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14/09/2006
Breve reflexão sobre holocaustos Miguel Urbano Rodrigues Uma ofensiva de desinformação tem acompanhado a guerra criminosa que
atinge o povo do Líbano e a agressão permanente contra o povo da Palestina.
Na Europa e nos Estados Unidos a comunicação social, especialmente os
colunistas dos grandes jornais, esforçam-se por desculpabilizar Israel, aceitando
como válida a tese da “legítima defesa”. A invasão do Sul do Líbano e os bombardeamentos das cidades daquele
país assim como os ataques a Gaza seriam, afinal, uma resposta à recusa da
libertação de soldados “sequestrados” pelo Hezbollah e por milícias do Hamas.
Talvez “desproporcionada”, mas justificada pelas exigências da luta contra “o
terrorismo”. Os média ocidentais que definem como terroristas os palestinianos
encarcerados nos presídios de Israel omitem que os soldados israelenses
capturados são, afinal, prisioneiros de guerra. A linguagem utilizada é, por
si só, esclarecedora da manipulação das consciências. A exigência da troca de
prisioneiros apresentada pelo Hezbollah não é tratada com seriedade pelos
analistas. A realidade transparente tem um toque de surrealismo: alegadamente
para libertar três soldados, Israel matou mais de um milhar de pessoas e
reduziu a montes de escombros as cidades libanesas. Tal como tem ocorrido em crises similares, o agressor é retratado
como uma nação cercada que luta pela sobrevivência, hostilizada
permanentemente por organizações terroristas. A nota emocional é frequente. O tema do Holocausto funciona como
argumento para justificar a necessidade da defesa de um povo que sofreu como
nenhum outro os efeitos da barbárie humana. E ai de quem ouse lembrar que outros povos foram vítimas de
genocídios similares, não sendo uma excepção a tragédia que desabou sobre os
judeus durante o Reich nazi. Intelectuais que lembraram essa evidência logo
foram acusados de anti-semitas e de fundamentalistas pró árabes e alvo de
campanhas de descrédito. O monstruoso comportamento do Estado sionista nas últimas semanas
torna entretanto necessário enfrentar o tabu do Holocausto. Em primeiro lugar cabe recordar às novas gerações que a palavra,
vinda do grego antigo, tem origem em sacrifícios rituais, pagãos, em que
animais eram oferecidos aos deuses. Foi a partir do século XIX que a palavra holocausto passou a
designar grandes massacres. E somente após a Segunda Guerra Mundial esse
termo, com maiúscula, apareceu ligado ao extermínio dos judeus pelo nazismo. A vida proporcionou-me a oportunidade de visitar o campo da morte de
Aushwitz, na Polónia. O que ali vi e senti deixou em mim marcas inapagáveis.
Recordo que na longa viagem de regresso a Varsóvia não fui capaz de proferir
uma palavra. Em nenhum outro lugar foram abatidos como animais nas câmaras da
gás tantos judeus. Os sofrimentos dessas vítimas da irracionalidade criminosa
do fascismo mereceram e merecem o meu profundo respeito. Mas esquecer que em Aushwitz como em Birkenau, Treblinka e outros
campos de extermínio hitlerianos foram assassinados milhões de prisioneiros
que não eram judeus é desrespeitar a história. As SS também fabricaram
margarina com a gordura de gente não judia. Vi abat jours feitos com a
pele de russos. OUTROS HOLOCAUSTOS
O cientista político James Petras, da Universidade de Nova Iorque,
num lúcido ensaio – Twenty Century Holocausts [1] – criticou recentemente a
insistência do sionismo em transformar o Holocausto numa tragédia sem
precedentes da qual os judeus teriam sido as únicas vítimas. E citou
numerosos exemplos de outros holocaustos, a maioria no Século XX. Recordou nomeadamente que o Reich nazi é responsável pela morte de
mais de vinte milhões de soviéticos durante a II Guerra e de muitos outros
milhões de não judeus em países europeus ocupados. Evocou também as matanças de milhões de asiáticos e africanos pelas
potências imperialistas, sobretudo no século XIX. O genocídio dos arménios pelos turcos durante a I Guerra Mundial foi
igualmente um gigantesco holocausto quase esquecido. E os holocaustos de índios na América, quem fala deles hoje? O dos primitivos povoadores dos Estados Unidos é conhecido através
do cinema, mas pouca gente tem conhecimento da hecatombe dos índios da
América do Sul. Quantos europeus sabem que a conquista do México pelos
espanhóis quase despovoou aquele país? Um século após a chegada de Cortés,
dos 10 milhões de habitantes restava apenas um. E haverá Holocausto mais abjecto e monstruoso do que o resultante da
escravatura? Os historiadores admitem que mais de um quarto dos 19 milhões de
escravos transportados da África sub-sahariana para a América morreram
durante a travessia do Atlântico. Outros milhões pereceram nas plantações
vendidos e tratados como gado. Os exemplos de holocaustos de povos são muitos. Erigir o dos judeus
num genocídio sem precedentes é deformar a História com objectivos políticos. Não cabe neste texto uma reflexão crítica sobre a utilização do
Antigo Testamento para justificar a criação do Estado de Israel. Mas a
agressão irracional e abjecta de que é vitima o povo da Palestina martirizada
torna um dever recordar que os seus antepassados já ali viviam muito antes da
chegada dos primeiros judeus no século X antes da Nossa Era. Os árabes são um povo semita como os judeus. Irmãos pela origem, com
línguas da mesma família. Esse parentesco não impede que o Estado sionista de
Israel, com instituições ainda formalmente democráticas, imite hoje na região
em agressões de contornos fascistas o comportamento criminoso de que os
judeus foram vítimas quando perseguidos e chacinados pelo III Reich. Com a
peculiaridade de que as vítimas das bombas israelenses são desta vez
crianças, mulheres e homens libaneses, gente civil, cristã e muçulmana, que
vive além da fronteira do Estado judaico, mas nunca pegou em armas contra os
filhos da terra de Sion. Esta guerra, concebida por Israel com o apoio dos EUA, configura
como acto de barbárie, um crime contra a humanidade. ________ [1] James Petras, Modernity and Twentieth Century
Holocausts: Empire-Building and Mass Murder, Axis of
Logic, 21/07/2006 (n. IA). |