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10/10/2005 Naomi Klein Fora do refúgio temporário com 2.000 camas no River Center de Baton Rouge, uma banda da Igreja da Cientologia toca uma versão do clássico de Bill Withers Use Me – uma escolha refrescantemente honesta. «Se ser usado se sente assim tão bem», cantam os cientólogos, «continua a usar‑me até acabares comigo». Nyler, de 10 anos, jazendo de cara para baixo sobre uma mesa de massagens, tem uma atitude bastante parecida. Não está segura de porque é que a senhora simpática com a camisola amarela onde se lê “Pastora Voluntária da Cientologia” quer dar-lhe uma massagem, mas «sente‑se tão bem», diz-me, por isso que importa? Pergunto a Nyler se é a sua primeira massagem. «Assistência!», corrige a pastora voluntária, corrigindo a minha gíria cientóloga. Nyler nega com a cabeça; desde que fugiu de Nova Orleães depois de uma árvore ter caído sobre a sua casa, visitou muitas vezes esta tenda, tornando-se algo como uma assistência‑ólica. «Tenho nervos», explica numa voz descontraída pela massagem. «Tenho o que se chama nervosismo». Usando uma camisola cor‑de‑rosa doada, com um slogan pouco apropriado à sua idade («É o pequeno lugar oculto de Tiki onde os rapazes da ilha são bons, bons, bons”), Nyler diz‑me porque está tão nervosa. «Acho que nunca mais vão arranjar Nova Orleães». «Porque não?», pergunto, um pouco surpresa por estar a discutir política de reconstrução com uma pré‑adolescente de tranças. «Porque as pessoas que sabem arranjar casas estragadas foram todas embora». Não tenho a coragem de dizer a Nyler que suspeito que tem uma certa razão; que muitos dos trabalhadores afro‑americanos do seu bairro podem nunca mais regressar para reconstruir a sua cidade. Uma hora antes tinha entrevistado o mais importante lobbyista das corporações em Nova Orleães, Mark Drennen. Como presidente e director executivo da Greater New Orleans Inc. [Área Metropolitana de Nova Orleães, S.A.], Drennen estava de um humor expansivo, inflado pelos sinais que chegam de Washington de que as corporações que representa – da Chevron, ao Liberty Bank, à Coca‑Cola – estavam prestes a receber um pacote de isenções fiscais, subsídios e regulações relaxadas tão generosas que tornariam o trabalho de um lobbyista praticamente obsoleto. Escutando o entusiasmo de Drennen sobre as oportunidades abertas pela tempestade, fiquei surpreendida pela sua referência aos afro‑americanos de Nova Orleães como «a comunidade minoritária». Com 67% da população, são na verdade a clara maioria, enquanto brancos como Drennen constituem perfazem apenas 27%. Foi sem dúvida um simples lapso verbal, mas não pude evitar sentir que era também um vislumbre da demografia desejável da nova‑e‑melhorada cidade que está a ser imaginada pela sua elite branca, uma que não terá muito espaço para Nyler ou os seus vizinhos que sabem como arranjar casas. «Honestamente, eu não sei, e não creio que alguém saiba, como se vão inserir», disse Drennen dos desempregados da cidade. Nova Orleães já mostra sinais de uma mudança demográfica tão dramática que alguns evacuados a descrevem como uma “limpeza étnica”. Antes de o presidente de câmara Ray Nagin chamar a uma segunda evacuação, as pessoas que fluíam de volta às áreas secas eram maioritariamente brancas, enquanto aqueles que não têm casas a que voltar são esmagadoramente negros. Isto, asseguram‑nos, não é uma conspiração; é simples geografia – um reflexo do facto de que a riqueza em Nova Orleães compra altura. Isso significa que as áreas mais secas são as mais brancas (o bairro francês é 90 porcento branco; o Garden District, 89 porcento; Audubon, 86 porcento; o vizinho Jefferson Parish, onde também às pessoas voltar, 65 porcento). Algumas áreas secas, como Algiers, tinham uma grande população afro‑americana de baixos rendimentos antes da tempestade, mas entre os milhares de milhões para a reconstrução, não há orçamento para o transporte de volta dos longínquos refúgios onde esses residentes terminaram. Assim, mesmo quando a reinstalação é permitida, muitos podem não conseguir regressar. Quanto às centenas de milhares de residentes cujas casas em terrenos baixos e projectos de habitação foram arrasados pela inundação, Drennen aponta que muitos desses bairros eram disfuncionais à partida. Ele afirma que a cidade tem agora uma oportunidade para «pensamento de século XXI»: em vez de reconstruir guetos, Nova Orleães deveria ser repovoada com casas de «rendimentos mistos», com ricos e pobres, negros e brancos a viver lado a lado. O que Drennen não diz é que este tipo de integração urbana poderia acontecer amanhã, e numa escala massiva. Uns 70.000 dos evacuados mais pobres e sem lar de Nova Orleães poderiam voltar à cidade lado a lado com os proprietários de casas brancos retornados, sem se construir uma só nova estrutura. Vejamos o Garden District, onde o próprio Drennen vive. Tem uma taxa de desocupação surpreendentemente alta –17,4%, segundo o censo de 2000. Nessa altura, 702 unidades de habitação estavam desocupadas e, como o mercado não melhorou e o distrito mal foi inundado, estão presumivelmente ainda ali e ainda vazias. O mesmo se passa nas outras áreas secas: com senhorios que preferem entaipar apartamentos em vez de baixar as rendas, o bairro francês tem estado meio vazio há anos, com uma taxa de desocupação de 37 porcento. Os números gerais da cidade são surpreendentes [1]: nas áreas que sofreram só danos menores e que estão na lista de repovoamento do presidente de câmara, há pelo menos 11.600 apartamentos e casas vazios. Se incluirmos Jefferson Parish, esse número sobe para 23.270. Com três pessoas por unidade, isso significa que poderiam ser encontradas casas para uns 70.000 evacuados. Com o número de residentes da cidade permanentemente sem lar estimado em 200.000, isso seria uma significativa diminuição da crise de habitação. E é realizável. A representante democrata Sheila Jackson Lee, cujo distrito em Houston inclui uns 150.000 evacuados do Katrina, diz que há formas de converter os apartamentos vazios em casas de preços acessíveis ou gratuitas. Depois de aprovar uma lei, as cidades poderiam emitir certificados sob a Secção 8, cobrindo a renda até que os evacuados encontrem emprego. Jackson Lee diz que planeia introduzir legislação que pedirá fundos federais para que sejam gastos precisamente nesses pagamentos de renda. «Se existe a oportunidade de criar opções viáveis de habitação», diz, «deveriam ser exploradas». Malcolm Suber, um activista comunitário de Nova Orleães de longa data, ficou chocado ao saber que milhares de lares habitáveis estavam vazios. «Se há casas vazias na cidade», diz, «então os trabalhadores e a gente pobre deveria poder viver nelas». Segundo Suber, ocupar as unidades vazias faria mais do que prover o muito precisado refúgio imediato: devolveria os pobres à cidade, prevenindo que as decisões chave sobre o seu futuro – como a de saber se transformar Ninth Ward num pântano ou como reconstruir o Hospital da Caridade – sejam tomadas exclusivamente por aqueles que podem pagar terrenos em terras altas. «Temos o direito de participar plenamente na reconstrução da nossa cidade», diz Suber. «E isso só pode acontecer se voltarmos a ela». Mas concorda que será uma luta: as famílias com pergaminhos em Audubon ou no Garden District podem elogiar a habitação de “rendimentos mistos”, «mas os bourbons da parte alta da cidade teriam um chelique se um inquilino favorecido pela secção 8 se mudasse para a casa ao lado. Será certamente interessante». Igualmente interessante será a resposta da administração Bush. Até agora, o único plano para devolver residentes sem lar a Nova Orleães é a bizarra Lei de Terrenos Urbanos de Bush. No seu discurso no bairro francês, Bush não mencionou os cerca de 1.700 apartamentos do bairro por alugar e, em vez disso, propôs fazer uma lotaria para entregar lotes de terra federal às vítimas da inundação, que poderiam construir casas neles. Mas levará meses (pelo menos) antes de serem construídas novas casas, e muitos dos residentes mais pobres não poderão pagar as hipotecas, não importa quão subsidiadas. Além disso, mal cobre as necessidades: a administração Bush estima que em Nova Orleães há terra apenas para 1000 “terratenentes”. A verdade é que a determinação da Casa Branca em converter arrendatários em pagadores de hipotecas tem menos a ver com a resolução da crise de habitação no Louisiana do que com o comprazimento numa obsessão ideológica em construir uma “sociedade da propriedade” radicalmente privatizada. É uma obsessão que já começou a envolver toda a zona de desastre, com ajuda de emergência providenciada pela Cruz Vermelha e pela Wal-Mart e com os contratos de reconstrução entregues a Bechtel, Fluor, Haliburton e Shaw – o mesmo gangue que passou os últimos três anos a receber milhares de milhões sem conseguir levar os serviços essenciais do Iraque aos níveis que tinham antes da guerra [2]. A “reconstrução”, seja em Bagdade ou em Nova Orleães, tornou-se num atalho para uma transferência massiva ininterrupta de riqueza das mãos públicas para as privadas, seja na forma de contratos governamentais de “custo adicional” ou de leilões de novos sectores do Estado às corporações. Esta visão foi proposta sem disfarces durante uma reunião nos escritórios centrais da Heritage Foundation, em Washington, em 13 de Setembro. Estiveram presentes membros do Comité Republicano de Estudos da Câmara de Representantes, uma capelinha de mais de 100 legisladores conservadores encabeçados pelo congressista de Indiana Mick Pence. O grupo compilou uma lista de trinta e duas «Ideias pró mercado livre para responder ao furacão Katrina e aos altos preços do gás» [3], incluindo vales escolares, eliminar legislação ambiental e «procurar petróleo no Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Árctico». Claramente, parece forçado que estas [ideias] sejam adoptadas como ajuda às vítimas necessitadas de um sector público estripado. Até que se lêem os três primeiros pontos: «Suspender automaticamente as leis Davis-Bacon sobre salários por convénio nas áreas de desastre»; e «Tornar toda a área afectada uma zona de competitividade económica (incentivos fiscais abrangentes e levantamento de regulações). Todas estão posicionadas para se converterem em lei ou foram já adoptadas por decreto presidencial. A seu modo, os criadores da lista da Heritage não são diferentes dos 500 pastores cientólogos voluntários actualmente mobilizados nos refúgios por todo o Louisiana. «Literalmente seguimos o furacão», disse‑me David Holt, um supervisor da igreja. Quando lhe perguntei porquê, apontou um letreiro amarelo onde se lia «Algo se pode fazer sobre isso». Perguntei-lhe o que era o “isso” e ele disse «tudo». Assim é também com os verdadeiros crentes neoconservadores: as suas políticas de “ajuda pelo Katrina” são as mesmas debitadas para todos os problemas, mas nada lhes dá tanta energia como um bom desastre. Como diz Bush, as terras destroçadas são “zonas de oportunidade”, uma ocasião para fazer um pouco de recrutamento, impulsionar a fé, inclusive rescrever as regras a partir do zero. Mas isso, evidentemente, requererá um pouco de massagem – quero dizer, de assistência. _____ [1] Naomi Klein, Doing the Math,
The Nation, 10/10/2005. [2] Naomi Klein, A ascensão do capitalismo das catástrofes, 02/05/2005. [3] Naomi Klein, GOP
Opportunity Zone, The Nation, 10/10/2005. |