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28/09/2005 Pascual Serrano O veterano e brilhante
jornalista Ryszard Kapuscinski explica num manual de jornalismo editado no
México, como se convivia com a censura nos países do Leste durante a época do
socialismo real, no seu caso na Polónia. Diz que o dilema que os jornalistas
tinham então era entre «permitir que cortem a nossa história e que assim,
censurada, apareça num jornal de grande tiragem ou publicar a história
completa numa revista para quinhentos leitores». Afirma que o sistema da
censura permitia publicar tudo, com a única condição de que se fizesse numa
revista de escassa tiragem. Deste modo, o sistema pretendia dizer ao mundo
ocidental que existia liberdade de expressão porque se podiam publicar trabalhos
críticos. Mas quanto maior era o jornal, o canal de televisão e a estação de
rádio, maior era a censura, afirma. Lendo-o, chego à conclusão de que não há
tanta diferença com a situação actual nos nossos países. Tudo se pode
escrever ou emitir, mas outra coisa é aceder a um grande meio de difusão. Por estes dias tornou‑se
público, evidentemente pouco ou nada difundido, um exaustivo estudo [1] do
colectivo de comunicação Aideka, no qual analisam os noticiários de TVE, Tele
5 e Antena 3 no período compreendido entre 25 Novembro e 15 de Dezembro
passados. Uma das conclusões é que os temas sociais que mais afectam os
cidadãos segundo as sondagens do CIS são praticamente ignorados pelas
televisões espanholas. Trata-se de temas tão importantes como o Desemprego, a
Habitação ou a Imigração. No entanto, as televisões sim
dedicaram uma percentagem muito significativa do seu tempo a notícias
relacionadas com o 11-M, Terrorismo/Segurança e Delitos comuns. O que o
relatório considera «notícias que têm conotações violentas e que tendem a ser
geradoras de um verdadeiro grau de alarme social». Também, afirmam, ocupam
uma grande quantidade de espaço os temas de lazer e entretenimento,
especialmente os desportos. O documento, de 55 páginas,
destaca que «as declarações dos cidadãos sobre estes temas são praticamente
inexistentes nos três noticiários analisados. Disto se deduz que não só os
noticiários oferecem escassa informação a respeito dos temas que mais
preocupam os cidadãos, mas que os seus depoimentos não se utilizam nas
notícias como uma forma de participação social, mas como um meio para
ilustrar questões diversas». Aideka, integrada por
profissionais da informação, investigadores universitários e especialistas em
educação audiovisual e novas tecnologias, já elaborou anteriormente
importantes relatórios de comunicação sobre a greve de 20 de Junho de 2002, a
guerra do Iraque em 2003 e as eleições europeias de 2004. O primeiro deles
serviu de base para que o sindicato Comisiones Obreras ganhasse um pleito à
Televisão Espanhola que a obrigou a difundir nos seus noticiários a sentença
judicial que estabelecia que os seus noticiários não tinham cumprido com a
pluralidade exigida pela lei ao silenciar as posições sindicais durante a
greve geral de 20-J. O mais grave de tudo isto é que o nosso sistema não dispõe de mecanismos que permitam enfrentar o problema de que uns meios de comunicação, públicos e privados, se neguem a informar acerca dos temas que implicam conflito social, para orientar os seus conteúdos para assuntos que interessam ao poder ou que tentam desviar a atenção dos cidadãos dos seus problemas diários. Ou dito de outra maneira, o que acontecia a Kapuscinski sob a censura. _________ [1] Aideka, Estudio comparativo de
los informativos de: TVE, Antena 3 y Telecinco (pdf, 324 kb; n. IA). |