Informação Alternativa

Europa

27/05/2008

 

A derrota italiana, a esquerda e o poder

 

Jorge Costa

Vírus

 

1. Em política, não se diz “eu bem avisei”.

 

A esquerda italiana está em escombros. Face à pujança social do populismo de direita, exposta desde 2006 pela tangencial vitória de Prodi, o governo do centro esquerda não teve projecto alternativo. Nas eleições de Abril passado, o Partido Democrático não refez a maioria. Participante no governo, a Esquerda Arco­‑Íris [1] caiu de 11% para 3%. A esquerda radical, saída há pouco da Refundação Comunista, não chegou a afirmar­‑se [2]. Já depois, nas eleições municipais em Roma, o candidato do centro esquerda, Rutelli, conseguiu ter menos votos na segunda volta do que na primeira e perdeu para um dirigente da extrema­‑direita. Estas ruínas são notícias tristes para a esquerda europeia. Um debate maduro não pode menorizar a crítica, nem anatemizá­‑la como quinta coluna que celebra às escondidas: excepto, talvez, na dimensão que teve, esta razia era previsível.

 

2. Todas as experiências de participação da esquerda em governos com a social­‑democracia conduziram ao descrédito e ao desgaste eleitoral.

 

No último quarto de século, a contra­‑reforma liberal tem destruído os compromissos sociais estabelecidos no pós guerra e, com eles, os movimentos sociais e os virtuais interlocutores do “diálogo social”. A social­‑democracia conduziu, quando não iniciou, essa demolição. Pior: o seu reformismo sem reformas deixou à direita a bandeira das transformações e a força da acusação contra “privilégios” e “corporativismos”. O liberalismo da “terceira via” social­‑liberal agravou a crise de referências políticas da nossa época e converteu uma parte da classe trabalhadora de esquerda em eleitorado de populismos de direita.

 

Os partidos à esquerda da social­‑democracia têm pago cara a sua participação em governos de aliança. O exemplo da “Esquerda Plural” poderia ter feito escola. Integrando o governo de Lionel Jospin, o PCF escolheu submeter­‑se à política de privatizações, perseguição aos sem­‑papéis e imposição do Tratado de Amsterdão. Mesmo a reivindicação histórica das 35 horas foi aplicada de tal modo que reuniu a hostilidade do mundo do trabalho. Na sequência desta participação governamental, o PCF definhou até à marginalidade eleitoral em que se encontra sempre que concorre autonomamente do PS.

 

3. Berlusconi não obrigou a Refundação a governar.

 

Não há qualquer excepção italiana. A perversidade da lei eleitoral – piorada pela direita em Abril de 2006 [3] – não foi, nem podia ser, a razão desta participação governativa da esquerda alternativa. Pelo contrário, esta participação explica­‑se por uma viragem radical, operada pela direcção da Refundação, face a um período excepcional na história do partido e face aos compromissos políticos que o identificavam perante a sociedade italiana.

 

Essa viragem tem raízes. A Refundação sempre integrou, entre outras, uma cultura política que situou o comunismo italiano como corrente “de luta e de governo”. Essa cultura vem do togliattismo e do “compromisso histórico” [4], mas recusou integrar a mutação do PCI, participando na construção da Refundação Comunista como alternativa à conversão social­‑democrata. No entanto, o governismo esteve no centro das tensões de todo o percurso da Refundação e de duas cisões, em 1995 e 1998. Na segunda, o partido perdeu mesmo a maioria do seu grupo parlamentar [5]. A divergência situava­‑se justamente no apoio a governos vinculados ao programa liberal da burguesia europeia. Sob a direcção de Fausto Bertinotti, predominou a autonomia política da Refundação e o desenvolvimento de uma identidade nova na esquerda italiana, “antagonista” e de movimento, alterglobalista e contra a guerra. Depois de derrubar o primeiro governo Prodi, pela retirada de apoio parlamentar em 1998, a Refundação Comunista não cessou de crescer em influência social e número de votos. Chega a 6% (europeias 2004) e é força motriz de grandes mobilizações sociais. Mas a velha herança do PCI, submersa durante os anos 1998 a 2004, reemerge vigorosamente no congresso de 2005, onde a nova orientação de Bertinotti – integrar a coligação União, liderada por Romano Prodi, e participar no seu futuro governo – recolhe 60% dos votos dos delegados.

 

Estive presente nesse congresso, onde fui um dos representantes do Bloco de Esquerda. Ao abraçar Romano Prodi, que o escutava como convidado na primeira fila, Fausto Bertinotti não usava as justificações fracas do “mal menor” e do “tudo menos Berlusconi”, a que recorrem alguns dos seus apoiantes. Ao invés, para conquistar o partido e a sua base eleitoral para o projecto de integração ao centro, Bertinotti desenvolveu vasta retórica sobre as propriedades socialmente mobilizadoras do futuro governo. Não sendo um governo da esquerda, tratar­‑se­‑ia de uma ruptura com o curso liberal, assegurada pela «aliança com a parte das classes dirigentes e empresariais que se propõe contribuir para a grande reforma do país» (Bertinotti, entrevista ao Corriere della Sera, 16.07.2006).

 

Os fatalistas podem continuar a defender a opção da Refundação como se não fosse uma opção explícita, mas apenas o vagido da rez a caminho do matadouro. Vai dar ao mesmo: perante o desejo popular de mudança e sob a bipolarização, restaria saltar para o abismo. Assim fez Bertinotti, brandindo a ilusão da permeabilidade de Prodi às reivindicações do povo de esquerda. O resultado foi o congelamento do mais potente movimento da Europa contra a guerra, o italiano [6], e uma massiva frustração na resistência organizada dos trabalhadores.

 

4. O governo Prodi não era “incaracterístico”: representava uma parte da burguesia italiana.

 

A estória que Bertinotti contou foi­‑se desfazendo ao longo dos dois anos em que o líder da Refundação presidia também aos trabalhos do parlamento. Por isso é que a calamidade actual é tão pouco surpreendente. O governo Prodi tem a sua primeira crise grave em Fevereiro de 2007, na sequência do chumbo parlamentar da participação italiana na ocupação do Afeganistão. O único senador que votou de acordo com o programa da Refundação – contra o orçamento militar para a ocupação – foi expulso do partido.

 

Prodi impôs então à sua coligação um conjunto de doze condições para se manter à cabeça do governo. Entre elas, «o apoio constante à política externa de defesa e estabilização no quadro da ONU, aos nossos compromissos internacionais que derivam da pertença à UE e à NATO e do nosso envolvimento na missão no Afeganistão»; «a continuação do processo de liberalização [dos serviços públicos]»; «a reorganização do sistema de reformas, dando grande atenção à compatibilidade financeira e privilegiando as pensões mais baixas e os jovens» [i.e.: nivelamento por baixo dos “regimes particulares”, em sectores onde lutas antigas conquistaram melhores condições]. Enquanto promovia novos golpes de liberalismo, o governo não só mantinha a legislação laboral de Berlusconi e a famigerada lei Bossi Fini sobre a imigração, como aumentou as despesas militares e baixou os impostos sobre os patrões.

 

Assim, a Esquerda Arco­­‑Íris não se desfez por estar comprimida entre críticas ao seu estilo no governo – pela esquerda (falta de nuances críticas) e pela direita (insuficiente solidariedade com Prodi e perda de influência). Pelo contrário, os dirigentes da Esquerda Arco­‑Íris foram abandonados pelo “seu” eleitorado porque eram ministros e dignitários de um governo liberal fracassado, que ficará apenas como corolário da bipolarização italiana. Erraram livremente e foram a votos propondo­‑se persistir no erro.

5. A estratégia da esquerda anti­‑capitalista é enfrentar “a crise da política”, criando uma nova relação de forças social e uma nova cultura de poder.

 

Resumir a luta pelo poder à institucionalidade que existe e à sua representação espectacular separa­‑a do conflito social real e reduz a política a um jogo plano, em que a posição dispensa o movimento e extingue o objectivo. Muitos comentadores chamam­‑lhe “governabilidade”. Recusá­‑la, seria exilar­‑se na “pureza” de “amanhãs que cantam” e “assaltos ao palácio de Inverno”, esperando, como diz o Daniel Oliveira, «que tudo corra mal na vida das pessoas para crescer momentaneamente». Aceitá­‑lo, desejar as suas “responsabilidades”, seria coragem para o “aqui e agora”. Fora do jogo, só sobra o “protesto”, esse «tubo de escape» (ainda o Daniel) para que tudo fique na mesma.

 

Só um pormenor não bate certo aqui. Se a participação em maiorias parlamentares e governos é a forma de conseguirmos “coisas concretas”, então porque não é? Ou, de outro modo, o problema em França e em Itália foram exactamente as “coisas concretas”, o conteúdo da governação, o projecto político e o seu alinhamento social com os mais fortes – o concreto profundo, a força da classe dominante e a consolidação do seu domínio.

 

A esquerda socialista não recusa a questão do poder, nem capitula a uma função de “protesto”. Bem pelo contrário, a recusa do jogo da alternância é condição para a única hipótese de vitória: a estratégia que se compromete com o socialismo. A esquerda socialista é uma força de mobilização, que acumula conhecimento, memória e proposta, querendo ser cada vez mais dirigente e, como tal, cada vez mais portadora de poder social, de peso na relação de forças.

 

Constatando hoje a excessiva ausência do protagonismo essencial – o da maioria da população, confinada ao voto e privada de outras expressões sociais e políticas da democracia –, a esquerda socialista não aceita substitui­‑lo. A questão da participação governamental é colocada, portanto, num quadro de exigência que é o da transformação da relação de forças entre classes. Isso implica uma acumulação de experiência e conflito, vividos amplamente e que assegurem novas conquistas. Fora de tal quadro, a participação governamental da esquerda está condenada à conformação e à derrota. Esta é a primeira condição essencial para a participação numa maioria de governo. [7]

 

A outra condição é a abertura de uma dinâmica hostil à ordem do capital: no que respeita às questões da propriedade pública dos sectores estratégicos, da correcção fiscal das injustiças sociais, da ruptura com amarras como o Pacto de Estabilidade ou a NATO. Uma maioria eleitoral, neste quadro e com estes compromissos, poderia colocar a questão do governo em termos novos.

 

Seria bom (tentar) encerrar no século passado os erros nele cometidos. Mas, para tanto, não bastará à esquerda a crítica profunda ao totalitarismo burocrático e o compromisso de princípio com as liberdades. A social­‑democracia tem a sua marca na barbárie do século XX, nas suas guerras (começando e acabando nos Balcãs, passando por todas as colónias) e na regressão liberal da Europa em que o século terminou. O calendário virou com sinais de esperança: um movimento de recusa da globalização capitalista arrancou no Brasil e chegou à Europa pela porta italiana, animado também por partidos, como o PT e a Refundação Comunista, então portadores de uma crítica radical. O seu percurso distinguia­‑os dos pais da “crise da política” à esquerda: o estalinismo e a social­‑democracia. Porém, no Brasil como em Itália, a estratégia governista dissipou anos de acumulação de forças, credibilidade social, energia transformadora.

 

Sendo uma luta pelo poder, a luta pelo socialismo precisa de uma estratégia forte. O estado do mundo exige pressa, mas desaconselha os atalhos.

 

______

[1] A Esquerda Arco­‑Íris era composta pela Refundação Comunista, Partido Comunista dos Italianos, Verdes e Socialistas Democráticos (cisão dos Democratas de Esquerda que recusaram integrar o PD de Veltroni).

[2] As duas formações saídas da Refundação, Esquerda Crítica e Partido Comunista dos Trabalhadores, reuniram 1%.

[3] A proporcionalidade só se aplica a um quarto dos assentos parlamentares.

[4] Governo de aliança entre o PCI e a Democracia Cristã, quase concretizado no final dos anos 70 pelo secretário­‑geral comunista Enrico Berlinguer.

[5] Esta cisão, favorável à manutenção do apoio a Prodi, deu origem ao PCdI de Armando Cossutta, uma das formações da Esquerda Arco­‑Íris.

[6] Ocorreram importantes mobilizações contra o alargamento da base da NATO de Vicenza, confrontando o governo Prodi, que se manteve firmemente ao lado do plano norte­‑americano.

[7] Note-se que as importantes lutas dos últimos anos em Itália foram de natureza defensiva, não lograram travar a direita e foram esvaziadas, sem serem atendidas, pelo governo Prodi.