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10/07/2008 Escritor de grandes causas sociais,
combatente da liberdade – Nos 110 anos do nascimento de Ferreira de Castro – Urbano Tavares Rodrigues A obra prima de Ferreira de Castro é para mim A Curva
da Estrada, o romance onde ele nos apresenta a degradação de um político
espanhol de esquerda que, cedendo a interesses pessoais, guina para a
direita, acabando no entanto por ter fortes rebates de consciência que o
levam a alterar de novo as suas posições em hora decisiva. A limpidez e
fundura da análise, a veemência dos sentimentos dão a esse livro corajoso uma
real qualidade literária. Autodidacta, de origem anarquista, com uma vida
esforçada de lutador que cedo abraçou as grandes causas sociais, o Ferreira
de Castro de A Selva e Emigrantes é estilisticamente desigual,
ultrapassando por vezes pelo alcance da mensagem o que possa haver de tosco
na expressão. A Selva é, pela intensidade e riqueza das descrições, um romance
universal, que surge bafejado pelo espírito generoso de um período mundial de
atenção a condições de vida miseráveis, com ânsia de resgate. De muitas das suas obras posteriores poderá dizer-se que
se situam entre o romance de tese naturalista e o neo‑realismo
emergente. É o caso flagrante de A Lã e a Neve, longo romance que não
está muito longe de certas ficções-inquérito como, por exemplo, a série Port
wine de Alves Redol ou mesmo Uma Fenda na Muralha (a vida dos
pescadores da Nazaré). Em A Lã e a Neve assistimos aos ciclos e às
transições da pastorícia à tecelagem e a subjectividade cede o passo a um
herói colectivo que se aproxima da teorização neo-realista, não faltando
sequer a perspectiva futurante. Todos os artigos, todos os escritos de Ferreira de Castro, na sua diversificada actividade de profissional das letras, estão impregnados de espírito progressista. Aliás, para além do seu empenho numa transformação do mundo, de natureza social e económica, Ferreira de Castro é um defensor da preservação da natureza, que, nesse plano, antecipa muitas das preocupações ecológicas dos dias de hoje. Convivemos muito e até possuo cartas suas, literárias e
políticas. Quantas vezes o procurei para lhe pedir a sua assinatura em
petições e documentos da oposição democrática na nossa luta contra o
fascismo. Nunca me recusou a sua solidariedade. Após o 25 de Abril teve ainda em vida homenagens
nacionais. Quando faleceu, o Partido Comunista organizou a guarda
de honra aos seus restos mortais no grande salão da Sociedade Nacional de
Belas Artes e eu estive lá, entre os intelectuais que o velaram, por turnos,
com aquele vasto espaço sempre cheio de povo e de personalidades da nossa
cultura. Recordo momentos de afectuosas conversas que com ele
tive em Sintra, no hotel onde se alojava e em que evocava viagens, amigos, a
França da resistência, as suas andanças pelo mundo. A ideologia da classe dominante é hoje avessa a uma
figura e a uma obra como as de Ferreira de Castro. Daí que ele não seja
publicado, embora a acção do Museu Ferreira de Castro vá em certa medida
mantendo viva a sua memória. Mas o mundo está a mudar, as sociedades de mercado em
recessão. E as enormes desigualdades geram o crime, a revolta e a mudança. Cidadãos-escritores como Ferreira de Castro vão
ressurgir. |