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10/07/2008 A Literatura e o realismo social – Nos 110 anos do nascimento de Ferreira de Castro – Domingos Lobo Desde Camilo que a nossa ficção se deixou seduzir (e,
quanto a mim, bem) pela realidade portuguesa. A realidade que estava ao rés
dos olhos, bastava para tanto fixar o olhar e ela entrava-nos pelos
neurónios, a doer, atrelava-se à prosa como lapa à rocha em manhãs de
vendaval. Com Camilo e com Júlio Diniz e, mais tarde, com Eça de Queirós,
começávamos a saber pensar, literariamente, a realidade circundante, nossa e
intransmissível – os seus mais obscuros linimentos. Camilo, nos seus romances, nos interstícios da poeira
romântica, convocava o Povo para o pôr a servir, para figura subalterna,
passiva e serviçal. Eça, que pertenceu a uma geração que sonhava um projecto
de transformação da sociedade portuguesa, de cariz progressista, influenciado
por Hegel e, sobretudo, por Proudhon, limitou-se a uma crítica mordaz dos
comportamentos da burguesia e da aristocracia endinheirada, de denúncia aos
excessos lúbricos do clero, relegando, quase sempre, as classes trabalhadoras
para um papel de observadores passivos ou de meros instrumentos ocasionais do
jogo de intriga. Devemos-lhe, contudo, esse notável texto, lido nas
Conferências do Casino, A Nova Literatura – O Realismo como nova expressão
da Arte, a partir do qual a literatura portuguesa rompia, definitivamente,
com os maneirismos barrocos e com o romantismo e assumia a crítica social,
denunciando excessos e injustiças mais chocantes. Mas Eça e seus companheiros
da Geração de 70, nunca chegaram, nos seus textos, a dar «verdadeiramente voz
às camadas populares» [1]. A voz do Povo, enquanto sujeito da história, só
aconteceria na nossa Literatura anos depois, através da pujante obra
romanesca de Ferreira de Castro. Embora no romance naturalista O Amanhã,
de Abel Botelho, publicado na última década do século XIX, o protagonista
seja um tipógrafo anarquista, prenúncio já de algum inconformismo social, é
através do romance Emigrantes, publicado em 1928, que Ferreira de
Castro inaugura na nossa ficção o realismo social, o qual antecipa, nos
aspectos mais abrangentes e determinantes da denúncia da opressão do capital
sobre o trabalho, o neo-realismo. Ferreira de Castro nasceu em Ossela, Oliveira de
Azeméis, a 24 de Maio de 1898. Filho de camponeses pobres, emigra para o Brasil
com 12 anos de idade. Em Portugal vivia-se ainda a aura romântica (muito
camiliana) do “brasileiro‑torna-viagem”, que buscava em Terras de Vera
Cruz o seu El Dourado. Nada disso aconteceu com Ferreira de Castro: para o
Brasil partiu com uma mão cheia de nada e de lá regressou com outra cheia de
coisa nenhuma. Mas, para o jovem que já escrevia poemas na sua Ossela natal e
aos dezoito escreve o seu primeiro romance, Criminoso Por Ambição,
publicado em forma de folhetim, a experiência de quatro anos vividos no
seringal Paraíso, em plena selva amazónica, haveria de constituir-se como
determinante para a sua produção ficcional. O jovem emigrante recolheria na
selva amazónica, através dos trabalhos mais duros e humilhantes, ao nível da
semi-escravatura, mas igualmente em Belém do Pará, em S. Paulo e no Rio de
Janeiro, elementos e vivências que lhe permitiram construir uma obra de 31
livros, entre romances, memórias de viagens e ensaio sobre arte, tornando-se
o escritor português mais traduzido e conhecido do seu tempo e um dos mais
prestigiados e universalmente estudados de toda a nossa Literatura. É numa viagem a Manaus, logo após a publicação de Criminoso
Por Ambição, que Ferreira de Castro, em contacto com outros compatriotas
pobres que no Brasil não encontram o paraíso prometido pelos engajadores,
obterá os elementos que lhe permitiram a elaboração do livro Emigrantes,
a sua primeira obra de fôlego, na qual se detecta já a estrutura novelesca,
embora ainda com algumas fragilidades formais, que edificará o melhor da sua
vasta obra. Manuel da Bouça, o protagonista de Emigrantes, camponês
pobre e analfabeto, vai para o Brasil na esperança de conseguir fortuna para
arranjar dote para a filha e poder comprar as leiras que fazem estrema com as
suas. Mas o sonho desfaz-se e Manuel da Bouça regressa à pátria mais pobre do
que partira e já desapossado das courelas que deixara como penhor do bilhete
para a viagem. Só regressa, mesmo pobre e humilhado, porque os acasos da
sorte o atiram para a confusão de uma revolta e ele consegue ficar com os
anéis, a corrente e o relógio de um dos mortos na contenda. O profundo
humanismo de Ferreira de Castro está patente na forma como olha para este
homem desapossado, pela usura, dos resquícios de dignidade, como lhe percorre
os sobressaltos das noites despovoadas, o acompanha, com solidário
estremecimento, até à vergonha que o espera no seu regresso à aldeia. Aí
chegado, é obrigado a mentir, a inventar um sucesso que não houve. Parte para
Lisboa, espiando, na cidade grande, longe dos olhares dos seus conterrâneos,
o fracasso e a mentira. ESCRITA ACTUAL E COM FUTURO A sua obra-prima, a obra que o tornará conhecido
internacionalmente é, sem dúvida, A Selva. Os seus anos de adolescente
passados no seringal serviram-lhe para tornar verosímil esse inferno vivido
pelos homens na floresta amazónica, para nos dar a dimensão da avareza, da
tirania, da sujeição a que os trabalhadores são expostos por um sistema
desumano e esclavagista. Em A Selva, o personagem principal não é
Alberto, o jovem monárquico fugido a uma revolução perdida, mas a selva
amazónica, esse vasto espaço indomesticável, rude e impenetrável, perante a
qual os homens que a habitam exibem os seus mais primitivos instintos: «Era
um mundo à parte, terra embrionária, geradora de assombros e tirânica,
tirânica! (…) Ali não existia mesmo a árvore. Existia o emaranhado vegetal,
louco, desorientado, voraz, com alma e garras de fera esfomeada. (…) Os
homens eram títeres manejados por aquela força oculta, que eles julgavam,
ilusoriamente, ter vencido com a sua actividade, o seu sacrifício e a sua
ambição.» [2] O teórico alemão Wolfgang Kayser, refere, no ensaio Análise
e Interpretação da Obra Literária, que A Selva «é nitidamente um
romance de espaço», de um «espaço geográfico e telúrico, em que se vem
inscrever o espaço social». A arte literária de Ferreira de Castro é visionária, não
só porque antecipa, brilhantemente, o humanismo neo‑realista, mas por
abrir à literatura outros horizontes geográficos e civilizacionais até então
ausentes da ficção narrativa: a vida na selva amazónica, a emigração, as
preocupações ecológicas. Em O Instinto Supremo, Ferreira de Castro ergue a
voz corajosa e solidária, para defender os índios do Brasil, as ameaças que
pairam sobre o seu modo de vida, cultura e costumes, que a cupidez dos
colonos vai fazendo desaparecer. É toda uma cultura ancestral, restos da
civilização ameríndia, que máquinas infernais do capitalismo vão destruindo
quilómetro a quilómetro. O Instinto Supremo antecipa em algumas décadas
(foi publicado em 1968) as nossas mais profundas preocupações ambientais,
traz para o terreno da consciência colectiva universal os problemas fulcrais
da exploração sem freio que o capitalismo selvagem vem impondo aos recursos
deste planeta que nos é comum, pondo em risco a sobrevivência das futuras
gerações. Ferreira de Castro foi um escritor profundamente
comprometido com o seu tempo, corajoso, civicamente empenhado, denunciando
nos jornais e através da sua obra, as injustiças, as perseguições a democratas,
a opressão e a tirania do fascismo luso. O romance A Curva da Estrada
é, pela sua crua lucidez, um dos textos em que essa vertente interventora de
Ferreira de Castro mais claramente se assume. O ensaio As Maravilhas Artísticas do Mundo
revela-nos um Ferreira de Castro cosmopolita, viajado, atento ao pulsar deste
nosso mundo, sabedor e culto, escrevendo ou convivendo com os grandes vultos
da arte e da cultura seus contemporâneos: Picasso, Gauguin, Matisse, Claude
Monet. O realismo social da obra de Ferreira de Castro é,
nestes tempos dramáticos que nos querem obrigar a viver, obviamente incómodo.
Para os poderes instalados é preciso, primeiro, denegrir e, subtilmente,
tentar ignorar a obra ímpar do autor de A Lã e a Neve. A crítica
instalada, impante, sempre serviçal, do alto do seu snobe conservadorismo
armado em modernaço, tenta passar-lhe ao lado: entretém-se com o Fernando
Pessoa e com o baú das pepitas a haver, que talvez lhe garanta mesada grossa
para pagar a renda – sobretudo, é preciso não irritar quem lhes paga a
soldada. O ministro da Cultura, a existir, andará certamente absorvido com
outras transcendências, implorando aos deuses do seu exclusivo Olimpo que o
não perturbemos com minudências, tentando ignorar que neste ano da graça de
2008 se cumprem 110 anos sobre a data de nascimento de um dos nomes cimeiros
da Cultura Portuguesa do século XX. Apesar de todo o silêncio (há silêncios ensurdecedores)
«a obra romanesca de Ferreira de Castro, injustamente esquecida (…) merece
uma atenta revisão, que, na actual conjuntura política em que o egoísmo
prevalece ostensivamente sobre a solidariedade, possa iluminar os valores
humanos que o seu realismo social exalta sem demagogia». Justas e sábias
palavras de Urbano Tavares Rodrigues. A Obra de Ferreira de Castro está aí. Viva, a doer-nos,
a mostrar-nos os lanhos que mais nos ferem e indignam. Uma escrita ainda
actual e com futuro. Para o Futuro. _____ [1] Urbano Tavares Rodrigues, Ferreira de Castro, o
realismo social e a dignidade humana. [2] Ferreira de Castro, A Selva. |