dai hoje, e perdoai as nossas ofensas, assim como tentamos trazer à justiça aqueles que nos ofendem.

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* Russell Mokhiber é editor da publicação Corporate Crime Reporter. Robert Weissman é editor do Multinational Monitor. São co­‑autores de Corporate Predators (Monroe, Maine: Common Courage Press).

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