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Oriente |
31/07/2006
Hipocrisia humanitária dos
EUA António Louçã A diplomacia norte-americana tem-se empenhado por todos os meios em
contrariar as pressões para que Israel interrompa a agressão ao Líbano.
Depois de atirar a pedra, procura esconder a mão, destinando verbas para
assistir às populações deslocadas. Com a mão direita, faz o possível para
manter activas as causas da catástrofe humanitária, ou seja, a agressão
israelita. Com a mão esquerda, distribui umas migalhas caritativas às vítimas
que todos os dias se tornam mais numerosas. Neste contexto, nada mais hipócrita do que a expressão “corredor
humanitário”. Ele deve, supostamente, servir para que as populações civis
libanesas possam pôr-se a salvo dos bombardeamentos israelitas. Na verdade, é
um “corredor” que serve para essas populações deixarem as suas casas e
terras. Assim começou também, em 1948, a “Naqba”, palavra árabe para
“catástrofe”: populações horrorizadas com a sorte dos aldeões degolados na
aldeia de Deir Yassin fugiram para se salvarem. Desse movimento resultaram na
altura uns 700.000 refugiados e um cortejo de problemas que, até hoje, nunca
mais se resolveram. Convém atentar agora nos números que estimativas
prudentes indicam para a população deslocada por estas duas semanas de
combates no Líbano: entre 500 e 700.000 pessoas – uma catástrofe portanto de
envergadura comparável à de 1948. Irá essa “deslocação” tornar-se permanente como a limpeza étnica de
1948? Poderá objectar-se que a comparação só vale para os números e que é, em
tudo o mais, abusiva. Poderá dizer-se que na Palestina as forças sionistas
tinham um projecto de colonização e que no Líbano não o têm. Quando a guerra
se resolver, de uma forma ou de outra, dir-se-á ainda, os refugiados libaneses
poderão voltar às suas casas ou ao que delas restar. E talvez um outro
“corredor humanitário” seja destinado a facilitar o regresso como agora está
feito para facilitar a fuga. É possível que todas ou algumas destas especulações venham a ser
validadas pelos factos. Mas, para já, o que existe é a realidade da limpeza
étnica. O Tsahal (Forças Armadas israelitas) fomentam-na com a mesma
combinação de três medidas terroristas que os seus antecessores usaram em
1948: – destruição de famílias inteiras, para mostrar o que está disposto
a fazer; – destruição de fábricas, centrais eléctricas e outras infra‑estruturas,
para tornar a vida inviável; – advertências radiodifundidas para que os civis abandonem a região,
sob pena de serem alvejados. Face a esta realidade, o desenvolvimento mais provável
não é aquele que as almas piedosas querem antecipar. Bem pelo contrário: a
impotência dos bombardeamentos aéreos para silenciarem os “katiuschas” do
Hezzbolah cria um poderoso factor de pressão a favor da invasão. Esta, uma
vez realizada, será utilizada para argumentar a favor da criação de uma
distância de segurança que coloque as cidades israelitas fora do alcance dos
“katiuschas”. Mas uma terra-de-ninguém é sempre um convite à colonização e
esta é o golpe de misericórdia sobre as expectativas de regresso dos
desalojados. Dir-se-á que outras invasões israelitas tiveram desenvolvimentos
diferentes e que não é forçoso tudo se encadear desta forma. Mas a diferença,
quando houve diferença, resultou sempre de contrariedades militares sofridas
pelo sionismo. A guerra de Yom Kippur, em 1973, fez fracassar os planos de
colonização do Sinai – mas eles existiram, embora o Sinai fosse território
egípcio e portanto não pertencente à Palestina histórica. A guerrilha do
Hezzbolah obrigou à retirada israelita do Sul do Líbano em 2000, mas a
colonização ficou onde pôde – nas quintas de Sheba, que são território sírio,
também exterior à Palestina. Onde a situação se encontra militarmente controlada pelas forças
israelitas, a dinâmica expansionista tem sido sempre a que descrevemos. Hoje,
a expansão dos colonatos na Cisjordânia não resulta geralmente da criação de
novas unidades e sim do alargamento das antigas: são demolidas casas da
população palestiniana na vizinhança de um colonato, para não servirem de
base a “ataques terroristas”. Uma vez demolidas as casas, o colonato
expande-se para onde elas estavam. Desse modo, avança para a proximidade de
novas construções árabes e passa a ser vizinho delas. E torna-se necessária
mais uma demolição, torna-se possível mais uma expansão. A única forma de impedir no Sul do Líbano uma limpeza étnica que dure seis décadas, tantas como já têm durado a “Naqba” de 1948 e as suas consequências, é derrotar militarmente as tropas israelitas. Uma campanha internacional de solidariedade com os combatentes e com as populações libanesas, para obrigar a um imediato cessar-fogo, sem quaisquer condições, será uma contribuição para a derrota do expansionismo sionista. |