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11/05/2006 Carta ao Rei dos Belgas sobre... o nosso Hitler particular Senhor, Viu, como eu, ontem à noite no Arte o notável documentário Le roi blanc, le caoutchouc rouge, la mort noire [O rei branco, o caucho vermelho, a morte negra]? Também ficou horrorizado ao ver esses sofrimentos terríveis infligidos à população do Congo pelo rei Leopoldo II entre 1885 e 1908? Essas crianças às quais se cortava a mão quando não traziam suficiente caucho! Esses homens aos quais se tomavam as mulheres como reféns para que produzissem mais! Essas aldeias inteiras que se queimavam para semear o terror! Essas torturas sádicas! Também tremeu ao ouvir o historiador M’bokolo explicar que este genocídio tinha feito cair a população do Congo de vinte milhões para dez milhões? Não é que o nos contavam na escola, não é? Falavam-nos de um “grande soberano visionário e construtor”! Enquanto construiu uma mais maiores fortunas do mundo, à custa de torturas, de massacres e de mentiras! Bruxelas, a sua e a minha cidade, abunda de estátuas e monumentos à glória deste “grande rei”. É incómodo. É como se Berlim arvorasse orgulhosamente estátuas de Hitler. Pois, se nos colocarmos do ponto de vista dos negros, Leopoldo II, foi efectivamente o nosso Hitler, não é? Brancos ou negros, as vítimas têm o mesmo valor. Que tenciona fazer, Senhor? Certamente, ninguém é responsável pelos actos do seu antepassado tio‑avô. Mas enfim, se é verdade que a fortuna da família real belga tem por origem um genocídio, isso deve incomodá‑lo terrivelmente! Então, eis duas sugestões... Fala-se muito nestes tempos, e com razão, do dever de memória. Visita-se Auschwitz, e está muito bem. Mas enfim, não seria ainda mais meritório ocuparmo-nos do nosso Hitler particular? Não proponho retirar essas estátuas chocantes. Seria mais educativo acompanhá-las de algumas placas explicando o que realmente se passou. E criar um museu do genocídio congolês que as escolas poderiam visitar. Poderia também, não sei, pedir perdão? Não pessoalmente claro, mas para mostrar que não quer ser cúmplice desses crimes. E depois também, para não ficar apenas nos símbolos, não poderia ajudar a reparar? Como sabe, as maiores fortunas da Bélgica construíram-se pilhando o Congo. Existe um excelente livro, Et l’Europe sous-développa l’Afrique [E a Europa subdesenvolveu a África] onde o professor Walter Rodney mostra, com o apoio de factos e números, como o colonialismo bloqueou o desenvolvimento deste continente. (Este livro é já antigo e sem dúvida esgotado. Se não o encontrar, chame‑me, emprestar‑lho-ei de boa vontade). Por conseguinte, se o seu tio‑avô roubou tanto, estará certamente de acordo que é justo restituir. Dará assim um bonito exemplo às várias grandes sociedades belgas. É importante para o povo do Congo. Debate-se numa miséria tremenda porque foi roubado. E, como sabe, porque a pilhagem continua hoje. Sob formas mais camufladas mas mais eficazes ainda. É também importante para nós na Bélgica. Diz-se que está muito preocupado com a subida dos nossos partidos fascistas e racistas. Tem aí um excelente meio de a eles se opor. Dado que não cessam de apresentar os refugiados negros como “aproveitadores” que nos vêm tirar o nosso bem-estar, não é o melhor colocado para lhes cortar a relva sob os pés? Mostrando que os povos negros não são aproveitadores, mas vítimas. E que o nosso bem-estar (enfim, mais o seu que o nosso) provém largamente desta pilhagem cometida contra os negros. Então, Senhor, digo-lhe bem sinceramente: Reembolse! Reembolse de bom coração, não guarde para si o fruto do genocídio! Assim, poderá olhar os seus filhos e netos olhos nos olhos. E todas as crianças negras. Isso vale mais que uma grande pilha de ouro mal adquirido, não é? Michel Collon PS. Se deseja indicar o seu ponto de vista, encontrará talvez dificuldades. Os meios de comunicação social belgas não gostam em geral de remexer esta lama. Então, não se incomode, envie‑me o seu texto. Difundi‑lo‑ei de boa vontade na minha mailing list. Que apresentará em breve um grande “Dossier Congo”. Até breve, Senhor! |