Informação Alternativa

Mundo

13/10/2006

 

Que asco!

 

Koldo

Rebelión

 

Suspeito que a crónica diária dispõe, no seu amplo inventário de vergonhas, notáveis exemplos, qualquer deles mais dramático do que o que hoje me ocupa, mas nenhum mais canalha.

 

No passado dia 5 de Junho, Dia Mundial do Meio ambiente, teve lugar no Palácio das Nações de Argel a cerimónia de entrega de prémios aos ganhadores do XV Concurso Internacional Infantil sobre Meio Ambiente, concurso auspiciado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

 

Entre as crianças ganhadoras encontrava-se Raysel Sosa Rojas, um menino cubano que sofre de hemofilia, que tinha resultado ganhador regional da América Latina e Caribe.

 

 

Além do próprio presidente argelino Abdelazid Bouteflika e dos representantes do PNUMA, também assistiram ao acto representantes da Bayer, da Fundação pela Paz Global do Japão, co­‑patrocinadora do concurso, e da firma japonesa Nikon, incluindo o presidente desta companhia.

 

A todos os meninas e meninos ganhadores foram entregues as correspondentes placas de reconhecimento, uma camisola, materiais de desenho e uma câmara fotográfica digital Nikon. A todos... menos a Raysel Sosa, o menino cubano que, surpreendido, observou como ele era o único a quem não se entregava a câmara.

 

– Profe, e a minha câmara? Por que todos os meninos têm a câmara e a mim não me deram nenhuma? O meu prémio não é igual ao dos outros? – perguntou o menino cubano ao seu professor e acompanhante, Jorge Jorge González.

 

Quando Jorge González, igualmente surpreendido, começou a indagar porque é que não havia câmara para Raysel, além das toscas desculpas da representante das Nações Unidas, a senhora Sorba, teve que ouvir do representante na Argélia da firma Nikon, Ideo Fujica, que devido ao bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba, não lhe podiam entregar a câmara, já que esta tinha componentes estadunidenses.

 

Nessa altura já se tinha envolvido no conflito o próprio embaixador cubano na Argélia denunciando a aplicação extraterritorial das leis de um Estado noutro, além da infinita baixeza que implicava deixar o menino cubano sem o seu bem ganhado prémio, comprometendo­‑se, finalmente, Ideo Mujica a comprar a Raysel, ainda que fosse do seu bolso, uma câmara para o menino que compensasse o atropelo e que lha faria chegar através do escritório do PNUMA no México.

 

Um dia mais tarde, o menino cubano e o seu professor, a ponto de tomar o avião de regresso, ainda esperavam no hotel argelino que o PNUMA lhes fizesse a entrega do “dinheiro de bolso” prometido para gastos (300 dólares) e que só pela intervenção do embaixador cubano puderam cobrar.

 

Raysel Sosa levou da Argélia de volta à sua escola de Havana a solidariedade das outras crianças, dos seus acompanhantes e familiares, incluindo a mãe do menino estadunidense ganhador na sua região, todos consternados pelo sucedido.

 

O que, quatro meses mais tarde, Raysel ainda não recebeu, é a câmara prometida, a mesma que outras crianças sim obtiveram, essa câmara com a qual Raysel não vai ter necessidade de reter tão dolorosa experiência porque, da pior maneira e nos seus poucos anos, já tem presa na sua memória, para que nunca mais o esqueça, que ruim e miserável pode ser o ódio.

 

PS: Incluo o correio electrónico do professor cubano e do centro escolar, no caso de alguém se animar a fazer chegar a Raysel a sua solidariedade e uma câmara que não seja Nikon. Jorge2@giron.sld.cu e coloreandomibarrio@gmail.com

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