|
Informação Alternativa |
|
Mundo |
|
15/03/2006 Mulheres: Morrer por um pouco de lenha Lisa Söderlindh Apenas por ir em busca da
lenha necessária para a sobrevivência das suas famílias, milhões de
refugiadas arriscam as suas vidas todos os dias, alerta a não-governamental
Comissão Feminina para Mulheres e Crianças Refugiadas. Obrigadas a abandonar
o lar por causa de conflitos armados, perseguição e desastres humanitários,
quase 35 milhões de pessoas vivem como refugiadas dentro das fronteiras dos
seus próprios países ou em outras nações. Mas para as mulheres refugiadas a
vida é particularmente difícil e perigosa, segundo um relatório divulgado em
Nova York, sede da comissão. «Todos os dias, milhões de
mulheres e adolescentes refugiadas devem ir em busca de lenha para as suas
famílias em condições muito perigosas, e correm risco de violação, assalto, sequestro,
roubo e mesmo morte. Não têm opção. É uma questão de sobrevivência», alertou
a directora da Women’s Commision, Carolyn Makinson. Supõe-se que os
acampamentos para refugiados sejam lugares seguros, criados para proteger e
ajudar as populações mais vulneráveis do mundo. Mas embora lhes dêem abrigo,
água potável, cuidados médicos e alimentos, «muito raramente recebem
combustível para cozinhar, e têm de consegui-lo por seus próprios meios, sem
importar os riscos», diz o documento. O combustível – o mais usado
é a lenha – não é vital apenas para cozinhar, mas também para a calefacção,
construção e cuidados médicos. Além disso, é uma importante fonte de renda,
pois pode ser vendido. Os perigos associados à obtenção de combustível entre
os refugiados são conhecidos há muito tempo, mas deliberadamente desatendidos
pela comunidade internacional e pelas organizações humanitárias que o
consideram um «assunto de mulheres», critica o relatório. De facto, a
responsabilidade de obter o combustível recai de forma desproporcional nas
mulheres e adolescentes. Os riscos variam entre os diferentes acampamentos,
dependendo da gravidade dos conflitos bélicos. A região sudanesa de Darfur,
onde se trava uma guerra civil desde 2003, é o lugar mais perigoso do mundo
para as refugiadas. Nos arredores do acampamento de Abu Shouk, no norte de
Darfur, mulheres e adolescentes vão buscar lenha todas as madrugadas. Saem
pelo deserto em pequenos grupos, cada um em diferentes direcções, esperando
conseguir o suficiente para esse dia e voltar ao acampamento para preparar a
primeira refeição antes do amanhecer. Mas as poucas árvores na região que
forneciam lenha para os primeiros acampamentos instalados há dois anos já não
o fazem mais. Encontrar uma só árvore requer caminhada de várias horas, por
isso muitas mulheres preferem cavar o chão com as mãos em busca de restos de
raízes. Com frequência acabam vítimas
das milícias árabes Janjaweed, apoiadas pelo regime islâmico de Cartum, ou
dos movimentos armados de indígenas negros que lutam contra o governo. Os
dois grupos conhecem o costume das mulheres de sair de madrugada e «aproveitam‑se
da falta de império da lei para cometer violações em massa», diz o relatório.
«Os atacantes sabem que não serão apanhados, mas pior ainda, as mulheres e
adolescentes sabem muito bem o que lhes acontecerá se saírem em busca de
lenha», mas não têm escolha, disse Makinson. A situação fica mais difícil a
cada dia, «pois as ameaças persistem e as árvores ficam escassas, forçando as
mulheres a caminharem maiores distâncias para conseguir madeira», acrescenta
o informe. Em outros cenários, como o
dos cerca de 105 mil refugiados butaneses no leste do Nepal, os ataques
sexuais contra mulheres e adolescentes nos arredores dos acampamentos são um
pouco menos frequentes. Entretanto, os guardas florestais nepaleses continuam
a ser uma ameaça constante. Muitas mulheres foram violadas e assassinadas por
eles, diz o relatório. Ali «a situação torna‑se mais problemática,
pois a lei nepalesa proíbe os refugiados de participarem de qualquer actividade
que gere renda», disse à IPS a presidente da organização de defesa das
mulheres e da infância Himalayan Human Rights Monitors, Anjana Shakya. «As
mulheres não têm autorização para saírem sozinhas em busca de lenha, e por
isso não podem ir à polícia denunciar os crimes», acrescentou. Apesar das diferenças nos riscos que correm as refugiadas nos diferentes cenários, trata-se de um problema mundial sobre o qual «a comunidade internacional tem de fazer alguma coisa», destacou Makinson. O representante permanente da Alemanha na Organização das Nações Unidas, Wolfgang Trautwein, disse que somente compreendendo a realidade diária dessas mulheres se poderá tomar medias para protegê‑las de situações de violência em conflitos armados. «A busca por lenha e combustíveis alternativos é um aspecto importante que deve ser atendido com urgência», afirmou a directora-executiva do Fundo de População das Nações Unidas, Thoraya Ahmed Obaid, ao comentar o informe da Women’s Commission. A organização propõe, entre outras coisas, a distribuição de utensílios de cozinha que funcionem com luz solar e alimentos que necessitem menos tempo de preparação. |