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15/06/2006 Jorge Cadima Grandes civilizações humanas
floresceram nos vales de dois rios vizinhos, o Tigre e o Eufrates, naquilo
que é hoje território iraquiano. A História regista aquelas terras pelo nome
grego de Mesopotâmia (“Entre‑os‑Rios”). Mas a catástrofe que se
abateu sobre o Iraque dos nossos dias, resultante da ocupação
norte-americana, sugere outro nome de raiz grega: Hemopotâmia – Rios de
Sangue. Hoje, no Iraque, as tropas norte‑americanas matam «todos os
dias». «Esmagam [as pessoas] com os seus veículos, e matam-nas por mera
suspeita», o que é «totalmente inaceitável». Quem pronunciou estas palavras é
insuspeito, em matéria de acusações aos EUA. Trata-se do novo
“primeiro-ministro” do “governo” colaboracionista iraquiano, Nouri al‑Maliki,
citado pelo site na Internet do jornal britânico Telegraph (3.6.06). Em Haditha, uma vila sobre o
Eufrates, tropas dos EUA que acabavam de ser alvo dum engenho explosivo
colocado à beira da estrada entraram pelas casas vizinhas adentro disparando
sobre tudo quanto viam. O resultado: 24 mortos, incluindo numerosas crianças
e mulheres. Passou-se em Novembro, mas foram precisos vários meses para que o
relato de uma das sobreviventes de 9 anos chegasse à comunicação social
ocidental (revista Time, 19.3.06), graças também à existência de um vídeo
amador filmado logo após o massacre. Haditha está longe de ser um caso
isolado. O grande massacre na cidade de Fallujah, onde foram usadas armas de
destruição em massa, como o fósforo branco, está documentado (filme da
RaiNews24, disponível em http://www.rainews24.rai.it/ran24/inchiesta/body.asp).
Como sempre, o interesse da comunicação social ocidental pelo massacre de
Haditha teve vida curta. Providencialmente, a misteriosa personagem da
propaganda norte‑americana que dá pelo nome de al-Zarqawi ter-se-á
deixado abater nesta altura oportuna. E Haditha deixou as páginas dos
jornais. Recentemente, um parlamentar
dos EUA, Dennis Kucinich, tomou a palavra na Câmara dos Representantes para
ler o texto de uma carta que dirigiu ao Ministro da Defesa, Donald Rumsfeld.
Nessa carta (disponível no site http://www.kucinich.us)
o Congressista solicita «uma cópia de todos os registos relativos à
utilização de Forças Especiais dos EUA no aconselhamento, apoio e treino de
esquadrões iraquianos de assassinatos e raptos». Kucinich lembra que «em 8 de
Janeiro de 2005, a revista Newsweek publicou um artigo informando que
o Pentágono tinha uma proposta para treinar esquadrões de elite iraquianos
[…]. A proposta foi designada ‘a opção Salvador’, em referência aos programas
de auxílio militar dos EUA […] que financiaram e apoiaram forças
paramilitares ‘nacionalistas’ que davam caça e assassinavam dirigentes
rebeldes e os seus apoiantes em El Salvador». E prossegue o deputado:
«existem indicações crescentes que sugerem que os EUA realmente financiam e
treinam esquadrões iraquianos de assassinatos e raptos e que tais esquadrões
estão a agir. Sabemos que alguns dos peritos do Pentágono sobre o Iraque
estiveram envolvidos no programa paramilitar do governo Reagan em El Salvador
[…]. Uma onda de raptos e execuções, ao estilo dos esquadrões da morte de El
Salvador, e com ligações a mentores oficiais no Governo [iraquiano] e nos
EUA, está a abater‑se sobre o Iraque». Uma informação a reter para
enquadrar as informações quase diárias de descobertas de cadáveres
decapitados e apresentando sinais de tortura, e outros actos terroristas. Não espanta, pois, a reacção do governo americano ao infame bombardeamento pelo governo israelita das praias de Gaza que, no dia 9 deste mês, matou uma família de sete pessoas, incluindo três crianças, apenas se salvando uma filha de 12 anos que estava a tomar banho no mar: segundo o Jerusalem Post (9.6.06), «o porta‑voz do Departamento de Estado [dos EUA] Sean McCormack afirmou que Israel tem o direito de se defender, particularmente quando está a ser atacado por terroristas». É a “civilização ocidental” em todo o seu esplendor. |