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Data não indicada Entrevista ao realizador
de Nada a esconder, Michael Haneke Antoine de Baecque Libération; retirado de Atalanta
Filmes (doc) Com a sua barba branca e o seu sorriso afável, Michael Haneke, 63 anos, esconde bem o seu jogo: o de um dos cineastas mais inquietantes da época. Encontro com um homem que vive entre Viena e Paris, entre duas línguas, duas culturas. Mas com uma única obsessão: pôr o dedo na ferida. Em Cannes, até ao último momento, Nada a
esconder era o filme favorito: Não ficou desiludido? Já vi tantos favoritos passar ao lado do palmarés. Há coisas piores na vida do que receber o Prémio de Melhor Realizador em Cannes. Teria ficado contente com a Palma, mas estou ainda mais com a óptima recepção internacional do filme, o que é uma novidade, mesmo na América, onde não costumam gostar de filmes em aberto. O filme já foi vendido para 50 países. Michel Houellebecq elogiou o seu cinema em Possibilité
d’une île... Foi um grande elogio. Gosto muito do Houellebecq. Li Extension du domaine de la lutte e Particules Élémentaires – estão todos traduzidos na Alemanha, onde é muito conhecido. É o escritor contemporâneo em que me sinto mais em casa: vivo no mesmo mundo que este homem. Mesmo que não tenha nada a ver com ele, o seu mal‑estar é o mesmo que o meu. Ele escreve livros muito realistas, não são exagerados nem pessimistas, e acho que existe neles muita compaixão pelas personagens. É isso que conta: as pessoas que admira pensarem em si. Porque explora a culpabilidade colonial francesa? Remexo na história. Gosto disso. Foi semelhante na Áustria, onde há tantos buracos negros que a culpabilidade individual acaba por se fundir na culpabilidade nacional. Os factos existem: há 50 anos, os franceses agiram mal na Argélia, mas a memória colectiva do país não o aceitou. Aconteceu o mesmo na Áustria: ninguém era nazi durante a guerra, eram todos vítimas. Esta espécie de cegueira voluntária deixa-me louco. Como nasceu Nada a esconder? Primeiro da vontade de trabalhar com Daniel Auteuil. Há um segredo nele. Alguns actores oferecem‑nos tudo. Ele guarda algo, como Trintignant. Queria também fazer um filme sobre a culpabilidade, a culpa que vem da infância, das asneiras que fazemos aos 5 anos. O filme confronta um homem com o que ele fez quando era criança. E a sua escolha é reagir ou não à culpabilidade do passado. Não reagir, querer esquecer, é normal, mas aí ele sente‑se mal. Toma dois comprimidos para dormir. É um pouco cobarde: «O que faríamos para não perder nada?», diz-lhe a vítima. É essa a frase chave. Para ilustrar este lado desconfortável, parti dum documentário sobre a manifestação do FLN reprimida pela polícia francesa, em Paris, em Outubro de 1961. A forma do filme é muito peculiar. Quis desestabilizar. Nunca podemos dizer se a imagem da cassete de vídeo é o ponto de vista objectivo e o do cinema o ponto de vista subjectivo. Já não sabemos onde estamos: tudo é igualmente filmado com uma câmara HD. Os níveis de imagens são idênticos, e isso cria uma dúvida sobre a realidade. Não foi por acaso que todos os grandes escritores alemães abandonaram o romance depois da guerra: ficaram desconfiados da manipulação das palavras e das imagens. O que sempre me interessou, nos livros, filmes, quadros foi a desestabilização. No filme há um suicídio impressionante, porquê? É o plano mais importante do filme: se a cena não fosse credível, todo o filme teria falhado. Era preciso que acontecesse num só gesto. E cinematograficamente era muito difícil. Um plano fixo, rápido, de um realismo terrível. Fizemos três takes, não mais. Foi muito duro para o actor, cair como uma pedra. Porquê o lado de sátira da televisão? Trabalhei durante vinte anos na produção de emissões parecidas com a que Auteuil apresenta em Nada a esconder, emissões “inteligentes”. Mas a inteligência não protege da cobardia. E o famoso último plano aberto? Cada um pode encontrar aí a sua solução. Mas a maioria das pessoas em Cannes não viam nada! E se se vê algo aí ainda há mais interpretações possíveis. Escrevi um diálogo para as personagens, antes da rodagem. Sei o que eles dizem, qual o sentido, mas não vou contá-lo. |