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24/09/2006 – Entrevista a Hugo Chávez Frías – Tim
Padgett – Porque é que ataca o
presidente George W. Bush com uma linguagem tão áspera? Acredito que as palavras têm
grande peso, e quero que as pessoas saibam exactamente o que quero dizer. Não
estou a atacar o presidente Bush; estou simplesmente a contra-atacar. Bush
tem estado a atacar o mundo, e não só com palavras – com bombas. Quando digo
estas coisas, acredito que estou a falar para muitas pessoas, porque elas
também acreditam que este momento é a nossa oportunidade de deter a ameaça de
um império estadunidense que usa a ONU para justificar a sua agressão contra
metade do mundo. No discurso de Bush à ONU, ele soou como se quisesse ser o
dono do mundo. Mudei o meu discurso original depois de ler o dele. – Mas a sua retórica – referindo-se
a Bush, por exemplo, como um «alcoólico» – não se arrisca a afastar
potenciais aliados? Em primeiro lugar, Bush
chamou-me pior: tirano, ditador populista, traficante de drogas, só para nomear
alguns qualificativos. Eu estava simplesmente a dizer uma verdade que as pessoas
deviam saber acerca deste presidente, um homem com um poder gigantesco. – Isso tudo não é
principalmente para consumo doméstico na Venezuela? Não. O autor americano Noam
Chomsky, no seu livro [Hegemonia ou Sobrevivência: A Estratégia
Imperialista dos Estados Unidos] fala de dois superpoderes nos dias de
hoje – um é os Estados Unidos, que querem agressivamente dominar o mundo, e o
outro é a opinião pública mundial. Não considero o que digo ataques pessoais
ao presidente Bush – quero despertar a opinião pública estadunidense e
mundial em relação a ele. – Os seus sentimentos
sobre Bush reflectem o que pensa sobre a América em geral? Não. Reverencio a América
como a nação de Abraham Lincoln, Martin Luther King e Mark Twain – que foi um
grande anti-imperialista, que se opôs ao aventureirismo dos EUA na guerra
hispano-americana. – Fala muitas vezes da
ligação entre a política externa dos EUA e o seu apetite por petróleo. Bush quer o petróleo do
Iraque, e eu acredito que ele quer o petróleo da Venezuela. A culpa dos altos
preços do petróleo reside no modelo de consumo dos EUA. O seu consumo negligente
de petróleo é uma forma de suicídio. – Disse recentemente que
acredita que a «Doutrina de Bolívar está finalmente a substituir a Doutrina
Monroe». Porquê? Durante dois séculos, vivemos
neste hemisfério um confronto entre duas teses – a Doutrina Monroe da América,
que diz que os EUA devem exercer a sua hegemonia sobre todas as outras repúblicas,
e a doutrina de Simón Bolívar, que tinha como objectivo uma grande república
Sul-americana como contrabalança. Bush espalhou a tese Monroe globalmente,
para tornar os EUA a polícia do mundo – se não estás connosco, diz ele, estás
contra nós. Nós agora estamos simplesmente a fazer o mesmo com a tese de
Bolívar – uma doutrina de mais igualdade e autonomia entre as nações, mais
equilíbrio de poderes. – Qual é
a diferença entre o seu “socialismo para o século XXI” e anteriores
tentativas para resolver a desigualdade económica da região? Quando fui libertado da
prisão [em 1994] e iniciei a minha vida política, tomei ingenuamente como
ponto de referência a proposta de Tony Blair de uma “terceira via” entre o
capitalismo e o socialismo – um capitalismo com rosto humano. Agora já não.
Depois de ver o fracasso das reformas capitalistas apoiadas por Washington na
América Latina, já não penso que uma terceira via seja possível. O
capitalismo é o caminho do demónio e da exploração, do tipo de miséria e
desigualdade que destrói os valores sociais. Se realmente olharmos para as
coisas através do olhar de Jesus Cristo – que penso ter sido o primeiro
socialista – só o socialismo pode realmente criar uma sociedade genuína. – No entanto, um dos
slogans da sua campanha de reeleição é «Contra Chávez, Contra o Povo». O
senhor também parece ter assumido uma postura do tipo “comigo ou contra mim”. A diferença é ética e moral.
Não ameaçamos ninguém. Esse slogan é simplesmente um apelo a uma reflexão
consciente sobre a unidade nacional. Não vamos impô-la bombardeando ou
invadindo alguém. – Os críticos observaram
que enquanto o senhor teve liberdade para zurzir no presidente Bush em solo estadunidense,
uma nova lei sobre difamação na Venezuela torna as pessoas sujeitas a
processos criminais por calúnia contra membros do governo como o senhor. Eles precisam de visitar a
Venezuela. Se pensa que Chávez está a intimidar a liberdade de expressão,
simplesmente veja a televisão lá – meu Deus, diabo é a menor das coisas que
se permite à oposição chamar‑me no ar. – Poderia a Venezuela desempenhar
um papel interlocutor entre o Irão e os EUA? O senhor e o presidente Bush têm
algumas coisas em comum – ambos vêm de um país de vaqueiros e gostam dos
filmes de Clint Eastwood. Prefiro os filmes do Danny
Glover. Mas não acredito que haja alguém que possa agir como interlocutor com
um líder que se considera o dono do mundo, como Bush. Antes da tentativa de
golpe de 2002 contra mim – que Bush apoiou – vários presidentes em todo o
mundo tentaram ser interlocutores entre Bush e Chávez. Eu disse: claro,
mandem-lhe por favor os meus cumprimentos. Mas descobriram que é uma perda de
tempo com este presidente dos EUA. Podia falar com Clinton, mas não com Bush. |