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16/08/2006 André Levy É razoável exigir-se que só
se opte pela intervenção militar quando estiverem esgotadas todas as opções
diplomáticas. Mas a diplomacia, até por exigência do próprio processo, faz-se
muitas vezes por detrás de portas fechadas. Como saber então se os parceiros
estão a negociar de boa fé? Como pode a opinião pública avaliar se a
diplomacia foi de facto esgotada? Quando por vezes os esforços diplomáticos
são divulgadas, a comunicação social nem sempre detalha em pormenor as
propostas em cima da mesa, ou retrata apropriadamente os acontecimentos que
precedem as negociações. Mas o Deus e o Diabo estão nos detalhes. Temos
assistido a inúmeros casos em que os EUA têm declarado o falhanço da via
diplomática, quando na verdade trabalharam para a subverter, sempre com a
preocupação porém de criar a ideia que esforços foram desenvolvidos da sua
parte, mas recusados por parte do opositor. Veja-se o recente exemplo
durante a crise no Líbano. O Hezbollah sequestrou 2 soldados israelitas a 12
de Julho, com o objectivo, explicitado de imediato, de negociar a sua troca
por prisioneiros libaneses. Israel negou‑se a fazer qualquer troca,
afirmando que com terroristas não se pode negociar, e ripostou militarmente
em peso. Importava recordar que Israel não só já havia negociado com
organizações que considera terroristas, como inclusivamente já o havia feito
com o Hezbollah, tendo realizado em 2004 uma troca de centenas de
prisioneiros libaneses e palestinos pelos corpos de 3 soldados israelitas [1].
Após o irromper do conflito armado, a Secretária de Estado dos EUA,
Condoleeza Rice, afirmava-se firmemente por um cessar-fogo, assim que
possível, quando as condições estivessem reunidas [2], isto é, depois de
destruída a infra‑estrutura libanesa, enfraquecido o Hezbollah (ou
assim pensavam), e posicionadas tropas israelitas no sul do Líbano.
Diplomacia à lei da bala. Intimamente associado ao
conflito no Líbano está o relacionamento dos EUA (e Israel) com o Irão, que
os EUA têm vindo a alegar possuir planos de produção de armas nucleares.
Neste contexto, tem sido praticamente irrelevante não serem apresentadas
corroborações de tal alegação: o Director Geral da Agência Internacional de
Energia Atómica, Mohamed El Baradei, reafirmou em Abril deste ano que não
existem evidências de que o Irão esteja a desviar material nuclear para fins
bélicos [3]. Sobre o Presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, tem-se desenhado
uma caricatura de pessoa perigosa e incapaz de negociar, que nega o
Holocausto e proclama querer destruir Israel (embora uma leitura atenta dos
seus discursos torne claro que tais caracterizações são exageros enviesados
[4]). Com o terreno já calcado, o porta-voz do Departamento de Estado do EUA,
Sean McCormack, pôde afirmar que «nada indica que os iranianos estejam
dispostos a entrar num processo diplomático sério» sobre o assunto nuclear [5]. Como entender então que o
Irão tenha tido um papel positivo na Conferência de Bona em finais de 2001,
onde se discutiu o futuro do Afeganistão pós-Taliban, incluindo limitar as
exigências de lugares ministeriais da Aliança do Norte? Como agradeceram os
EUA? Incluindo o Irão no Eixo do Mal, no discurso do Estado da Nação. Apesar
disso, o Irão continuou a lançar a mão diplomática, colaborando na luta
contra o terrorismo e a Al Qaeda. A pedido dos EUA enviou tropas para vigiar
a fronteira com o Afeganistão para evitar a fuga de elementos da Al Qaeda; e
suspendeu os vistos de alguns dos seus elementos que teriam entrado no Irão.
Ainda em 2002, apoiou a iniciativa Árabe pôr fim ao conflito com Israel, um
considerável afastamento da sua recusa em reconhecer o estado judaico, sob a
condição de Israel cumprir as resoluções 242 e 338 do Conselho de Segurança
das Nações Unidas. Mas a persistência de uma atitude agressiva por parte dos
EUA, apesar da boa vontade demonstrada, levou o Líder Supremo Ayatollah Ali
Khamenei a denunciar negociações com os EUA como inglórias. Em 2003, porém, deu-se a
ocupação estadunidense do Iraque. O Irão viu-se com três trunfos para
conversações diplomáticas: a sua influência sobre os grupos xiitas no Iraque;
os elementos da Al Qaeda detidos no Irão, que os EUA desejavam interrogar; e
as preocupações dos EUA com o programa nuclear iraniano. Enviou então uma
proposta de conversações onde oferecia concessões no seu programa nuclear,
reforço da sua acção contra terroristas refugiados no Irão, abertura na sua
relação com Israel, terminar o apoio material aos grupos palestinos (como o
Hamas e a Jihad Islâmica) encorajando-os a porem fim à acção violenta, e
pressionar o Hezbollah a tornar-se apenas numa organização política. O Presidente
Bush, o Vice-presidente Dick Cheney, o Secretário de Defesa Donald Rumsfeld e
o então Secretário de Estado Collin Powell decidiram ignorar a proposta.
Mais, na ausência de provas Rumsfeld alegou que o ataque terrorista em Riade,
em Maio de 2003, havia sido cometido por elementos da Al Qaeda provindos do
Irão, e implicaram uma cumplicidade entre o Irão e a Al Qaeda. Rumsfeld
cancelou então um encontro com representes do Irão e fechou as portas
diplomáticas. Mas no Outono desse ano, Richard Armitage, sub-secretário de
estado, afirmava ao Congresso que os EUA estavam dispostos a dialogar, mas
apenas quando o Irão concordasse em partilhar inteligência sobre a Al Qaeda (!).
O Irão iniciou então diálogo com a Grã-Bretanha, França e Alemanha, mas a
relutância dos EUA em negociar impedia chegar-se a um acordo [6]. Um processo semelhante
sucedeu no tratamento da Síria pelos EUA. No seguimento dos ataques do onze
de Setembro, a Síria disponibilizou milhares de ficheiros de inteligência
sobre a Al Qaeda aos EUA, tornando‑se uma das principais fontes de
informação dos EUA sobre a organização. Na altura, mostrou-se também aberta a
conversar sobre o seu apoio ao Hezbollah [7]. Embora a Síria não tenha sido
incluída na versão final do Eixo do Mal, era considerada como tal pelos neoconservadores,
e as vias diplomáticas foram fechadas. Em 2003, Israel estava disposto a
negociar com a Síria, inclusivamente sobre os Montes Golã, mas os EUA
desencorajou-os. Nestes e outros casos (veja-se a habilidade como a Administração Bush destruiu as aberturas criadas por Bill Clinton com a Coreia do Norte), o interesse dos EUA tem sido criar a ilusão de impossibilidade de diplomacia. Conjuntamente com um espectro de ameaça imediata corroborada por fabulações, prepara terreno para eventuais aventuras militares. ______ [1] André Levy, Sessão pública sobre situação no Médio Oriente, Jangada de Pedra, 25/07/2006. [2] Rice: ceasefire depends on conducive conditions, Reuters, 18/07/2006. [3] IAEA chief finds no early evidence
of iranian weapons program, PBS, 13/04/2006. [4] André Levy, Escalada contra o Irão, Jangada de Pedra, 25/04/2006. [5] Powers split over Iran talks bid, BBC, 18/01/2006. [6] Gareth Porter, Burnt
Offering: How a 2003 secret overture from Tehran might have led to a deal on
Iran’s nuclear capacity – if the Bush administration hadn’t rebuffed it,
The American prospect, 06/06/2006. [7] Seymour
Hersh: U.S. helped plan israeli Aattack, Cheney "convinced" assault
on Lebanon could serve as prelude to preemptive attack on Iran, Democracy
Now!, 14/08/2006. |