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Médio
Oriente |
19/07/2006
Da embaixada do absurdo às
gaffes de G. W. Bush 1. Admitamos por 1 minuto que a história desta guerra começou com o
rapto de um soldado que integrava as forças de defesa israelita ao perímetro
de Gaza. Ou seja, que foram “eles”, os palestinianos, “que começaram”. Admitamos ainda que Gaza não é uma prisão que os carcereiros
entregaram aos encarcerados, mas parte de um país com as suas instituições
estatais. Admitamos também que Israel não detém nove mil prisioneiros
palestinianos, entre os quais se encontram centenas de adolescentes. Admitamos, até, que Israel nunca trocou prisioneiros. Mesmo que uma
nota da sua embaixada em Portugal nos explique que «Israel já trocou centenas
de prisioneiros terroristas para recuperar os corpos de alguns soldados
mortos, quando não havia outros meios para garantir o seu retorno» [1]... Admitamos. 2. E pergunte-se: mesmo que tudo assim fosse, justifica-se o que se
seguiu? Justifica-se colocar milhão e meio de pessoas a duas e três horas de
água por dia? Justifica-se o fecho, durante uma semana, da única fronteira por
onde entram os abastecimentos a uma língua de terra onde a única coisa que aí
cresce é o cimento armado? Justifica-se o rapto de 64 deputados, de um terço do governo, e até
de um vice presidente da comissão política da Assembleia Parlamentar
euro-mediterrânica? Justifica-se o bombardeamento de inúmeros edifícios que cumpriam
funções de natureza pública, da transformação de electricidade ao ministério
da economia? Justifica-se, enfim, que o saldo da “resposta” ultrapasse já a
centena de mortos civis, ou seja, de pessoas que não andam com tubos Qassam
aos ombros? A desproporção da resposta, mais do que óbvia, indigna o mais
endurecido dos corações. Mas para a embaixada de Israel, a justificação é
simples: «Lembramos mais uma vez que foi o próprio povo palestiniano que
elegeu um governo dirigido pelo Hamas, uma organização terrorista» [1]... 3. Para aliviar a insuportável pressão sobre Gaza, um outro partido
árabe, o Hezzbollah libanês, decidiu raptar dois soldados israelitas. Não é
claro onde a operação decorreu, porque as versões divergem. Mas também não é
relevante. O Peace Corps das Nações Unidas que vigia a “linha azul”, ou seja,
a fronteira entre os dois países, regista nos seus relatórios inúmeras
violações do espaço territorial e aéreo por ambas as partes. E Israel ocupa
ainda uma língua de terra libanesa, as chamadas quintas de Chebaa. Mas admitamos a versão hebraica dos acontecimentos. Admitamos também que Israel nunca ocupou o Sul do Líbano, não bombardeou
Beirute, nunca teve nada a ver com o massacre de mais de mil palestinianos
nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, situados no Sul daquela cidade,
nem detém em seu poder dezenas de prisioneiros libaneses. Admitamos ainda que uns dias antes da “retaliação”, o exército
libanês não desarticulou uma rede terrorista paga, formada e equipada pela
Mossad, operando no interior do Líbano e responsável por, pelo menos, 4
atentados, o último dos quais em 26 de Maio último. Admitamos. 4. Ainda assim, a pergunta é: justifica-se o que estamos a ver? Justifica-se a chuva de fogo que se abateu sobre o Líbano? A
destruição de aldeias e o bombardeamento sistemático das periferias urbanas
de maioria chiita? Justifica-se a fria destruição de todas as infra‑estruturas
vitais à economia de um país – do aeroporto de Beirute às principais vias de
comunicação com o exterior, passando pela redução a pó das centrais
eléctricas – fazendo-o recuar, como o próprio Chefe do Estado Maior
israelita, Dan Halutz, reconhece, «30 anos para trás»? Justifica-se o bombardeamento de uma das principais estações de
televisão, a Al Manar, só porque ligada ao Hezzbollah? E finalmente, justifica-se que por causa do rapto de dois soldados,
se comece uma guerra que eleva os mortos civis dos dois lados para a casa das
centenas e, se isto não parar, seguramente para a dos milhares? A desproporção é, também neste caso, por demais evidente. Mas para a embaixada de Israel tudo se explica. Segundo nota de 13 de Julho, os bombardeamentos têm objectivos circunscritos: «não deixar os soldados raptados serem levados para outro país» e «alvos específicos da organização terrorista». Para encontrar explicação para o facto do Líbano estar a ser levado de novo para os anos setenta, será preciso encontrar, perdida entre linhas, uma tão enigmática quanto reveladora frase: «os sequestros são um sintoma, não a causa desta reacção» [1]... 5. Há uma saída para esta guerra que tem todas as condições para
alastrar? Ontem mesmo os microfones captaram, em off record, um palpitante
momento do almoço do G8. G.W. Bush, a braços com a tragédia iraquiana, não
quer que as coisas derrapem, por agora, no Levante Mediterrânico. Não há
tropas para tudo, nem aliados regionais que tudo aceitem sem pestanejar. De
momento, prefere a redução de danos. Depois de nas Nações Unidas, os EUA
terem vetado uma resolução que apelava ao cessar fogo, é elucidativo o
comentário que fez a Blair: «a ironia disto é que eles têm de conseguir que a
Síria faça com que o Hezzbollah pare de fazer aquela merda». Como?, se o
imperador não se digna a falar com ditadores? «Vou telefonar ao Annan [nr:
secretário geral das ONU] para falar com o Assad [nr: presidente sírio]»... 6. O que G. W. Bush deveria saber de cor e salteado é que não haverá
Paz no Médio Oriente enquanto não existir um Estado Palestiniano soberano e
viável. Não há outra saída para este conflito de cinco décadas. Isto mesmo o
reconhecia Henry Siegman, a 8 de Junho, no insuspeito Financial Times:
«Israel existe. Que o Hamas o reconheça ou não, isso nada acrescenta ou
diminui ao que é irrefutável. Em contrapartida, 40 anos depois da guerra de
67, não existe ainda Estado Palestiniano. A questão politicamente pertinente
que, em consequência, se coloca, é a de saber se Israel reconhece ou não o
direito dos palestinianos a ter um Estado. E não o inverso» [2]. _______ [1] Nota explicativa da Embaixada de Israel, datada de 13 de Julho. [2] “The issue is not
whether Hamas recognizes Israel”, Financial Times de 8 de Junho. |