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04/05/2006 Um
tenente médico da RAF confrontou o Conselho de Guerra: A ocupação do Iraque é ilegal Manoel de Lencastre A criminosa participação britânica na guerra do Iraque, já em tantas ocasiões condenada pelo povo em mega manifestações realizadas em Londres e em quase todas as cidades do país, continua a provocar ondas de choque no seio da sociedade, a retirar prestígio às forças armadas, a colocar nas ruas da amargura o nome da Grã-Bretanha no mundo. A 104.ª vítima mortal sustentada pelo contingente britânico na zona de Bassora foi anunciada há dias. Trata-se do tenente Richard Palmer, dos Royal Scots Dragoon Guards. O tenente Palmer tinha sido treinado e diplomado na Academia Militar de Sandhurst, Camberley, de onde costuma sair a fina flor da oficialidade deste país. Quase simultaneamente, o julgamento de um tenente‑médico da aviação (RAF) num Conselho de Guerra reunido em Aldershot, chocava, profundamente, a opinião pública. O tenente Malcolm Kendall‑Smith, mobilizado para o Iraque, recusou essa comissão de serviço, frontalmente, e assumiu a posição honrosa mas cheia de perigos de considerar ilegal, injusta, inaceitável, a invasão daquele país por parte das nações imperialistas, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, principalmente. Por isso, recusou-se a partir. Agora, aos 27 anos de idade, acaba de ser expulso das forças armadas e de ser condenado a uma pena de oito meses de prisão que já começou a cumprir na penitenciária militar de Colchester. Neste momento, as autoridades prisionais britânicas estão a desmilitarizá‑lo, se é que esta expressão pode compreender‑se, e a conduzir o detido através de um tortuoso processo de exames médicos, tudo para deixar a impressão junto da opinião pública britânica, europeia e mundial de que ele possa, possivelmente, não estar em boas condições de saúde mental. Terminado este ciclo de humilhações, o Dr. Kendall‑Smith será transferido para uma penitenciária civil onde, no centro do universo de lunáticos que é o sistema prisional inglês, completará a pena a que foi condenado. «Não vou para o Iraque, seja em que circunstâncias for», dissera aos oficiais da RAF na altura da mobilização para incorporar a “Operação Telic”, em Bassora. Recusava, assim, uma ordem militar directa mas colocava‑se, automaticamente, na órbita das autoridades e da severa e draconiana justiça militar. CINCO ACUSAÇÕES O julgamento foi a farsa que seria de esperar de um Conselho de Guerra reunido em posição tão crítica perante a hostilidade da opinião pública. «Pare de fazer declarações para a galeria!», gritou-lhe o juiz, Jack Bayliss, quando o réu iniciava a sua defesa e se limitava a declarar, cândida e tranquilamente, que recebera uma ordem ilegal. Por isso, não poderia cumpri‑la. Disse, ainda, que, segundo a montanha de livros e outros elementos de informação que tinha consigo, a guerra no Iraque era um incompreensível gesto do governo britânico praticado à revelia dos Princípios de Nuremberga, das leis internacionais e das decisões das Nações Unidas. Ao ouvir estas alegações, o juiz militar esclareceu logo que a discussão da legalidade da guerra não era permitida no Conselho de Guerra. E estabeleceu: «O réu não está autorizado a explicar‑nos aquilo que pensa das leis em vigor». O tenente médico argumentou: «Mas, se não posso dizer o que penso das leis segundo as quais estou a ser julgado, como poderei defender-me? O que sei é que o uso das forças armadas de um Estado contra a soberania e a integridade de outro Estado não passa de um acto de agressão». O juiz perdeu a serenidade. «Cale-se! Não lhe permito o uso de diatribes no campo das leis internacionais! E não admito que um réu discuta comigo no meu próprio tribunal!» As acusações contra Kendall-Smith, apresentadas ao Conselho de Guerra pelo advogado de acusação em nome da Coroa, David Perry, eram cinco, a saber: • não cumpriu as ordens recebidas para serviço de treino com pistola e espingarda; • não se apresentou a uma sessão de medidas à cabeça para que lhe fosse distribuído um capacete; • não compareceu a uma sessão de informações de ordem médica; • não compareceu à sessão em que as instruções de serviço no Iraque lhe seriam comunicadas; • não se apresentou em Bassora em substituição de um colega cuja comissão de serviço terminara. GANGSTERS DE WASHINGTON PERTENCEM À ESCOLA DAS SS O tenente médico Malcolm Kendall-Smith já tinha cumprido comissões de serviço no Kuwait, no Qatar, e no Afeganistão. Não lhe faltam conhecimentos, portanto, quanto às operações militares do imperialismo no seu e nosso tempo. Já viu o novo colonialismo em acção. A apropriação de recursos de vários países. O aparecimento nos cenários de guerra do Afeganistão e do Iraque de meios bélicos absolutamente desproporcionados. Sabe perfeitamente que, ao contrário do que Blair e Bush proclamam, o povo afegão, cuja experiência socialista foi, logo à nascença, afogada em sangue pelo imperialismo e pelos grupos de assassinos e terroristas recrutados por Londres e Washington para servi-lo, não é a democracia parlamentar que deseja. É pão, é a saída da miséria, é a modernização autêntica que sirva as necessidades das populações. A democracia parlamentar, na versão conhecida no Ocidente, só produz palavreado. Quem está a ver um parlamento a funcionar em Kabul? Ou em Bagdad? O corajoso tenente inglês sabe que a democracia na boca de Bush e Blair não passa de uma expressão maligna destinada a iludir os menos preparados. Por isso, na segunda sessão do seu julgamento, não hesitou em dizer ao Conselho de Guerra aquilo que pensa dos americanos. Eis as suas corajosas palavras: «Deixar-me transportar para o Iraque, seria envolver-me numa posição de responsabilidade criminal. Tenho provas documentais de que os métodos e as práticas dos americanos no Médio Oriente e na zona do Golfo são comparáveis às dos nazis. Praticam‑se crimes de guerra, sistematicamente, naquelas regiões. Há uma equivalência moral entre os Estados Unidos e a Alemanha nazi!» Surpreendido com a franqueza desta declaração, o advogado de acusação, David Perry, interveio, perguntando: «O quê? Está a dizer que existe uma igualdade de valores entre o Terceiro Reich e os Estados Unidos?» O militar rebelde, que demonstrou não ter medo do Conselho de Guerra, respondeu: «Correcto!». O advogado de defesa, Philip Sapsford, diria: «As declarações sinceras do meu constituinte são as de alguém que possui uma enorme coragem moral!» VOZ DO PASSADO Do romance A Rua da
Felicidade publicado em 2001 pela Editorial Escritor. Autor: Alberto da
Silva: «Era em ladrilho vermelho o chão do extenso corredor conduzindo ao gabinete do comandante. À porta, perfilava-se um soldado de serviço. Usava gravata. Botas reluzentes. Bem penteado. Mandaram entrar o soldado Julião. Numa sala, retratos de Salazar e Craveiro Lopes. Sobre uma pequena mesa, exemplares da Revista do Exército e do Diário da Manhã. Abriu-se uma porta interior e de um gabinete surgiram dois oficiais. Um deles apresentou-se logo: “Sou o capitão Figueiredo, do Governo Militar de Lisboa. Este meu colega é do Estado‑Maior. Não percamos tempo”. O interrogatório, então, começou. “Soldado Julião! Temos informações de várias origens segundo as quais tens afirmado que te recusarás a servir na Índia se para lá fores mobilizado. É isto, verdade ou mentira?” “É verdade, meu capitão!” O oficial não se mostrou surpreendido. Mas sorriu. “Se te tomarmos a sério serás preso e julgado em Conselho de Guerra. Mas, o que me parece plausível é que sejas mobilizado, imediatamente, e metido num avião para Goa. Que tal te parece?” Voltou a sorrir. O colega lia o jornal. Parecia longe de tudo aquilo. “O meu capitão desculpe mas a minha objecção é de carácter político”, disse Julião. “Não estou a ver para que vos serve um soldado que não acredita no vosso governo nem na nossa presença colonial em Goa”. O capitão Figueiredo, não podendo conter-se, ia agarrar numa cadeira quando o outro oficial interveio: “Oh, Figueiredo, oh, Figueiredo, tenha calma. Arruma‑se já o homem. Faz‑se a mobilização e pronto! Em quarenta e oito horas está lá”. “Mas é que andamos a defender aquilo que é nosso. Aquilo que, bem vistas as coisas, também é dele. Agora, na Índia, amanhã em Angola e em Moç…». Ia a dizer Moçambique quando o soldado o interrompeu: “A minha parte, nosso capitão, cedo-lha desde já!”. |