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14/12/2006 Projecto Reach: um passo em frente para a produção limpa Rita Calvário O projecto REACH
(Registration, Evaluation and Authorisation of Chemicals) vai finalmente
avançar na União Europeia, após um período longo e difícil de negociações. De
acordo com esta nova legislação (que substitui uma que tem mais de 40 anos),
as empresas passam a ser responsáveis pela segurança dos produtos que
produzem ou importam, ao nível do impacte dos químicos que possuem para a
saúde pública e o ambiente, sobre a qual vão ter de prestar informação aos
consumidores, existindo ainda um mecanismo para a substituição de químicos
persistentes no ambiente e com efeitos cumulativos nos organismos vivos no
caso de existirem melhores alternativas. Permite também que o público
requeira informação sobre a presença de determinados químicos nos produtos
disponíveis para consumo. Actualmente, mais de 100 mil
compostos químicos presentes nos mais variados produtos colocados no mercado
e com que lidamos nas nossas vidas quotidianas nunca foram testados quanto à
sua segurança. As empresas podem produzir, vender e importar a maioria dos
seus produtos com compostos químicos sem qualquer restrição, competindo às
autoridades públicas provar que determinado químico é perigoso antes de
aplicar restrições ou banir o seu uso. Isto faz com que a avaliação da
segurança dos químicos se faça por processos muito lentos, com estes a
contaminar o ambiente e as próprias pessoas por longos períodos de tempo e
com consequências trágicas. Estudos mostram que mesmo as
zonas mais remotas do Planeta, bem como a biodiversidade aí presente, apresentam
sinais de contaminação química. Um pouco por todo o lado, encontram-se
químicos prejudiciais no solo e na água que utilizamos para consumo directo e
produção de alimentos, bem como no ar que respiramos, derivados de produtos
de uso corrente. Testes efectuados pela
organização Greenpeace mostram que o pó presente nas nossas casas está
contaminado por químicos que são libertados lentamente pelos produtos diários
que consumimos e outros que aí utilizamos, o que leva a exposições repetidas
e de longo prazo de pequenas doses de contaminantes. Também a roupa que
vestimos apresenta compostos químicos que podem ser prejudiciais. Outros estudos apontam que a
contaminação do corpo humano por compostos químicos presentes em produtos
convencionais, já encontrados em embriões e crianças (ou seja, nas gerações
futuras) leva a problemas de infertilidade, e cancro, entre outros. Esta nova legislação da UE é
um passo importantíssimo. Não só porque o mercado de químicos europeu é um
dos maiores do mundo, mas sobretudo porque isto representa um sinal muito
forte a que se vá avançando internacionalmente para modos produtivos e
produtos mais ecológicos e seguros, que sejam livres de químicos tóxicos. Mas esta conquista não foi
tarefa fácil. E, infelizmente, não significa o fim desta luta. Mas ela é, sem
dúvida, uma importante e significativa vitória. Desde 1998 que esta discussão
foi colocada na União Europeia, até que em 2001 a Comissão Europeia publicou
um livro branco sobre o futuro da política para os químicos na Europa. Já
desde esta altura que o lóbi da indústria química começou a pressionar contra
qualquer iniciativa legislativa que afectasse o sector, liderado pelas
grandes corporações alemãs e com o apoio claro do governo dos EUA. Na intensa guerra entre lóbis
da indústria e a sociedade civil (organizações ambientalistas, associações de
médicos, grupos de consumidores, sindicatos, empresas sensíveis à questão e
muitos cidadãos), com o contributo importante de muitos membros do Parlamento
Europeu, a Comissão Europeia deu seguimento ao seu propósito inicial e
apresentou uma proposta de lei em 2003, o projecto REACH. Teve lugar então uma forte
campanha anti-REACH, levantando-se o fantasma de que seria o fim da indústria
química europeia e que muitos empregos se perderiam, além de que os custos da
produção e dos produtos de consumo corrente seriam inflacionados. Esta campanha conseguiu
enfraquecer o projecto inicial, ao nível dos requisitos de segurança e de
substituição dos compostos químicos, não tendo o alcance de protecção da
saúde pública, do ambiente e das gerações futuras que deveria ter. Mas não
conseguiu travar a aprovação de uma lei que contribui para reduzir a nossa
exposição diária à contaminação química e a todos os problemas daí derivados.
E é a partir daqui, numa nova página que se abre sobre estas questões, que a
sociedade civil deve continuar a ser exigente para que os interesses
economicistas não se sobreponham ao interesse público e ao bem-estar
colectivo. |