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07/12/2006 Estabelecendo os limites do jornalismo de invasão Em 14 de Novembro, Bridget Ash escreveu ao programa Today da BBC a
perguntar porque a invasão do Iraque era descrita simplesmente como “um
conflito”. Ela não conseguia recordar-se de outras invasões sangrentas
reduzidas a “um conflito”. Recebeu esta resposta: Cara Bridget Você pode discordar, mas penso que há uma grande diferença entre as “invasões”
agressivas de ditadores como Hitler e Saddam e a “ocupação”, ainda que mal
planeada e executada, de um país para fins positivos, como no esforço da
Coligação no Iraque. Fielmente seu, Roger Hermiston Editor Assistente, Today Ao demonstrar como funciona a censura em sociedades livres e o duplo
padrão que sustenta a fachada de “objectividade” e “imparcialidade”, a polida
profanidade de Roger Hermiston oferece uma exposição valiosa. Uma invasão não
é uma invasão se “nós” a fazemos, sem importar as mentiras que a justificaram
e o desprezo demonstrado pelo direito internacional. Uma ocupação não é uma
ocupação se “nós” a executarmos, não importa que os meios para os nossos “fins
positivos” exijam as mortes violentas de centenas de milhares de homens,
mulheres e crianças, e uma desnecessária tragédia sectária. Aqueles que usam
eufemismos para se referirem a estes crimes são aqueles que Arthur Miller
tinha em mente quando escreveu: «O pensamento de que o estado... está a punir
tantas pessoas inocentes é intolerável. E assim a evidência tem de ser negada
internamente». Miller podia ter sido menos caridoso caso se tivesse referido
directamente àqueles cujo trabalho é manter o registo correcto. A ubiquidade da visão de Hermiston foi iluminada na véspera de
Bridget Ash ter escrito a sua carta. Enterrada no final da página sete na
secção de media do Guardian estava uma notícia de um estudo sem
precedentes das universidades de Manchester, Liverpool e Leeds sobre as
reportagens que conduziram à invasão do Iraque e durante a mesma. Este
concluía que mais de 80 por cento dos media seguiu infalivelmente «a linha do
governo» e menos de 12 por cento a desafiaram. Esta investigação não habitual,
e reveladora, está na tradição de Daniel Hallin da Universidade da Califórnia,
cujo trabalho pioneiro sobre a reportagem do Vietname, The Uncensored War,
descartou o mito de que os media supostamente liberais da América haviam
minado o esforço de guerra. O mito tornou-se a justificação para a moderna era de “spin”
governamental e a “incorporação” (controlo) de jornalistas. Concebida pelo
Pentágono, foi entusiasticamente adoptada pelo governo de Blair. O que Hallin
mostrou — e foi muito claro na época no Vietname, devo dizer — foi que
enquanto organizações de media “liberais” tais como o New York Times e
a CBS Television eram críticas das tácticas e “erros” da guerra, expondo mesmo
umas poucas das suas atrocidades, raramente desafiaram os seus motivos positivos
— precisamente a posição de Hermiston sobre o Iraque. A linguagem era, e é, crucial. O equivalente da linguagem
desinfectada da BBC no Iraque de hoje é pouco diferente da “nobre causa” da
América no Vietname, a qual foi seguida pela “tragédia” do “pântano” da
América — quando a tragédia real foi sofrida pelos vietnamitas. A palavra “invasão”
foi efectivamente banida. O que mudou? Bem, o “dano colateral”, o obsceno
eufemismo inventado no Vietname para a matança de civis, já não exige o uso
de aspas num editorial do Guardian. O que é refrescante acerca do novo estudo britânico é a sua compreensão
da crença e da protecção dos media corporativos da reputação benigna dos
governos ocidentais e dos seus “motivos positivos” no Iraque,
independentemente da verdade demonstrável. Piers Robinson, da Universidade de
Manchester, que dirigiu a equipa de investigação, diz que a «razão
humanitária» tornou-se a principal justificação para a invasão do Iraque e
foi ecoada pelos jornalistas. «Este é o novo imperativo ideológico modelando
os limites dos media», afirma ele. «E o governo de Blair foi muito eficaz a
promovê-la entre os internacionalistas liberais nos media». Foi a campanha do
Kosovo de 1999, promovida por Blair e devidamente ecoada como uma “intervenção
humanitária”, que estabeleceu os limites para o moderno jornalismo de
invasão. A aventura do Kosovo foi há muito exposta como uma fraude que ridiculariza as advertências de um “novo genocídio como o Holocausto”, embora pouco disto tenha sido noticiado. Tal como se o nosso longo rastro de sangue fosse, intelectualmente e moralmente, invisível para sempre. Certamente, já é tempo de que aqueles que dirigem as faculdades de jornalismo comecem a alertar os futuros jornalistas para o seu insidioso papel de lacaios. |