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Portugal |
17/07/2008
A irresponsabilidade do nuclear Rita Calvário Perante a alta do preço dos combustíveis fósseis e o custo das
emissões de carbono, começa a ressurgir a discussão da energia nuclear em
Portugal, agora pela voz de Victor Constâncio. Mas parece que estas vozes se esquecem que esta opção não permite
resolver os problemas energéticos estruturais do país e coloca outros
problemas sem resolução à vista. Apresento, sucintamente, pelo menos 10
razões para rejeitar o nuclear. Em primeiro lugar, também as centrais nucleares dependem de
matérias-primas cada vez mais escassas, caras de obter e cobiçadas: ou seja,
o que hoje se passa com os combustíveis fósseis também se passa com o urânio
e tende a agravar-se. Também neste sector aumentam os preços e a especulação. Em segundo lugar, mantém-se a elevada dependência a recursos
energéticos externos já que o urânio existente em Portugal é insuficiente. Em terceiro lugar, o custo de uma central nuclear é enorme.
Geralmente as contas que nos são apresentadas não entram em linha de conta
com os custos de armazenamento dos resíduos, desmantelamento da central e
limpeza de locais contaminados, reforço da linha eléctrica, serviços de
fiscalização e segurança, entre outros. A história do nuclear mostra que esta
sempre foi e continua a ser, mesmo com a nova geração de reactores, uma
indústria altamente dependente de subsídios públicos. Em quarto lugar, o problema da dependência petrolífera e das
emissões em Portugal é, na sua grande maioria, em relação às formas
não-eléctricas de energia, como no sector dos transportes, a que o nuclear
não responde. A electricidade corresponde apenas a 25% do consumo final de
energia. Em quinto lugar, além do problema do armazenamento dos resíduos, as
centrais apresentam o risco de elevada contaminação radioactiva, devido a
acidente ou ataque terrorista, bem como no transporte do combustível e dos
resíduos. Para além disso, não se consegue nunca eliminar o erro humano, o
responsável pelo acidente de Chernobyl. Em sexto lugar, a exportação e a proliferação contínua de tecnologia
nuclear aumenta significativamente o risco de proliferação de armas
nucleares, existindo o risco de novos Estados se tornarem novas potências
nucleares. Em sétimo lugar, o nuclear não gera directamente quaisquer emissões
de GEE, mas a construção das centrais é uma importante fonte de emissões, tal
como a prospecção, a extracção e o transporte de urânio (o ciclo do urânio é
um grande consumidor de energia e um forte emissor de CO2), o
transporte dos resíduos para processamento ou armazenagem e o futuro
desmantelamento – O estudo americano Nuclear Power: The Energy Balance
(2005), que compara as emissões de CO2 analisando o ciclo de vida
de uma central nuclear e de uma central a gás natural (com uma potência
equivalente) chega à conclusão de que, no longo termo, com o decréscimo da
qualidade das reservas de urânio, o nuclear tem muito mais emissões que o gás
natural. Em oitavo lugar, além das elevadas emissões de carbono, o ciclo do
urânio até à utilização no reactor é um enorme gerador de resíduos tóxicos e
de agressões ambientais. E uma central nuclear consome elevados volumes de
água: teria de ser instalada no litoral português, o qual é densamente
povoado, por falta de caudais suficientes nos rios. Em nono lugar, a radioactividade dos resíduos do urânio processado
nas centrais é muito elevada, com graves riscos para a saúde pública durante
dezenas a centenas de milhares de anos. Ainda não foi encontrada uma solução
satisfatória para o tratamento dos resíduos, hoje armazenados em locais
temporários. Este é um pesado legado para as gerações futuras. Em décimo lugar, a nova geração de reactores nucleares em construção
na Finlândia (Olkiluoto 3) e na França (Flamanville 3), apresentados como a
vanguarda do renascimento do nuclear, têm registado uma série de atrasos,
derrapagens orçamentais e problemas técnicos de segurança. Na Finlândia, o
prazo de conclusão da central foi adiado por dois anos e os custos de
construção quase que duplicaram para um valor de 5 mil milhões de euros, com
várias falhas na construção a implicar potenciais riscos de segurança. Na
França, os problemas são semelhantes, tendo já sido mandada parar a
construção pela Agência de Segurança Nuclear francesa por vários problemas
técnicos de segurança registados. |