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12/07/2008
Na Irlanda do rock: filhos e enteados Imigrantes a dormir em cavalariças, trabalhando 12 horas por dia a 4,48 libras por hora e com 30 minutos de descanso para uma sanduíche mal-amanhada. Este o outro lado da realidade por detrás de um dos mais conhecidos festivais de rock da Europa. Acompanhei Sónia Mendes, a portuguesa que teve a coragem de denunciar a situação, de regresso ao local do evento. Na primeira noite,
foram 25 mil. Mas com as previstas actuações de Amy Winehouse, dos eternos
REM ou de Cat Power, sexta-feira prometia rebentar pelas costuras. Apesar do
tempo irlandês – ventoso, enevoado e, aqui e ali, chuvoso – desde as 8 da
manhã, centenas e centenas de jovens afluíam ininterruptamente ao recinto, de
tenda às costas, galochas nos pés e caixas de Budweiser nos braços. Eis-nos
em Punchestown Racecourse, um hipódromo vizinho de Naas, uma pequena cidade a
50 quilómetros de Dublin. É aí que anualmente se organiza o maior festival de
rock da ilha, num vasto relvado que a chuva, os carros, as tendas e os
jovens, deixarão irreconhecível quando as músicas e as luzes se apagarem. É
nessa altura que verdadeiramente entram em acção os serviços de limpeza do
recinto. Durante os dias de festival, eles garantem a manutenção. Depois,
durante oito dias, catarão os restos abandonados pela multidão, picando-os um
a um, nos espaços dos espectáculos e nos parques de campismo e de
estacionamento. É um trabalho árduo e pesado, faça chuva ou sol, mas
indispensável porque, um ano depois, haverá mais Oxegen e, entretanto, as
corridas de cavalos voltam a tomar conta do lugar. POR DETRÁS DOS PALCOS Os milhares de jovens
que acorrem aos festivais de Verão – o do Sudoeste é o que, em Portugal,
melhor se equivale a este – sabem que os promotores deste tipo de eventos se
esmeram na programação, porque é ela que atrai as multidões. Sabem também que
as bandas mais conhecidas têm contratos de dezenas de páginas, onde se
incluem várias cláusulas excêntricas, escrupulosamente cumpridas pelos
organizadores. A menina quer um Mercedes xpto à porta? O líder da banda
reclama suite com cama de massagem e Beaujolais de 48 na garrafeira? Faça-se
a vontade, que estes pormenores alimentam o “circo”, a imprensa da
especialidade e constroem imagens. É assim e assim será. Também por isto,
aqueles milhares de jovens, que não são ricos e trazem a comida nas mochilas,
pagam 240 euros pelos quatro dias de concertos ou 100 se por lá ficarem um só
dia. O que eles não imaginam é que por detrás do palco, longe dos holofotes,
há outros serviços sem os quais nenhum festival desta grandeza se pode
realizar. Entre estes, o da limpeza é o menos qualificado e o mais duro, mas
tão indispensável como os demais. Os promotores de Oxegen, a MCD,
subcontratam este serviço. Este ano, a escolha recaiu na Cleanevent, uma
firma inglesa que também trata dos estádios de Wembley, do Chelsea ou de
Wimbledon. Este tipo de firmas
opera com listas de inscritos que são chamados em função dos serviços e
concessões que ganham. Pagam o salário mínimo legal – no caso 5,52
libras/hora – e procedem aos respectivos descontos. Sobram 4,48 libras para o
trabalhador temporário, se este for um imigrante intracomunitário ou com os
papéis em regra. No entanto, se não tiver papéis, a firma prefere. É mais
barato, podem ser retiradas horas e é certo e seguro que o imigrante não se
queixará à polícia, porque pode ser repatriado. Quem o confirma é Sónia
Mendes, portuguesa de 31 anos a viver em Londres há 4 meses, e que faz
regularmente trabalhos deste tipo, enquanto aguarda pela prestação de provas
para assistente de terceira idade, a profissão que gostaria de exercer em
Londres. O “CASO” A Sónia está inscrita
na Cleanevent. Quinta-feira, 2 de Julho, telefonam-lhe a perguntar se
quereria ir trabalhar para a Irlanda durante 12 dias, a 12 horas por dia e
com alimentação e estadia garantida. Ela e outros 50 responderam
afirmativamente. Sempre eram mil e tal euros no bolso. Eram portugueses,
luso-brasileiros ou polacos. Intra-comunitários, porque Londres e Dublin
estão fora do espaço Shengen, e extra-comunitários sem papéis não passariam
pelo crivo do controlo de fronteiras. A 7 de Julho à noite chegam a
Punchestown Racecourse. O prometido “hotel” era a cavalariça do hipódromo,
ainda com palha, dejectos e cheiros. Chuveiros eram cinco e só um com água
quente. O jantar chegava para 17 dos 50. Em declarações ao The
Guardian, a MCD refugia-se no contrato
celebrado com a Cleanevent – «compete à subcontratada assegurar as condições
do seu staff». A Cleanevent diz que «aguarda
relatório» para analisar o caso. Este, o caso, é que não esperou. Alguns
portugueses, entre os quais a Sónia, revoltam-se. Recusam dormir nos
estábulos dos cavalos. Se alguém estava convencido que o pessoal de limpeza,
apenas porque necessitado de dinheiro, dormiria nas palhas dos cavalos,
rapidamente se desenganou. A revolta telefona para a polícia, mudando a
atitude dos promotores. Aos portugueses foi garantido que dormiriam na
cozinha, um upgrade… e rapidamente a
organização tratou de arranjar umas dezenas de sacos-cama e colchões
insufláveis, porque nas cavalariças as camas desdobráveis não chegavam para
todos. Finalmente, ofereceram aos líderes do protesto as condições que eles
quisessem… desde que se calassem. Estes regressarão nessa
mesma madrugada a Londres, recusando para si a melhoria de condições que a
MCD lhes oferecia. «Ou era para todos ou para ninguém», garante a Sónia, que
sabe que nunca mais votará a ser chamada pela Cleanevent. E porque ficaram os
restantes? «A maioria dos polacos veio directamente do seu país. Nem eles nem
os outros tinham como regressar, até porque nos tinham dito que nem precisaríamos
de levar dinheiro», explica. Os que ficaram, contudo, fotografaram. Foram
essas fotos que conseguimos passar para fora do recinto, porque o acesso à
zona VIP e aos estábulos é vedada ao público. Aliás, fazem paredes‑meias.
É bem provável que Amy
Winehouse ou Cat Power nem sonhem que por detrás dos seus camarins de cinco
estrelas, em cubículos de cimento, estejam a repousar os homens e mulheres
que acabaram de lhes limpar o quarto. Muito menos suspeitarão que quem lhes
trata do conforto trabalhe em turnos contínuos de 12 horas, com 30 minutos de
intervalo não pagos, quanto basta para uma sanduíche mal amanhada… |