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02/07/2005 Pertenço a essa geração de
universitários que fincaram o dente à linguística. A Universidade de
Lancaster, no seu segundo ano de existência: a geração de 67, se não me
engano – foi tão inovadora como foi um bocado estranha. Os dormitórios estudantis
estavam frente à praia Morecombe, as cátedras davam‑se numa capela
adaptada, e os aconselhamentos dos tutores davam‑se numa velha fábrica
de linho. Mas os livros que estudávamos invariavelmente incluíam o
imensamente aborrecido Zelig Harris e o surpreendentemente brilhante Noam
Chomsky. Menos famoso então do que
agora, foi ele quem me introduziu no “elemento em primeiro plano". “Primeiro
plano” é quando alguém coloca as palavras num ordem tal que lhes é conferido
um novo significado, ou quando deliberadamente se deixa fora uma palavra que poderíamos
esperar. O “malvado homem grande” enfatiza a maldade do homem, mas o “homem grande
e malvado” faz‑nos pensar no seu tamanho. “Grande” passou para o
primeiro plano. Os verdadeiros linguistas não gostarão da definição acima,
mas os jornalistas, temo, às vezes têm de distorcer para tornar claro. Os presidentes também, ao que
parece. Porque fiz uma pequena análise linguística do discurso de George W.
Bush em Fort Bragg no passado dia 28 de Junho – e obtive alguns resultados
bastante estranhos. Em primeiro lugar, evidentemente, está o seu uso dos
termos “terrorismo” e “terror” 33 vezes. Mais interessante foi a forma
como mobilizou estas multitudinárias fileiras de terroristas. Se dividirmos o
seu discurso em oito partes, “terroristas” ou “terror” apareceu oito vezes na
primeira parte, oito vezes na segunda, três vezes na terceira, nove na quarta,
duas na quinta, nenhuma na sexta, umas miseráveis três na sétima e novamente
nenhuma na oitava. As colunas nas quais o “terror”
desapareceu estavam repletas de diferentes lugares comuns. O desafio, uma boa
Constituição (iraquiana, claro), a oportunidade de votar, uma sociedade
livre, certas verdades (não os insultarei dizendo-lhes de onde isso foi
tirado), defender a nossa liberdade, ondear a bandeira, grandes momentos de
viragem na história da liberdade, prevalecer (uma das palavras favoritas de Churchill)
e nenhuma causa ser maior. Processado na máquina de
Chomsky, o discurso de Bush começa por assustar a audiência de morte com o
terrorismo e termina triunfante, animando-a a abraçar a convicção patriótica
na futura vitória do seu país. Na verdade, não foi sequer um
discurso. Foi um roteiro cinematográfico, um guião. Os maus são realmente maus,
mas vão ter o merecido porque os bons vão ganhar. Outros elementos do discurso
de Bush foram, claro está, deploravelmente desonestos. É um pouco excessivo
Bush alegar que os «terroristas» querem «derrocar governos» quando os únicos tipos
que têm estado a fazer isso - no Afeganistão e no Iraque – são, hum, hum, os norte‑americanos. Há abundantes referências à
natureza maligna do “inimigo” – tirania, opressão, elementos remanescentes, a
velha ordem – e uma estranha nova versão da mentira sobre a influência
iraquiana no 11 de Setembro. Em vez da inexistente aliança de Saddam com a Al
Qaeda, agora temos a afirmação de Bush de que os «terroristas [iraquianos]
que matam homens, mulheres e crianças inocentes nas ruas de Bagdade, são
seguidores da mesma ideologia assassina que tirou as vidas dos nossos
cidadãos» em 11 de Setembro de 2001. Ups¡! Já não é o regime de Saddam que
esteve envolvido nos ataques, segundo parece; agora são os insurgentes pós‑Saddam
que são parte da mesma liga. É estranho que para uma Casa
Branca que escreve guiões, as palavras de Osama Bin Laden se apresentem tão
pouco interessantes. Cada vez que Bin Laden fala, ninguém se incomoda em ler
o seu discurso. As questões são sempre: Era ele? Está vivo? Onde está? Nunca:
O que foi que ele disse? Há perigos reais nisto.
Deixem-me demonstrar porquê. No dia 13 de Fevereiro de 2003, a mais recente
fita de áudio de Bin Laden foi transmitida pelo canal de satélite árabe Al
Jazeera. Isto, recordemos, ocorreu cinco semanas antes da invasão anglo‑americana. Nessa mensagem, Bin Laden fez
uma declaração em que afirmou que «está fora de dúvida de que esta guerra
cruzada é ... dirigida contra a família do Islão, independentemente de o
Partido Socialista e Saddam sobreviverem ou não ... Apesar das nossas crenças
ou da nossa proclamação a respeito da infidelidade dos socialistas, nas
circunstâncias actuais há uma coincidência de interesses entre muçulmanos e
socialistas nas suas batalhas contra os cruzados». Aí o têm. Bin Laden, que odiava Saddam – ele próprio me disse isto, em pessoa – fez um apelo aos seus seguidores para lutar ao lado de uma força iraquiana que incluía os “socialistas” baazistas iraquianos de Saddam. Este foi o momento em que a futura guerrilha iraquiana se fundiu com os futuros bombistas suicidas, a mensagem que originaria a detonação que envolveria o Ocidente no Iraque E nós nem sequer notámos. Os “especialistas” dos EUA tagarelaram sobre se Bin Laden estava vivo – não sobre o que ele disse. Por uma vez, Bush acertou – mas demasiado tarde. Sempre, dizem, há que ler o discurso. |