|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
19/07/2008 Silvia Ribeiro * A Monsanto declarou há dias à imprensa que a próxima publicação do
chamado regime especial de protecção do milho lhe permitirá iniciar
experiências com milho transgénico. Que ironia histórica que tal regime, em vez
de proteger o milho e os seus povos, seja outro presente que o governo faz às
transnacionais que privatizaram as sementes, chave de toda a rede alimentar e
património camponês legado à humanidade. Para cúmulo: produzem menos! Em Abril de 2008, a Universidade do Kansas publicou um estudo que
demonstra, depois de analisar a produção da cintura cerealífera dos Estados
Unidos durante os últimos três anos, que a produtividade dos cultivos
transgénicos (soja, milho, algodão e canola) foi menor que na época anterior
à introdução de transgénicos. A soja apresenta uma diminuição de rendimento
de até 10 por cento. A produtividade do milho transgénico foi em vários anos
menor e em alguns igual ou imperceptivelmente maior, dando um resultado total
negativo comparado com as variedades convencionais. Também mostram menor
rendimento a canola e o algodão transgénico tomados em períodos de vários
anos. (E, em todos os casos, as sementes são mais caras que as convencionais,
pelo que a margem de ganho dos agricultores também é menor). Este estudo corrobora vários anteriores. Em 2007, a Universidade de
Nebraska descobriu que a soja transgénica da Monsanto produzia 6 por cento
menos que a mesma variedade da empresa em versão não transgénica e até 11 por
cento menos que a melhor variedade disponível de soja não transgénica. Outros
estudos, inclusive um do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos em Abril
2006, mostram resultados similares: definitivamente, os transgénicos não são
mais produtivos. A razão principal, explicam os estudos, é que a transgenia altera o
metabolismo das plantas, o que em alguns casos inibe a absorção de nutrientes,
e em general, exige maior energia para expressar características que não são naturais
da planta, retirando‑lhe capacidade para se desenvolver plenamente. A explicação da Monsanto face ao estudo da Universidade do Kansas,
foi que «os transgénicos não estão desenhados para aumentar a produtividade»
(The independent, 20/04/2008). A Monsanto, a Dupont-Pioneer e a Syngenta são as três maiores empresas
do mundo em transgénicos, e também em todo tipo de sementes comerciais. A Monsanto
controla quase 90 por cento das sementes transgénicas, e, juntas, controlam
39 por cento do mercado mundial de todas as sementes, e 44 por cento das
sementes sob propriedade intelectual. Por que então estas empresas – que também são donas das sementes
híbridas não transgénicas – fazem questão de vender as suas sementes que
produzem menos e requerem mais agroquímicos? Em parte porque, além do mais,
são grandes fabricantes de agroquímicos, mas sobretudo porque todos os
transgénicos são patenteados e, por isso, a contaminação converte‑se
num grande negócio. As sementes híbridas também se cruzam com variedades nativas. Mas são
cruzamentos de milho com milho, ao contrário dos transgénicos, onde o cruzamento
contamina genes de bactérias, vírus ou qualquer outra espécie com a qual
tenha sido manipulado. Mas a diferença fundamental para as empresas, é que,
com os transgénicos, a contaminação é um delito imputável às vítimas. Qualquer camponês ou agricultor que seja contaminado ou que use as
sementes transgénicas que lhe foram compradas pela Monsanto e as volte a
plantar (ou seja, exerça o “direito dos agricultores”) usa a sua patente sem
permissão e comete um delito pelo qual pode ser processado. A Monsanto já cobrou mais de 21.500 milhões de dólares através de julgamentos
contra agricultores nos Estados Unidos (Center for Food Safety). Acaba agora
de iniciar um julgamento mais agressivo, contra a totalidade da cooperativa
de agricultores Pilot Grove Cooperative Elevador Inc. do Missouri. Segundo a
Monsanto, não lhe são pagas suficientes regalias. O agricultor David
Brumback, que se autodefine como «fiel comprador» dos transgénicos da
Monsanto há anos, expressa a sua raiva e afirma que «para a Monsanto todos
somos culpados» (CBS 4 Denver, EUA, 10/07/2008). É isto o que espera os
agricultores do Norte do México, que pedem milho transgénico. E também os que
não o queiram e sejam contaminados. Uma vez no campo, a contaminação transgénica é inevitável, é só
questão de tempo. As medidas que o vergonhoso “regime de protecção” propõe, esgrimidas
pela Semarnat e pela Sagarpa, não são apenas limitadas e ignorantes.
Directamente não fazem sentido, porque nunca se repetirão em condições reais
nos campos dos agricultores, se for aprovado o cultivo comercial. As chamadas
“experiências” são outra falácia, como a lei Monsanto e o seu regulamento,
para legalizar às transnacionais a contaminação generalizada e a caça de
agricultores, contra o coração dos povos e à custa do património genético
mais importante do México. ______ * Investigadora do Grupo ETC |