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Médio
Oriente |
Fevereiro 2006
Santo Sharon Dominique Vidal “Dois pesos, duas medidas»: esta expressão caracteriza na perfeição
a cobertura mediática comparada do acidente vascular cerebral do primeiro-ministro
Ariel Sharon e a doença, a que se seguiu a morte, do ex‑presidente
Yasser Arafat, em Novembro de 2004. O desaparecimento do primeiro representa
uma «ameaça para a paz», ao passo que o do segundo eliminava um «obstáculo à
paz». Paradoxal troca de papéis. Abu Ammar conduziu a Organização para a
Libertação da Palestina (OLP) da luta armada, por vezes terrorista, com vista
ao desaparecimento de Israel, ao combate político e diplomático a fim de
criar, ao seu lado, um Estado palestiniano independente. O velho general, por
sua vez, participou em todas as guerras de Israel, incluindo a guerra que
representou a colonização, de que foi o principal arquitecto. Para além disso,
associou o seu nome a uma série de massacres [1]: os meios de comunicação
social mencionam frequentemente os de Sabra e de Chatila, perpetrados pelas
Forças Libanesas com a cumplicidade dos seus homens, mas raramente os outros
cometidos apenas por estes, a saber, o de Kibya (1953), o do desfiladeiro de
Mitla (1956) e o da Faixa de Gaza (1971), sem esquecer a reconquista
sangrenta da Cisjordânia (2002). Certamente, mas o “Buldózer” ter-se-ia subitamente convertido ao
pacifismo, com a retirada unilateral de Gaza, no fim do Verão de 2005. «Ilusão
de óptica», responde o historiador israelita Tom Segev: «não existia nenhum “novo
Sharon” a revelar-se, no final da sua vida, enamorado pela paz. Ariel Sharon
continuou igual a si próprio: um general que vê os palestinianos através da
mira da sua espingarda e que os considera inimigos e não parceiros» [2]. Para
o ex-embaixador em Paris Elie Barnavi, «a reviravolta bastante espectacular
(...) nos comentários é mais eloquente sobre a seriedade de um certo
jornalismo do que sobre a evolução objectiva do antigo primeiro-ministro» [3]. A guerra, dixit Clausewitz, é «a continuação da política por
outros meios». Digno herdeiro de David Ben Gurion e de Zeev Jabotinsky, o
primeiro-ministro inverteu a máxima. Eleito no início de 2001, continua a
acreditar que «a guerra de independência de 1948 não terminou» [4]. Depois de
ter aplicado, durante dois anos, este programa num primeiro nível, retomando
o controlo total da Cisjordânia, teve de passar ao segundo, para enfrentar
dois desafios, um estrutural e o outro conjuntural. Os demógrafos predisseram-no: o “Grande Israel” contará dentro em
pouco com uma maioria árabe. Terrível dilema para Israel, cuja Lei
fundamental define como «judeu e democrático»: ou privilegiará o segundo
termo, perdendo o seu carácter judeu; ou procurará conservá-lo sem poder ser
democrático. Para escapar a esta armadilha é-lhe necessário admitir junto a
si um verdadeiro Estado para os palestinianos, ou expulsá-los em massa. Sharon
põe de parte a primeira solução e sabe que a segunda é actualmente
impraticável. Imaginou assim, desde 1998, uma terceira: a formação, na Faixa
de Gaza e na metade da Cisjordânia inserida no interior do muro, de quatro
enclaves palestinianos, anexando Israel a restante, nomeadamente os blocos de
implantações que reúnem 80 por cento dos colonos. Daí a ideia da retirada unilateral de Gaza, um gesto sem precedente,
mas sobretudo uma etapa para esta nova forma de hegemonia israelita sobre a
Palestina. Sendo estratégica, a manobra comporta também uma dimensão táctica.
Sharon põe-na em prática em 2004 ao avaliar o seu isolamento. Em Israel antes
de mais, onde a opinião pública se encontra mais que farta do conflito. No
estrangeiro, de seguida. A 9 de Julho, o Tribunal Internacional de Justiça
(TIJ) decreta a ilegalidade do muro e ordena a sua destruição; a 20, a
Assembleia Geral das Nações Unidas faz suas estas mesmas conclusões por 150
votos, com 6 votos contra e 10 abstenções. Se todos os membros da União
Europeia votam a resolução, é porque 59 por cento dos seus cidadãos colocam
Israel à cabeça dos Estados que «ameaçam a paz no mundo» [5]. Telavive chega
mesmo a temer pressões da Casa Branca. E o Quarteto (Nações Unidas, Estados
Unidos, União Europeia e Rússia) apela a Telavive para que aceite as
exigências do seu Roteiro para a Paz, devendo o congelamento da colonização
recompensar a trégua obtida por Mahmud Abbas. «O verdadeiro significado do plano de retirada [de Gaza] consiste no
congelamento do processo de paz», assegura Dov Weissglas, o conselheiro mais
próximo do primeiro-ministro israelita. «Quando se congela o processo de paz,
impede-se a criação de um Estado palestiniano e impede-se uma discussão sobre
os refugiados, sobre as fronteiras e sobre Jerusalém. (...) A retirada (...) é
a dose de formol necessária para que não haja processo político com os
palestinianos» [6]. Dezasseis meses mais tarde, esta análise parece
premonitória: o Quarteto guarda silêncio e a União Europeia chega mesmo a
dissimular o seu próprio relatório sobre a anexação israelita de Jerusalém
Oriental. Em suma, ninguém mais importuna Israel com o Roteiro... O prestidigitador realizou o seu truque. Espectacularmente encenada,
a partida de 8000 colonos da Faixa de Gaza hipnotizou o planeta, desde então
cego, surdo e mudo relativamente ao destino dos palestinianos. E, no entanto,
a associação A Paz Agora calcula que existam presentemente mais 6100 colonos
do que no ano anterior, perfazendo um total de 250.000 na Cisjordânia [7]. Esta
última será literalmente cortada em dois pelo alargamento de Maale Adumim. A
construção do muro acelera-se, estando perto de metade concluída ou em vias
de o ser, assim completando o cerco de Jerusalém Oriental [8]. O exército
multiplica os bombardeamentos e os assassinatos, sem esquecer os bloqueios e
as humilhações nas 750 barreiras. Mas o silêncio impera: pouco importa o
direito internacional, as resoluções das Nações Unidas, o estabelecimento de
um Estado palestiniano no conjunto da Cisjordânia e da Faixa de Gaza com
Jerusalém Oriental como capital quando... a paz vem a caminho. Durante muito tempo, a política francesa para o Médio Oriente
alinhava pela de Israel: ao sentimento de culpa relativamente ao papel de
Vichy no genocídio nazi depressa se juntou o combate contra o nacionalismo
árabe em Argel, logo no Cairo. De Gaulle operou uma inversão radical por
ocasião da guerra de Junho de 1967, certo de que Israel iria «organizar, nos
territórios que tomou, uma ocupação que não se poderá efectuar sem opressão,
repressão e expulsões; e que aí se manifesta contra ela uma resistência que
por sua vez qualifica como terrorismo». Os seus sucessores – Georges
Pompidou, Valéry Giscard d’Estaing e, no essencial, François Miterrand – entregam-se
a esta “política árabe”, convencidos de que apenas a autodeterminação dos
palestinianos cortaria os nós górdios da região. A princípio fiel a esta inspiração, o presidente Jacques Chirac
envereda repentinamente por uma outra. E porquê? Manifestamente, o tapete vermelho
estendido, em Julho último, sob os pés do primeiro‑ministro Ariel
Sharon, até então persona non grata, materializou essa inversão. O
hóspede do Eliseu não esperou, com efeito, pela hospitalização de Sharon para
cantar os louvores deste «homem de paz», com algum atraso, é verdade,
relativamente a George W. Bush. Para lá das hipocrisias, é sobretudo gritante o contraste entre o
ensurdecedor silêncio de Paris acerca da repressão na Palestina e a sua
cooperação cada vez mais estreita com Telavive, marcada pelo ritmo de
incessantes intercâmbios ministeriais. A participação de duas grandes
empresas francesas, a Alstom e a Connex, na construção do eléctrico que liga
Jerusalém aos colonatos – que a França sempre considerou ilegais – de Pisgat
Zeev e de French Hill manifesta esquizofrenia. E que dizer da estadia em
Paris, em Dezembro último, a convite de Nicolas Sarkozy, do ministro
israelita da Segurança Pública, Gideon Ezra, e do chefe da polícia israelita
Moshe Karadi, com vista, segundo o Haaretz, a expor «aos seus
homólogos franceses a lição que retiram da repressão dos motins no seu
próprio país» [9]? Os franceses, acrescentava maliciosamente o diário, estão
«vivamente interessados nas competências israelitas nesta matéria»... A questão ultrapassa evidentemente o Médio Oriente: tendo-se
colocado em 2003 à frente dos opositores ao aventureirismo do presidente
Bush, desde 2005 que Chirac transige com ele. Do Afeganistão ao Irão, segue
os Estados Unidos, chegando mesmo a antecipar-se-lhes – como no caso do
Líbano e da Síria. E acerca do dossiê israelo‑palestiniano? Certamente
que a renúncia geopolítica se cruza com preocupações mais políticas. Não
existem dúvidas de que os dirigentes franceses, obcecados pelos prazos
eleitorais, vão cedendo à chantagem que, desde há cinco anos, apresenta como
anti-semita quem quer que critique Israel [10]. Apesar de estas campanhas não
terem encontrado apoio na opinião pública, a classe política e mediática
revela‑se‑lhe mais sensível. Daí a transformar um criminoso de
guerra em santo... _____ [1] Ler Le Général
Sharon. Eléments pour une biographie, Éditions de la Revue d’études palestiniennes,
Paris, 2001. [2] Le Monde, 12 de Janeiro de 2006. [3] Le Figaro, 13 de Janeiro de 2006. [4] Haaretz, Telavive, 12 de Abril de 2001. [5] Le Monde, 5 de Novembro de 2003. [6] Entrevista ao jornal Haaretz, a 6 de
Outubro de 2004. [8] Segundo a organização israelita de direitos
humanos Betselem, num total de 681 quilómetros, 31 por cento encontram‑se
já construídos, 16,5 por cento estão em construção e 43 por cento
encontram-se pendentes, permanecendo os restantes 9,5 por cento do traçado
por decidir. [9] Haaretz, 12 de Dezembro de 2005. [10] Dominique Vidal, Les pompiers pyromanes de l’antisémitisme [ed. brasileira: Os bombeiros piromaníacos do anti-semitismo], Le Monde diplomatique, Maio de 2004. |