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09/05/2006 Livre comércio com os EUA é pago com escravidão Emad Mekay Grandes empresas dos Estados
Unidos, como Wal-Mart, Gloria Vanderbilt, Target, Kohl’s,Victoria’s Secret e
L.L. Bean, compram roupa de fábricas que escravizam trabalhadores na Jordânia,
advertiu em Nova York o não‑governamental Comité Nacional do Trabalho.
Esta organização, dedicada a defender os direitos dos trabalhadores de todo o
mundo, indica em um estudo que o Acordo de Livre Comércio Estados Unidos‑Jordânia
promove o tráfico humano e a “servidão involuntária”. O programa de Zonas
Industriais Qualificadas, implementado em 1998 como recompensa à Jordânia
pelo seu acordo de paz com Israel, dá acesso ao mercado norte-americano,
livre de tarifas e cotas, a produtos jordanianos com menos de 8% de
componentes israelenses. Tanto os Estados Unidos quanto Israel procuram
replicar este modelo em acordos comerciais com outros países árabes, no
contexto do plano do presidente George W. Bush para criar uma Área de Livre Comércio
do Oriente Médio (MEFTA, sigla em inglês). Essa iniciativa, de destino
incerto, vincularia 22 Estados árabes com os Estados Unidos e Israel num
acordo comercial para 2013. Vários líderes parlamentares
dos Estados Unidos insistiram em que o modelo se aplique com todos os países
árabes que procurarem um acordo de livre comércio com Washington. O governo
do Egipto já subscreveu o modelo de Zonas Industriais Qualificadas em um
acordo de 2004 que cria essas zonas nas cidades do Cairo e Alexandria e nos
seus arredores, bem como do Canal de Suez. O acordo aumentou a renda da
indústria jordaniana. O vestuário exportado por esse país que entra nos
Estados Unidos livre de impostos aumentou 2000% entre 2000 e 2005, chegando a
1,1 mil milhões de dólares. Os autores do informe concentram‑se
nas condições de trabalho de estrangeiros empregados como “trabalhadores
convidados”. O auge industrial, advertiu o Comité, foi conseguido às custas
de um enorme custo humano, com numerosos abusos e condições trabalhistas
miseráveis. O estudo, de 168 páginas, diz que a maioria dos trabalhadores
convidados procede de Bangladesh, Sri Lanka, China, Índia e outros países e
têm problemas de comunicação, já que não falam árabe. O texto também detalha
um contexto de baixos salários, abusos físicos – inclusive violações sexuais
– e virtual detenção dos operários. «Os parques industriais fechados estão em
condições que só podem ser descritas como de constante isolamento», diz. Na fábrica Al Shahaed, que
produz para a rede Wal-Mart, principal cadeia comercial retalhista dos
Estados Unidos, foram registradas jornadas de 24, 38 e até 72 horas de
trabalho, segundo o documento. Os empregados receberam um salário médio de
dois centavos de dólar por hora e muitos também receberam bofetadas, chutos,
socos e golpes com paus e cinturões. Numa fábrica chamada Al Safa, onde os
trabalhadores costuram peças para as marcas Gloria Vanderlbilt, Target e
Kohl’s, uma mulher bengalesa de 20 anos enforcou‑se após ter sido
violada por um gerente. Nesse mesmo local de trabalho, 10 a 12 pessoas amontoam‑se
num quarto de pouco mais de 3x4 metros. São obrigados a dormir no chão, não
há mesas nem cadeiras, segundo o informe. A investigação mostra que os
comerciantes norte-americanos ainda desempenham importante papel na indústria
jordaniana do vestuário, no contexto do acordo comercial Estados
Unidos-Israel. Wal-Mart, por exemplo, importa roupas da Athletic Works feitas
na Jordânia por US$ 3,4 milhões por mês. «Por trás das pechinchas do Wal-Mart
estão as mercadorias baratas fabricadas por milhares de trabalhadores
mantidos em condições de forçada servidão, obrigados a trabalhar cem horas
por semana enquanto se despoja pelo menos a metade dos salários que lhes
correspondem legalmente», denuncia o relatório. «O uso de mão‑de‑obra
escravizada na Jordânia complementa‑se com os tecidos baratos da
China. Este é o segredo dos baixos preços da rede Wal-Mart», ressalta o
informe. Beth Keck, porta-voz da
Wal-Mart, disse à IPS que a empresa investiga as acusações e que se ficar
provado que os seus fornecedores realizam essas práticas irá cortar relações
comerciais com eles. «Quando sabemos de assuntos que envolvem os nossos
fornecedores somos activos e trabalhamos com eles para ver os progressos
obtidos», acrescentou. A IPS contactou encarregados de imprensa da Target e
da Kohl’s, duas empresas mencionadas no documento, mas não estavam
disponíveis para dar declarações. A Jordânia, pequeno Estado de
5,7 milhões de habitantes e governado pela dinastia hachemita, apoiada pelos
Estados Unidos, integrou‑se na Organização Mundial do Comércio em Abril
de 2000. Como muitos outros países em desenvolvimento, antes de concretizar a
sua adesão teve de aprovar leis para reforçar a protecção dos direitos de
propriedade intelectual e marcas registradas, demanda-chave dos Estados
Unidos e da União Europeia, que procuram maximizar os benefícios das suas corporações
internas. Entretanto, a Jordânia não teve de demonstrar maiores protecções
aos direitos dos trabalhadores nem o seu compromisso para melhorar as
condições de trabalho. Organizações da sociedade
civil lamentam que os tratados de livre comércio no contexto da OMC ou em
acordos bilaterais tendam a prejudicar o meio ambiente, os direitos laborais
e as condições sociais, enquanto estimulam a renda das corporações e dos seus
sócios locais nos países do Sul. Se o modelo jordaniano for repetido em
semelhantes tratados comerciais, poderá desestabilizar ainda mais o Médio Oriente,
onde os jovens da região lançam faíscas de raiva e frustração pelo apoio dos
Estados Unidos a ditadores e oligarcas governantes, bem com a Israel. O Acordo de Livre Comércio Estados Unidos-Jordânia entrou em vigor em Dezembro de 2001, convertendo a Jordânia no quarto país a ter um acordo desse tipo com Washington. Além da Jordânia no Médio Oriente, segundo o site do representante de Comércio norte-americano, agora os Estados Unidos têm tratados com Israel e Marrocos. Um acordo com o pequeno, mas rico, Estado de Bahrein entrará em vigor ainda este ano, enquanto um outro com Omã foi concluído em Setembro de 2005. E actualmente está em negociação um com os Emirados Árabes Unidos. |