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16/02/2006 Um jogo perigoso… Ângelo Alves A chamada “Crise dos Cartoons”, o momento em que se desenvolve, a sua
origem e o modo como está a ser tratada, quer pelo poder político, quer pelos
media, suscita muitas interrogações e acima de tudo preocupações. A Dinamarca, governada por uma coligação de direita/extrema-direita
participa como é sabido na ocupação do Iraque. Tem, na sua população, uma
comunidade de apenas 2% de muçulmanos. No entanto, são conhecidas as leis de
imigração e de asilo altamente discriminatórias desta comunidade assim como
discursos de carácter xenófobo de forças da coligação governamental. As
declarações da Rainha Margareth II [1] são elucidativas da natureza do poder
político aos quais está ligado o pequeno jornal dinamarquês Jyllands-Posten
por onde tudo começou: «Estamos a ser desafiados pelo Islão nestes anos –
quer a nível global quer local. (..) Temos que mostrar a nossa oposição ao
Islão e temos que, às vezes, correr o risco de nos serem colocados rótulos
menos simpáticos…». Repare-se que nem se fala em “extremistas” ou
“fundamentalistas”. A oposição é a uma determinada religião, enquanto tal. O
espírito das Cruzadas medievais regressa em força à Europa do Século XXI. Os Cartoons foram publicados pela primeira vez em Setembro de 2005 e
só depois de 5 meses sem reacções violentas e de uma “onda” de reproduções em
cerca de 20 jornais europeus é que a “crise” estalou, exactamente no momento
em que a pressão imperialista sobre Síria, Irão e Palestina estão “ao rubro”. Relembrando que foi a direcção do jornal dinamarquês quem solicitou
a produção dos Cartoons sobre o Profeta Maomé e que a mesma recusou publicar
em Abril de 2003 desenhos sobre Jesus Cristo porque «poderiam provocar
protestos» [2], é fácil concluir da dualidade de critérios da linha editorial
do referido jornal e do conhecimento prévio que tinha dos efeitos da sua
decisão. Acrescente-se a isso o seu óbvio conhecimento sobre a situação
internacional, marcada pela preparação de uma nova agressão imperialista no
Médio Oriente; acrescente-se o carácter de “campanha” que a publicação dos
desenhos assumiu e não é difícil concluir que se tratou de uma provocação
intencional que poderá não estar desligada das dificuldades do imperialismo
em justificar novas aventuras militaristas. O que está em causa não é, pois,
a liberdade de imprensa, mas uma enorme operação política, e em política há
que identificar responsáveis pelos acontecimentos, que estão sujeitos à
crítica, por mais que isso doa a quem faz da suposta “liberdade de imprensa e
de expressão” uma das principais armas políticas de opressão. Aliás, é
curioso ver algumas figuras ditas “de esquerda” a saírem de “peito feito”
numa defesa acrítica da “liberdade de imprensa”, esquecendo-se de quem são e
o que visam os que estão por detrás desta “crise”. Mesmo em matéria de
liberdade de expressão, as suas acções vão no sentido de a restringir ainda
mais. As “reacções muçulmanas” e a sua divulgação no “ocidente” são também
políticas. A “imprensa livre” ocidental escolheu quase unanimemente dar
destaque a acções extremistas ocorridas em determinados países (Síria, Irão, Líbano,
Palestina) quase ignorando as numerosas manifestações pacíficas um pouco por
toda a parte. Os países mais focados são exactamente os países que são hoje
alvo das ameaças e ingerências imperialistas. É evidente que forças obscurantistas ligadas à extrema-direita
(árabe, israelita, americana e europeia) tentam explorar a provocação lançada
pela direita europeia, instrumentalizando as massas para ganhar espaço
político, fazendo assim o jogo da falsa “guerra de civilizações” com que o
imperialismo pretende justificar as suas guerras. A onda de revolta suscitada
pelas caricaturas demonstra como é profunda a acumulação de humilhações
resultantes da política imperialista de agressão no Médio Oriente. Mas a
questão chave para compreender os acontecimentos destes dias é outra: muito
antes da actual “guerra dos cartoons”, o imperialismo decidira já voltar a
atacar no Médio Oriente. Quando Bush colocou o Irão no “Eixo do Mal”, não
havia cartoons, nem Amhadinejad era Presidente. A guerra contra o Iraque
ficou marcada pela ficção das “armas de destruição massiva”. Está nas mãos
dos povos impedir que as próximas guerras do imperialismo sejam marcadas pela
ficção dos “cartoons”. ________ [1] «We must show our
opposition to Islam, says Danish queen» – News.telegraph, 15/04/2005. [A rainha teria usado a palavra “counter-balance”
e não “opposition”; o artigo
em questão, com o erro de tradução corrigido, foi republicado pelo News.telegraph
em 16/02/2006 (n. IA)]. [2] Ver Gwladys Fouché, Danish paper
rejected Jesus cartoons, The Guardian, 06/02/2006 (n. IA). |