Informação Alternativa

Médio Oriente

Fevereiro 2006

 

Caleidoscópio saudita

 

Alain Gresh

Le Monde diplomatique

 

O vice-presidente americano Richard Cheney foi recebido pelo novo rei Abdallah a 18 de Janeiro. A visita confirma a solidez das relações entre Riade e Washington. No entanto, os interesses dos sauditas focam­‑se sobretudo na situação interna do país, com a ascensão ao trono de um soberano que afirma querer fazer com que a sociedade finalmente evolua, mudar o estatuto das mulheres, combater a pobreza e introduzir novas liberdades.

 

Entre os jornalistas especialistas do Médio Oriente circula a seguinte anedota: «Da primeira viagem, voltamos com um artigo; à segunda, pensamos escrever um livro; e à terceira, bem vistas as coisas, dizemos que é utópico relatar uma realidade tão múltipla.»

 

«Irá falar objectivamente da Arábia Saudita?» Em 2000, esta pergunta, feita pelo vice-ministro da Informação, soou como uma ameaça. Cinco anos depois, o jornalista já pode fazer o que quiser: viajar pelo país e falar com os interlocutores que entender, incluindo certos intelectuais proibidos de falar à imprensa pelas autoridades.

 

«Irá falar objectivamente da Arábia Saudita?» A pergunta surgiu na sede do diário em inglês The Saudi Gazette, em Djedda, feita por uma jovem jornalista que além de envergar o lenço islâmico trazia a parte inferior do rosto tapada por um véu. No entanto, não havia timidez na sua atitude, nem no modo como levou um colega ocidental a ficar sem argumentos. Esta jornalista publicara recentemente um artigo sobre as difíceis relações entre a Arábia Saudita e a Líbia – as relações diplomáticas entre os dois países estiveram bloqueadas durante meses –, um texto que não agradou às autoridades, e estava a fazer a cobertura da Cimeira da Organização da Conferência Islâmica (OCI), a decorrer em Meca, onde falou com chefes de Estado e responsáveis políticos.

 

Como responder àquela pergunta? Como ter a certeza de que expomos uma visão “objectiva” de um país culturalmente tão diferente, diverso nas suas regiões, múltiplo nas suas identidades? Mesmo quando não temos o obstáculo da língua, como livrar-nos dos preconceitos tenazes, das imagens simplistas, das simplificações cómodas? Pode a Arábia Saudita ser reduzida à segregação das mulheres, ao peso da religião e às decapitações públicas? Mas, ao mesmo tempo, ao aludirmos às mudanças sociais ou políticas, aos progressos e aos debates, como fazer para não apagarmos estas tristes realidades?

 

O “PAÍS REAL”

 

Há nisto, para os jornalistas, um “percurso obrigatório”; todos falam com as mesmas pessoas, responsáveis políticos habituados à linguagem estereotipada, intelectuais ou homens de negócios ocidentalizados que falam inglês e que, acima de tudo, partilham a maneira de ver de quem os aborda. Como podemos nós admirar­‑nos da semelhança visível nos artigos resultantes dessas conversações? Como escapar a tais coisas para redigir relatos o mais próximos possível do “país real”?

 

Este “país real” encontra-se profundamente impregnado pelo islão, tanto na sua visão do mundo como nas suas práticas correntes. Para o observador apressado, este país resume-se àquilo que se designa com a palavra “wahabismo”. No entanto, na Arábia Saudita abundam as escolas religiosas que se reclamam de tradições diversas, dos sufis, bem como duma dinâmica minoria xiita. O próprio wahabismo sunita, longe de ser homogéneo, tem debates internos e clivagens, que aliás se têm acentuado nos últimos anos. Impõe-se, todavia, saber ouvir estes homens e mulheres, pessoas que se situam no interior de um outro sistema de valores, que empregam palavras diferentes das nossas e que desconfiam da imprensa ocidental, por eles considerada, às vezes com razão, hostil ao islão.

 

A Arábia Saudita, que há pouco aderiu à Organização Mundial do Comércio, beneficia dos grandes aumentos dos preços do petróleo; em 2005, as suas receitas atingiram quase os 500 milhões de dólares por dia. A riqueza é palpável, o dinamismo económico retumbante; em 2004, os preços na Bolsa aumentaram de forma vertiginosa, 100 por cento, e o mesmo aconteceu em 2005 [1]; para um grande número de famílias, o negócio bolsista tornou-se uma fonte de rendimentos. Em Dezembro de 2005, 5,7 milhões de sauditas compraram acções da Companhia Nacional Petroquímica de Yanbu, num total de quase 2 mil milhões de dólares.

 

Mais ou menos, as camadas superiores e médias da população são facilmente acessíveis aos ocidentais. Mas as outras, as da mó de baixo, os pobres cuja existência o governo agora reconhece? Os imigrantes, que constituem a maioria da mão-de-obra e cujo número se eleva a 6,3 milhões de pessoas, num cômputo de 19,7 milhões de cidadãos nacionais?

 

É difícil avaliarmos a amplitude da questão social. A ausência de estatísticas pormenorizadas, de um movimento sindical, e, mais geralmente, o carácter ainda balbuciante das ciências sociais neste país, tornam difícil uma estimativa da pobreza, apesar de a este respeito a imprensa prestar uma ajuda inesperada. Desde há alguns anos – e a tendência acentuou-se com a subida ao trono do rei Abdallah, no dia 1 de Agosto de 2005 –, os diários abordam com regularidade os problemas sociais: desemprego, pobreza, prostituição, droga, etc. Até a SIDA foi objecto de iniciativas públicas: no passado dia 1 de Dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, pudemos ver em Djedda ambulâncias distribuindo folhetos de informação.

 

Poderá o novo e duradouro maná petrolífero resolver os problemas do emprego, da educação, da saúde? O primeiro desafio consiste em propor emprego a toda a gente, em particular às dezenas de milhares de jovens que estão a chegar ao mercado de trabalho e ao número crescente de mulheres que procuram colocação. As suas expectativas, desejos e frustrações irão determinar em parte o futuro do país.

 

Basta vermos, nas ruas de Riade, à quarta-feira à noite, os milhares de jovens que por ali deambulam, desocupados, sem salas de espectáculo nem cinemas, sem lugares de encontro mistos, para ficarmos com uma ideia do tédio que se apodera de todos aqueles que, por outro lado, estão abertos à cultura internacional, através da Internet e das televisões por satélite. Nada tem de espantoso que se amplifiquem os problemas de delinquência e droga. Ao fim-de-semana, alguns vão distrair-se para o Bahrein, o reino­‑ilha ligado à Arábia Saudita por uma ponte gigantesca; em 2004, utilizaram-na 11 milhões de passageiros, e este número continua a aumentar. Todas estas pessoas partem em busca de distracções de que se encontram privadas no país onde vivem.

 

Certos jovens, e não forçosamente os mais desfavorecidos, enveredam por um caminho muito mais perigoso. Foram numerosos os que na década de 1980 partiram para o Afeganistão, para se integrarem nos combates, respondendo ao apelo do seu próprio governo e com o apoio dos Estados Unidos. Seguiram-se-lhes os que se sentiram indignados com os massacres na Bósnia ou na Tchétchénia e que se formaram nos campos de treino dos talibãs. Outros, vários milhares, encontram-se actualmente no Iraque.

 

De início mobilizados contra o inimigo soviético ou norte-americano, alguns viraram-se depois contra o regime saudita, sobretudo a seguir ao apelo que o reino lançou às tropas americanas, em Agosto de 1990, para enfrentar o Iraque. Desde então, intensificou-se o debate sobre a jihad, o lugar que o islão ocupa ou o extremismo. Em especial a partir de Maio de 2003, desde que a própria Arábia Saudita foi visada, através de uma onda de atentados [2]. Na Cimeira da Organização da Conferência Islâmica (OCI), realizada em Meca nos dias 7 e 8 de Dezembro, que consagrou o triunfo pessoal do novo rei Abdallah, uma declaração fez questão de valorizar o islão como religião do centro (wassatiyyah), rejeitando «os excessos, o extremismo e a estreiteza de espírito».

 

Encarna esta evolução, mais do que qualquer outro, o xeque Salman Al-Awdah, um dos mais populares pregadores do país. O seu programa diário no canal MBC (transmitido por satélite), durante o mês do Ramadão, teve um imenso sucesso, tanto mais que não se resumiu a pregações, abordando também temas mais amplos, mais íntimos, mais pessoais, tais como a beleza, tendo aliás provocado algumas críticas dos meios conservadores. O xeque recebeu-nos à porta de sua casa, ao regressar da oração do ‘asr (início da tarde), que oficiou na mesquita vizinha. No vestíbulo, os seus três filhos pequenos estavam na lição, com um preceptor, tendo então comentado o nosso anfitrião: «A educação é a coisa mais importante». No seu escritório, sumariamente mobilado, viam-se um tapete de oração, uma biblioteca, umas quantas ilustrações na parede.

 

Este homem, em quem se sente haver carisma, oferece-nos café não torrado, tâmaras e chocolates – «a tradição e a civilização», precisa ele, com um sorriso. Salman Al-Awdah é um dos artífices da Sahwa (o despertar), movimento que no fim da década de 1980 e durante a década seguinte renovou o islão, permitindo­‑lhe ocupar uma posição hegemónica, nomeadamente face aos “liberais” e aos defensores do “modernismo”, que no início dos anos 80 pareciam triunfar.

 

Com a crise do Golfo de 1990-1991, as controvérsias deslocaram­‑se do campo cultural para o político. A partir de então, o que mobilizou a corrente islâmica foi a relação com os Estados Unidos e a situação interna do reino saudita. O xeque Al-Awdah acabou por ser detido em 1994 [3], ficando preso durante cinco anos. Terão sido reacções ao seu encarceramento a deriva suicida dos islamitas jihadistas, os atentados do 11 de Setembro e as aberturas do então príncipe herdeiro Abdallah, muito antes da sua chegada ao trono? Seja como for, o xeque, ao mesmo tempo que se manteve profundamente apegado ao dogma, evoluiu; as suas prédicas tornaram­‑se mais matizadas, denunciando as leituras guerreiras que alguns fazem da religião: «As relações com os não muçulmanos estão fixadas no Corão, mas por vezes as pessoas simples não sabem ler ou não conhecem o contexto. No capítulo intitulado “Muhammad”, podemos ler, no versículo 4: “Quando encontrardes (alqaytum) os ímpios, cortai-lhes o pescoço até que se rendam”. Mas esta passagem não se pode compreender fora do seu contexto, que é o combate. Alqaytum, aqui, não significa encontrar, significa combater. Por outro lado, convém lembrarmo­‑nos da história do islão. No tempo do profeta (que Alá abençoe), os muçulmanos estavam perante agressões, mas tinham um guia, não andavam em busca de vingança, porque isso era contrário ao ensinamento do islão. Sabe quantos mortos causaram os combates durante os vinte e três anos da sua pregação? Duzentos e cinquenta a trezentos, em vinte batalhas. Hoje em dia, a mais pequena escaramuça causa muito mais vítimas.»

 

“CAMPANHA PELA TRANQUILIDADE”

 

Em Julho de 2003, o xeque Al­‑Awdah participou no primeiro diálogo nacional promovido pelo príncipe herdeiro Abdallah [4], onde teve encontros com dirigentes religiosos xiitas perante as câmaras da televisão; foi um gesto corajoso, porque numerosos sunitas consideram que os xiitas são heréticos, ou até não muçulmanos.

 

Esta maior tolerância encontra-se também no xeque Abdelaziz Al-Gassim, um outro artífice da Sahwa, mas que foi longe no caminho da reforma. Qualificado, juntamente com outros dirigentes religiosos, pelo investigador Stéphane Lacroix, como «liberal islamita» [5] – denominação que a maior parte dos interessados rejeita –, tornou­‑se uma referência para os jovens que muitas vezes andaram de namoro com o radicalismo e que agora tentam conjugar o islão com o liberalismo político.

 

O xeque Al-Gassim dirige uma sociedade jurídica que faz estudos sobre a charia e o direito. Fala com calma e convicção, lembrando com prazer uma viagem turística que fez a França, em companhia da família, e o seu desejo de lá voltar. A seu ver, a evolução «mais importante é a abertura do campo religioso no sentido do debate. O Estado sempre quis controlar a instituição religiosa, agora tenta que ela se abra. Tanto mais que a morte dos xeques Ben Baz e Ben Uthaymin, os dois grandes ulemas cuja autoridade era incontestada, criou um vazio que ninguém pode preencher. Por causa disso, passou a ser mais difícil o poder servir-se da instituição (como fez em 1990, para lançar o apelo às tropas americanas), porque esta perdeu uma parte da sua credibilidade – o Conselho dos Grandes Ulemas teve de aceitar a aposentação de alguns dos seus membros antes de estes falecerem, coisa que nunca se tinha visto!»

 

Khaled é funcionário do Ministério dos Assuntos Religiosos. Dirige uma empresa de comunicação e, quando pode, trabalha também como jornalista. Faz parte duma nova geração muçulmana, praticante mas sensível às mudanças. Com alguns amigos, lançou há um ano e meio a Hamlah Al-Sekkina (que podemos traduzir por “campanha em prol da tranquilidade”), com o objectivo de “despertar”, através da Internet, os jovens que se têm deixado seduzir pelas ideias radicais.

 

«Tivemos 63.000 horas de debates com mil pessoas», explica-nos. «Conseguimos que 590 dessas pessoas mudassem alguma coisa no seu comportamento. Por óbvios motivos de segurança, os debates são quase sempre anónimos, tendo em conta que os nossos interlocutores por vezes têm medo. Explicamos o conceito de jihad, o significado da charia, a atitude que os muçulmanos devem ter para com os outros». Porém, lamenta Khaled, «a lógica do preto ou branco é por vezes partilhada mesmo pelos liberais, segundo os quais se deveria optar pelo liberalismo ou pelo islão. Nós não estamos de acordo com esta perspectiva, somos muçulmanos e liberais.»

 

A cultura do diálogo não se impõe facilmente, vai-se construindo pedra a pedra. “Nós e os outros: uma visão nacional colectiva para agir com as civilizações através do mundo” foi o tema do quinto diálogo nacional iniciado pelo príncipe herdeiro entretanto entronizado, encontro esse que reuniu em Abha, em meados de Dezembro, várias dezenas de intelectuais e responsáveis associativos e religiosos; pela primeira vez, os debates foram transmitidos em directo pela televisão. «Antes de mais, é preciso aprendermos a dialogar entre nós», declara Suhayla Hammad Zayn Al-Abidin, prestes a apanhar um voo para Abha. «Não nos compete decidir quem é “kafir” [descrente] e quem o não é, isso pertence a Deus». Suhayla Hammad foi acusada de “laicismo”, o que aqui é praticamente sinónimo de ateísmo. No entanto, esta mulher é muito tradicional, tanto no seu discurso político – denunciando as incontáveis conspirações sionistas – como no respeito que tem pelas regras religiosas. Mas sobre os direitos das mulheres é inesgotável...

 

«O islão», insiste ela, «atribuiu à mulher direitos importantes, mais direitos que os das mulheres ocidentais. Mas na Arábia Saudita predominam tradições e formas de pensamento que nada têm a ver com a religião. A mulher tem o direito de utilizar o seu dinheiro, já assim acontecia com as mulheres do Profeta, que faziam transacções sem o consultarem, ao passo que nós precisamos de um mahram [tutor]. O que nós pedimos é um regresso ao verdadeiro islão; o Estado está ao nosso lado nesta reclamação, as resistências vêm da sociedade».

 

A situação das mulheres evolui. Por um lado, se compararmos a Arábia Saudita com outros países, o atraso é patente; uma tal segregação entre os sexos não acontece noutras paragens. A percentagem de mulheres que trabalham é muito baixa e para muitas diligências práticas elas continuam a precisar da presença do pai ou do marido. Mas, por outro lado, se avaliarmos as mudanças ocorridas desde há dois anos, verificamos que elas são reais. As mulheres podem agora obter o bilhete de identidade sem autorização de um tutor, estão muito presentes no sector dos negócios, chefiam delegações oficiais ao estrangeiro.

 

As recentes eleições na Câmara de Comércio e Indústria de Djedda foram uma viragem histórica. Logo que subiu ao poder, o novo rei fez protelar esse escrutínio, previsto para o mês de Setembro, para que as mulheres pudessem ser candidatas. E dois meses depois, apesar de uma campanha hostil de vários imãs, duas delas foram eleitas, num total de doze membros. Além disso, o ministro do Comércio e Indústria nomeou duas mulheres para o conselho de administração, que tem seis membros.

 

VIOLÊNCIA CONJUGAL

 

Hatoon Ajwad Alfassi, intelectual liberal, congratula-se com esses resultados. Trabalha na universidade, mas desde há cinco anos está proibida de exercer docência, sem saber muito bem porquê. Escreve regularmente para os jornais, fala inglês e francês, conta­‑nos as viagens que fez a França, altura em que decidiu envergar o véu islâmico quando se deslocasse ao estrangeiro. «Temos uma ideia positiva do novo rei, que tem dado sinais importantes. Para começar, quando acedeu ao poder recebeu dois grupos de mulheres, grupos de umas quarenta pessoas – funcionárias do Ministério da Educação, intelectuais – que foram pronunciar a bay’a, o juramento de fidelidade. Foi um acontecimento inédito e a televisão transmitiu imagens desse acto».

 

A sociedade saudita tende a tornar-se mais transparente, revelando que os problemas da violência conjugal se encontram também em primeiro lugar. Segundo um relatório publicado pela Associação Nacional dos Direitos Humanos, em 5000 casos que lhe foram expostos, 30 por cento diziam respeito à violência conjugal, tema que a imprensa passou a relatar. E os jornais de Djedda informam sobre um fenómeno crescente e inquietante, o abandono dos recém-nascidos pela própria mãe...

 

Mas embora o debate social se amplifique, no plano político as evoluções são mais aleatórias. Dependem da boa vontade do soberano e qualquer conquista corre o risco de ser posta em causa pouco tempo depois, porque as regras do funcionamento político continuam a ser imprecisas. As eleições municipais são um bom exemplo destas incertezas.

 

Anunciadas várias vezes ao longo dos últimos anos, acabaram por se realizar em 2005, entre Fevereiro e Abril, sucessivamente nas diversas regiões do país, para eleger metade dos membros dos 178 municípios – sendo a outra metade nomeada pelas autoridades.

 

Na província do Leste, a competição eleitoral foi mais activa. Qatif, um porto antigo situado no Golfo, foi o centro do cisma político e religioso: em cinco circunscrições, afrontaram­‑se 148 candidatos. Havia 120.000 eleitores potenciais, inscreveram-se 44.000 e votaram 35.000, uma das mais elevadas percentagens do país. Nesta região, próxima do Iraque, as tradições as tradições políticas, desconhecidas no resto do reino, são já antigas; desde a década de 1950, penetraram ali todas as correntes políticas oriundas do Iraque: nacionalismo árabe, comunismo, islamismo, etc.

 

«Obtive 24.000 votos», explica Jafar M. Al-Shayeb, candidato vitorioso, próximo dos religiosos xiitas. «Em si mesma, a campanha eleitoral foi muito curta, mas a preparação foi mais longa. Houve comissões locais que fizeram esforços efectivos para explicar às pessoas como se deviam recensear, como deviam votar. Iam buscá­‑las à mesquita e levavam-nas aos locais de voto ou de recenseamento. Nesta região houve uma centena de reuniões. Na nossa circunscrição, em Tamut, houve por três vezes um debate entre os candidatos; cada qual apresentava o seu programa, sendo depois dada a palavra à assistência». E, como reconhece o nosso interlocutor, «o poder não exerceu nenhuma ingerência no escrutínio».

 

Todavia, depois de concluídas as eleições em todo o país, só oito meses mais tarde foi publicado o regulamento interno dos conselhos e respectivas prerrogativas (que no essencial são de carácter consultivo). Duas semanas depois, o governo nomeou a outra metade dos membros dos conselhos municipais, personalidades muitas vezes escolhidas em função das suas competências. Em Qatif, Al-Shayeb foi eleito presidente do conselho municipal (mas o presidente da câmara continua a ser nomeado); noutros lados, o presidente da câmara acumula as funções de presidente do conselho municipal.

 

O xeque Hassan Al-Saffar recebe-nos na vasta sala de visitas de uma grande vivenda de Qatif. É um homem elegante, esbelto, usa uma barba bem aparada e o turbante branco dos dignitários xiitas. De aspecto jovem, tem já atrás de si, apesar disso, uma longa carreira de activista; teve de exilar-se em 1980, após a insurreição xiita subsequente à revolução iraniana de 1979, e só regressou em 1995, depois de assinado um acordo com a monarquia. A sua margem de liberdade aumentou, mas continua dependente das contingências políticas. Alguns dos seus livros são publicados na Arábia Saudita, mas outros têm de sê-lo no Líbano.

 

O xeque Al-Saffar começa por se mostrar preocupado com as discriminações que os xiitas têm de suportar. «É preciso acabar com isso. É certo que o diálogo nacional fez cair algumas barreiras existentes entre sunitas e xiitas, mas ainda não saímos do debate. Contra estes contactos, os meios conservadores exercem fortes pressões na instituição religiosa – por vezes também do nosso lado», reconhece. «Tivemos encontros com xeques sunitas de relevo, como Salman Al-Awdah, que disse coisas positivas, e eu penso que ele evoluiu. Mas encontra­‑se submetido às pressões dos conservadores e não quer perder a influência que exerce. Precisamos de iniciativas comuns para facilitar uma evolução, tanto entre os sunitas como entre os xiitas.»

 

Em conclusão, explica o xeque Al-Saffar, «não somos favoráveis a uma mudança rápida, não queremos transformar o país numa nova Argélia. Mas o poder tem de dar a palavra às diversas correntes, para se criar uma relação de forças mais favorável à reforma. É preciso estabelecer as regras do jogo político e integrar as forças que o desejam, tornando-as mais responsáveis. Por enquanto, não há um projecto concreto, os poucos sinais positivos continuam no papel».

 

Este relativo pessimismo encontra-se entre muitos intelectuais e militantes. Em 2004 foi publicado um apelo a uma reforma constitucional, por iniciativa, essencialmente, da corrente islamita. Como reconhece o professor Abdallah Al-Hamed, um dos seus porta-vozes, esta última tinha desejado afirmar uma presença autónoma: «Nós pedíamos a transformação da monarquia absoluta numa monarquia constitucional. O apelo de Riade foi uma exortação à tolerância, à unidade, ao humanismo, tendo sobretudo decorrido dos que se reclamam do islão. Pensei que era importante afirmar-se uma corrente religiosa favorável à democracia, para retirar trunfos aos que apelam ao derrube do regime e fazer recuar a violência. Nós pensamos que um Estado não pode ser islâmico se não for democrático, se não for regido por uma Constituição.»

 

UM ENCONTRO COM O REI

 

Terá ido longe demais, para o poder, o pedido de reforma constitucional? Em todo o caso, a repressão abateu­‑se sobre o movimento de apoio a essa reforma (que se organizara em 2002-2003 com a tácita simpatia do príncipe Abdallah), mais facilmente ainda pelo facto de o “cavaleiro solitário” dos islamitas o ter dividido. Segundo o poeta Ali Al-Dumaini, «fomos presos ilegalmente, porque nós não violámos lei nenhuma. Os direitos da defesa foram espezinhados, a polícia chegou mesmo a confiscar, nas nossas celas, os textos que tínhamos preparado para a nossa defesa; felizmente, as nossas famílias tinham duplicados. E o juiz impôs um julgamento à porta fechada». É verdade que a primeira sessão do tribunal suscitou artigos de imprensa muito críticos contra o governo, em particular na Internet.

 

Três homens sofreram pesadas condenações: o professor Matruk Al-Falih, nacionalista árabe, foi condenado a seis anos; o professor Abdallah Al-Hamed, islamita, a sete anos; e o poeta Ali Al-Dumaini, ex­‑comunista, a nove anos. Nenhum deles tinha cometido crimes, nenhum tinha apelado à violência, todos preconizavam uma reforma pacífica.

 

Por que motivo deixou o príncipe herdeiro que isso se passasse? A explicação mais corrente realça as lutas no interior do poder, a dificuldade de o príncipe Abdallah afirmar a sua autoridade. Terá isso mudado com a sua subida ao trono e com a imensa popularidade de que goza? A sua renúncia ao título de “Sua Majestade” e ao beija­‑mão foram coisas muito apreciadas. «Depois de termos sido libertados», explica Ali Al­‑Dumaini, «quisemos ter um encontro privado com o rei. Queríamos vê-lo, para reforçar os nossos laços com ele, para o encorajar a prosseguir no caminho ainda incerto da reforma. Mas só o pudemos ver em público. Cada um de nós interveio para afirmar que estávamos a seu lado no caminho da reforma, de mãos dadas, com os mesmos sentimentos. O soberano respondeu que nós éramos bons cidadãos, que éramos seus irmãos e seus filhos». Ali Al­‑Dumaini espera reaver rapidamente o seu passaporte e ficar de novo em condições de viajar...

 

A palavra caleidoscópio designa «um cilindro no qual há fragmentos coloridos que são reflectidos através de um jogo de espelhos angulares, [e que] cedo inspirou (1818) uma acepção figurada, exprimindo a ideia duma sucessão rápida e variável (de sensações, impressões)» [6]. Ao cabo desta investigação caleidoscópica, que imagem ficará na mente do leitor? A de mulheres sempre oprimidas ou que estão a libertar-se? A de um poder reformador ou encerrado no seu conservadorismo? A de uma sociedade bloqueada ou em movimento? Esperamos, em todo o caso, que seja um esboço, sem dúvida impreciso mas policromo, duma sociedade e dum país que não podemos ver apenas preto ou apenas branco e que continua por descobrir.

 

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[1] Relativamente a Março de 1999, ano em que o país saiu de uma situação difícil, o índice bolsista decuplicou. Todos os dias se operam ali 60 milhões de transacções, contra 10 milhões há um ano.

[2] No próximo mês, o Le Monde diplomatique voltará a abordar a questão do terrorismo na Arábia Saudita, em sintonia com a situação nesta região do mundo, nomeadamente no Iraque.

[3] Sobre o xeque e os acontecimentos de 1994, ler Alain Gresh, Fin de règne en Arabie Saoudite, Le Monde diplomatique, Agosto de 1995.

[4] Este encontro foi realizado em Riade (Julho de 2003, problemática geral), em Meca (Dezembro de 2003, diálogo intelectual), em Medina (Junho de 2004, sobre as mulheres), na província do Leste (Dezembro de 2004, sobre os jovens) e em Abha (Dezembro de 2005, diálogo com os outros).

[5] Stéphane Lacroix, “Islamo-liberal politics in Saudi Arabia”, em Paul Aarts e Gerd Nonneman, Saudi Arabia in the Balance, Hurst & Company, Londres, 2005.

[6] Dictionnaire historique de la langue française, Le Robert, Paris, 1992.