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19/06/2006 As guerras pelos recursos
naturais Vandana Shiva Guerras pelo petróleo,
guerras pela água, guerras por terras, guerras atmosféricas: este é o
verdadeiro rosto da globalização económica, cujo apetite por recursos
naturais supera os limites da sustentabilidade e da Justiça. Onde há petróleo
há conflitos. Não importa em que medida a aparência de uma guerra de culturas
apareça vinculada às invasões do Afeganistão e Iraque (e a ameaça de uma acção
semelhante no Irão), porque a realidade era, e é, que se trata de guerras
pelo petróleo. Também a água está a
converter‑se numa fonte de guerras, na medida em que é privatizada,
convertendo‑se em mercadoria. Grandes represas desviam a água dos
sistemas naturais de drenagem dos rios. Alterar o fluxo de um rio também
modifica a distribuição da água, especialmente se isso implica transferências
de água entre várias bacias. Estas mudanças provocam, frequentemente,
disputas entre Estados ou províncias que rapidamente degeneram em conflitos
entre governos centrais e nações. Cada rio da Índia é motivo de
importantes e insolúveis problemas a respeito da propriedade da água e sua
distribuição. No continente americano, o conflito entre Estados Unidos e México
pela água do Rio Colorado intensificou‑se em anos recentes. As águas
dos rios Tigre e Eufrates, que sustentaram a agricultura durante milhares de
anos na Turquia, Síria e Iraque, foram a causa de vários importantes choques
entre esses países. Os dois rios nascem na Turquia, cuja posição oficial é “A
água é tão nossa como o petróleo do Iraque é do Iraque”. A guerra entre israelenses e
palestinianos é, em certa medida, uma guerra pela água. O motivo é o Rio
Jordão, usado por Israel, Jordânia, Síria, Líbano e Cisjordânia. A
agricultura em escala industrial de Israel requer água desse Rio, bem como
das águas subterrâneas da Cisjordânia. Embora somente 3% da bacia do Jordão
esteja em território israelense, esta área proporciona 60% das necessidades
de água de Israel. A guerra de 1967 foi, de facto, uma guerra pela água das
Colinas de Golã, do Mar da Galileia, do Rio Jordão e da Cisjordânia. Os financiamentos do Banco
Mundial e do Banco de Desenvolvimento da Ásia também desencadeiam guerras
pela água entre Estados e cidadãos. Por exemplo, quando uma represa foi
construída no Rio Banas, no Estado indiano de Rajastan, para desviar água
para as cidades de Jaipur e Ajmer, cinco aldeões que faziam um protesto
pacífico contra a obra foram mortos a tiros pela polícia, em Agosto de 2005.
Em lugar de reconhecer que a pisada ecológica da globalização está a sufocar
terras e povos, a nova elite, desarraigada cultural e intelectualmente,
afirma que há excesso de população. E chega-se a falar dos recursos naturais
como uma desvantagem comparativa. Entretanto, é precisamente a
liberalização do comércio, que está a permitir às corporações invadir o
espaço ecológico das comunidades locais, o que desencadeia conflitos. Para as
comunidades locais, os recursos naturais como a terra e a água têm claramente
valor. Negar valor às fontes desses recursos é negar direitos fundamentais e
os usos prioritários das terras e da água. O problema não são os recursos
naturais, mas o livre comércio e a globalização. O problema não são as
pessoas, mas a cobiça das corporações empresariais e as associações entre
elas e os Estados, a fim de usurpar os recursos do povo e violar os seus
direitos fundamentais. Se a globalização é empunhada implacavelmente para se apoderar desses recursos, aumentarão as guerras e a globalização se tornará mais lenta, até deter-se por causa das catástrofes ecológicas e dos conflitos pelos recursos naturais. Se, ao contrário, os movimentos a favor da sustentabilidade ecológica e da justiça social tiverem êxito em resistir aos excessos da globalização, poderemos viver com alegria no nosso planeta e compartilhar equitativamente os seus recursos vitais. |