Informação Alternativa

Médio Oriente

19/02/2006

 

Uma guerra de religiões? Deus nos livre!

 

Uri Avnery

Gush Shalom

 

Um dos nossos anteriores Chefes de Estado Maior, o defunto Rafael (“Raful”) Eytan, que não foi o mais brilhante, perguntou uma vez a um convidado estrangeiro: “Você é judeu ou cristão?”

 

“Sou ateu!”, respondeu o homem.

 

“Bem, Bem”, exigiu Raful impacientemente, “mas ateu judeu ou ateu cristão?”

 

Bem, eu sou 100% ateu. E estou cada vez mais preocupado por o conflito israelo-palestiniano, que domina toda a nossa vida, estar a assumir cada vez mais um carácter religioso.

 

O conflito histórico começou como um choque entre dois movimentos nacionais, os quais usaram os motivos religiosos apenas como decoração.

 

O movimento sionista foi não-religioso desde o início, se não anti­‑religioso. Quase todos os Pais Fundadores eram ateus auto­‑declarados. No seu livro Der Judenstaat [O Estado Judeu], a carta constituinte do sionismo, Teodoro Herzl disse que «nós saberemos manter (os nossos clérigos) nos seus templos». Chaim Weitzman era um cientista agnóstico. Vladimir Jabotinsky queria que o seu corpo fosse cremado – um pecado no judaísmo. David Ben-Gurion recusava­‑se a cobrir a sua cabeça até nos funerais.

 

Todos os grandes rabinos de então, tanto os hasidim como os seus oponentes, os mitnagdim, condenaram Herzl e amaldiçoaram­‑no ferozmente. Recusavam a teses básica do sionismo, que os judeus são uma “nação” no sentido europeu, encarando em vez disso os judeus como um povo sagrado mantido unido pela observância dos mandatos divinos.

 

Mais, ante os olhos dos rabinos, a própria ideia sionista era um pecado capital. O Todo-Poderoso ditou o desterro dos judeus como castigo pelos seus pecados. Portanto, só o Todo-Poderoso pode revogar o castigo e enviar o Messias que levará os judeus de regresso à terra santa. Até então, é estritamente proibido “regressar em massa”. Ao organizar a imigração em massa para o país, os sionistas rebelam­‑se contra Deus e, o pior de tudo, demoram a chegada do Messias. Alguns hasidim, como a seita de Satmar nos Estados Unidos, e um pequeno mas firme grupo em Israel, os Neturei Karta (Guardiões da Cidade) de Jerusalém, ainda aderem a esta crença.

 

Certamente, os sionistas apropriaram­‑se dos símbolos do judaísmo (a Estrela de David, o candelabro do Templo, o manto de oração que se converteu em bandeira, inclusive o nome “Sion”) mas essa foi apenas uma manipulação utilitária. A pequena facção religiosa  que se juntou ao sionismo (os “sionistas religiosos”) era um grupo marginal.

 

Antes do Holocausto, aprendemos nas escolas sionistas na Palestina a tratar com desprezo impiedoso tudo o que era “exílio judaico” – a religião judaica, o Stetl judaico, a estrutura social judaica (a “pirâmide invertida”). Só o Holocausto mudou a atitude para com o passado judeu na diáspora, referida em hebreu como “Exílio”.)

 

Ben-Gurion fez algumas concessões às facções religiosas, incluindo os ortodoxos anti-sionistas. Dispensou algumas centenas de estudantes das Yeshivás do serviço militar e montou um sistema escolar “estatal—religioso” separado. O seu objectivo era adquirir colegas de coligação convenientes. Mas estes passos foram baseados na suposição (comum a todos nós naquele momento) que a religião judaica se evaporaria de qualquer maneira sob o ardente sol israelense e desapareceria completamente numa ou duas gerações.

 

Todos isto mudou na sequência da Guerra dos Seis Dias. A religião judaica protagonizou um regresso assombroso.

 

No lado palestiniano, algo similar se passou, mas com um pano fundo bastante diferente.

 

O movimento nacional árabe, também, nasceu sob a influência da ideia nacional europeia. Os seus pais espirituais exigiram a libertação da nação árabe das grilhetas do poder otomano, e posteriormente do jugo do colonialismo europeu. Muitos dos seus fundadores eram cristãos árabes.

 

Quando um movimento nacional palestiniano diferente nasceu, a seguir à Declaração de Balfour e ao estabelecimento do Mandato Britânico da Palestina, ele não tinha um carácter religioso. Para poder combatê­‑lo, os britânicos nomearam uma personalidade religiosa para a direcção da comunidade palestiniana na Palestina: Hajj Amin al-Husseini, o Grande Mufti de Jerusalém que rapidamente assumiu a direcção da luta palestiniana contra a imigração sionista. Ele esforçou­‑se por dar um rosto religioso à rebelião árabe­‑palestiniana­. Ao acusar os sionistas de planos sobre o Morro do Templo com os seus lugares santos islâmicos, tentou mobilizar os povos muçulmanos em apoio dos palestinianos.

 

O Mufti falhou miseravelmente, e o seu fracasso jogou uma parte na catástrofe do seu povo. Os palestinianos apagaram­‑no completamente da sua história. Nos anos cinquenta, idolatraram Gamal Abd­‑al­‑Nasser, o porta-bandeira do nacionalismo laico pan-árabe. Depois, quando Yasser Arafat fundou o moderno movimento nacional palestiniano, não distinguiu entre muçulmanos e cristãos. Até à sua morte, ele insistiu em apelar à libertação das «mesquitas e igrejas» de Jerusalém.

 

Numa fase do seu desenvolvimento, a OLP apelou à criação de um «estado democrático laico, onde muçulmanos, judeus e cristãos viverão juntos». (Arafat não gostava do termo “laico”, preferindo “la­‑maliah”, que significa “não-sectário”.)

 

George Habash, líder dos “nacionalistas árabes” e posteriormente da “Frente Popular para a Libertação de Palestina”, é cristão.

 

Esta situação mudou com o estalido da primeira Intifada, no final de 1987. Só então os movimentos islâmicos, Hamas e Jihad Islâmica, começaram a encarregar-se da luta nacional.

 

A espantosa vitória do exército israelense na guerra dos Seis Dias, que pareceu um milagre, efectuou uma mudança política e cultural profunda em Israel. Quando os shofar soavam no Muro das Lamentações, a juventude religiosa, que até então tinha vegetado na margem, ocupou o centro do palco.

 

De repente, descobriu­‑se que o sistema de educação religiosa, o qual tinha sido montado por Ben-Gurion como um suborno político e contrário às suas próprias convicções, tinha vindo transformar­‑se discretamente num produto religioso fanático. O movimento juvenil religioso, que tinha sofrido todos esses anos de sentimentos de humilhação e inferioridade, encheu­‑se de zelo e iniciou a campanha dos colonatos, liderando o principal esforço nacional: a anexação dos territórios ocupados.

 

A própria religião judaica sofreu uma mutação. Este mutante despojou­‑se de todos os valores universais e tornou­‑se num estreito, militante credo tribal xenófobo, com a mira na conquista e na limpeza étnica. Os religiosos­‑sionistas do novo tipo estão convictos de que estão a cumprir a vontade de Deus e a preparar o terreno para a vinda do Messias. Os ministros do governo “nacional-religiosos”, que sempre tinham pertencido à ala moderada do governo, deram passo a uma nova e extremista liderança com tendências para o fascismo religioso.

 

Israel não se tornou um estado religioso. Ainda tem uma grande maioria laica. Segundo o bem documentado Escritório de Estatística do Governo israelense, só 8% dos judeus israelenses se definem como “ortodoxos” (haredim), 9% como “religiosos” (o que significa sionistas religiosos), 45% como “laicos, não-religiosos” e 27% como “laicos, convencionais”.

 

No entanto, devido ao seu papel na empresa colonizadora, os “religiosos” adquiriram uma grande influência sobre o processo político. Impediram praticamente qualquer movimento para a paz com os palestinianos. Também provocaram uma reacção religiosa no outro lado.

 

A resistência palestiniana à ocupação, que atingiu um pico com o estalido da primeira Intifada em 1987, deu um grande empurrão às forças religiosas. Até então, estas tinham vindo a crescer discretamente (não sem o estímulo das autoridades da ocupação, que viram neles um contrapeso à laica OLP.)

 

A primeira Intifada levou ao acordo de Oslo e trouxe Yasser Arafat de regresso à Palestina. Mas a nova autoridade palestiniana fracassou no seu objectivo de acabar com a ocupação e estabelecer um estado palestiniano laico. Com os colonatos a expandir­‑se continuamente por toda a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, o público palestiniano tendeu a apoiar cada vez mais a resistência armada. Nesta luta, e com os meios limitados disponíveis, as facções religiosas tiraram vantagem. Uma pessoa religiosa está mais disposta a sacrificar a sua vida num ataque suicida do que o seu primo laico.

 

A ira do público palestiniano em relação à corrupção que infectou secções da liderança laica da Fatah (mas não o ascético Yasser Arafat, cuja reputação permaneceu limpa) aumentou ainda mais a popularidade dos religiosos, cuja honestidade é inquestionável.

 

Durante anos fui perseguido por um pesadelo: que o conflito israelo­‑palestiniano mudaria de uma confrontação nacional para uma confrontação religiosa.

 

Um conflito nacional, por terrível que possa ser, é solúvel. Os últimos dois séculos viram muitas guerras nacionais, e quase todas elas acabaram num compromisso territorial. Tais conflitos são basicamente lógicos, e pode ser terminados de uma maneira racional.

 

Não assim com os conflitos religiosos. Quando todos os lados estão limitados por mandatos divinos, conseguir um compromisso torna­‑se muito mais difícil.

 

Os judeus religiosos crêem que Deus lhes prometeu toda a terra santa. Assim, desistir de alguma dela para os “estrangeiros” é um pecado imperdoável. Aos olhos dos crentes muçulmanos, o país inteiro é um Waqf (fundo religioso), e por isso é absolutamente proibido entregar qualquer parte dele a não­‑crentes. (Quando o Califa Omar conquistou a Palestina há uns 1400 anos, declarou-a um Waqf. O seu motivo era bastante prático: impedir os seus generais de dividir a terra entre eles, como era seu costume.)

 

A propósito, os fundamentalistas evangélicos que dominam Washington neste momento também vêem a Terra Santa como uma propriedade religiosa, à qual os judeus devem voltar para tornar possível a segunda vinda de Jesus Cristo.

 

É possível um compromisso entre estas forças? Certamente que sim, mas é muito mais difícil. Um muçulmano devoto pode declarar uma hudna (trégua) durante cem anos e mais, sem condenar a sua alma ao inferno. Ariel Sharon, que iniciou a evacuação de colonos, falou sobre «acordos temporários de longo alcance». Na política, as medidas “temporárias” têm uma tendência a tornar-se permanentes.

 

Mas são necessárias sabedoria, sofisticação e muita paciência para chegar a uma resolução do conflito nestas circunstâncias.

 

No dia em que Arafat morreu, muitos israelenses ficaram zangados comigo por dizer (numa entrevista ao Haaretz) que nós ainda sentiríamos a falta deste líder laico, que tinha tanto a vontade como a capacidade para fazer a paz connosco. Disse que a sua eliminação removia o último obstáculo à ascensão do fundamentalismo islâmico na Palestina e em todo o mundo árabe.

 

Não era necessário ser um profeta para ver isso.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­