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20/11/2006
Na Turquia, publicar uma crítica contra as instituições do Estado pode levar à prisão – Entrevista a Fatih Tas e Taylan Dogan, editores de Noam Chomsky na Turquia – José Daniel
Fierro Em Julho deste ano, o
Ministério Público de Istambul decidiu processar o director da Aram
Yayincilik, dois dos seus editores e um
tradutor, por publicar uma nova tradução para o turco de Manufacturing
Consent dos intelectuais estadunidenses Noam
Chomsky e Edward S. Herman. O julgamento encontra-se adiado até ao próximo
dia 20 de Dezembro. Não é o primeiro enfrentado
por esta editora, e tendo em conta as denúncias que acumula também não será o
último. Fatih Tas, director e proprietário da Aram, tem 22 casos pendentes com a justiça do seu país
e não parece que isso o vá a dissuadir de continuar a publicar autores
politicamente incorrectos na Turquia. Anteriormente foi condenado a 6 meses
de prisão pela publicação de um trabalho do jornalista curdo Nazim Babaoglu,
sequestrado e assassinado em 1994 por um grupo paramilitar. Agora espera a
sentença do julgamento que se seguiu à edição de Spoils of War de John Tirman, especialista em Relações
Internacionais no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). Em 2002, teve lugar outro
julgamento contra a editora por traduzir e publicar em turco uma colecção de
ensaios e conferências de Noam Chomsky. Naquela ocasião, o intelectual
norte-americano viajou até à Turquia, apresentou-se perante o Tribunal e
pediu para ser processado juntamente com o seu editor. Perante o eco mediático
que isso teria podido originar, e para evitar desse modo um elemento de propaganda
sobre a situação do Curdistão, o procurador decidiu retirar as acusações e
ambos foram absolvidos. Parafraseando Ángel
Samblancat, na Turquia não se publica impunemente. E assim explicitaram a Rebelión
Fatih Tas e o editor Taylan Dogan. – Qual é a situação actual na Turquia relativamente à
liberdade de expressão? Desde o golpe de estado
em 1980, o controle das liberdades foi-se tornando cada vez mais opressivo. A
primeira lei antiterrorista de 1991, o seu endurecimento depois do 11 de Setembro
de 2001, a reforma do código penal em 2005 e a aprovação da nova lei contra o
terrorismo em Junho deste ano, foram as principais etapas de um processo de
mudanças cujo objectivo é legalizar a repressão contra qualquer tipo de
oposição. Apesar das modificações
de diversos artigos, tanto na lei antiterrorista como no código penal, o
espírito dos mesmos permaneceu invariável. 6 ou 7 deles são os habitualmente
usados para tratar de silenciar meios de comunicação, editoras, escritores ou
jornalistas. O artigo 301 do novo Código Penal, aprovado em Maio de 2005, e
que substituiu o 159 do código anterior, continua a qualificar como delito denegrir
a identidade turca ou os fundamentos e instituições do Estado, outorgando aos
procuradores ampla margem para empreenderem acções legais a esse respeito.
Uma sentença de culpabilidade pode implicar uma pena de prisão de até três
anos. O artigo 7 da lei antiterrorista persegue qualquer publicação que se
considere realize a apologia do “terrorismo” ou dos grupos que o praticam. O
que na prática significa a criminalização de qualquer meio de comunicação que
trate o tema curdo. O 312 qualifica como delito a «incitação ao ódio e à
inimizade por motivos de classe, de raça ou de diferenças regionais». O 216,
que é o que se está a aplicar no presente julgamento contra o livro de
Chomsky, castiga por «insultar o sentido nacional». O 220/8 (antigo 169) está
pensado contra os meios de comunicação que tratem de ajudar ou secundar uma
organização criminosa, que façam propaganda desta ou dos seus objectivos. Apesar da propaganda do
governo e dass recomendações da União Europeia (UE), a verdade é que as novas
leis são cada vez mais restritivas. O exemplo mais recente aconteceu na passada
quinta-feira [1] com o encerramento por 15 dias do jornal curdo Ozgur
Gündem. – Como pensam que se resolverá o actual processo
judicial em que estão imersos? Segundo a lei, existe a
possibilidade de uma condenação, mas isso dependerá da nossa capacidade de
mobilizar a sociedade turca e também de obter apoio internacional. Iniciámos
uma campanha na Internet para explicar a situação e recolher assinaturas contra
o processo. Também procuramos que esta informação ultrapasse as nossas
fronteiras para pressionar mais fortemente o governo. A Turquia não é um país
democrático, e estes julgamentos são claramente de carácter político. O
governo sabe que dependendo do veredicto que se adopte assim será a resposta
da UE, que está muito atenta a este tipo de processos. Não é fácil adivinhar qual
será o resultado segundo critérios legais, o que é indubitável é que haverá
consequências políticas. – Como se está a desenvolver esta campanha de apoio? Contamos com uma página web onde se encontram
diversos documentos, um comunicado de Noam Chomsky e uma petição dirigida ao
parlamento turco que até ao momento foi assinada por cerca de 1.200 pessoas,
entre elas os intelectuais estadunidenses Michael Albert e David Barsamian. Pensamos que não há
muitas possibilidades de condenação neste processo. Este é um caso muito
visível, o nome de Noam Chomsky é reconhecido internacionalmente, e isso pode
ajudar a que finalmente a sentença seja absolutória. Infelizmente, existem muitos
outros julgamentos em que essa falta de repercussão mediática pode acarretar
uma sentença negativa. A questão é que não estamos a ser julgados por
critérios legais, mas por questões políticas. Por exemplo, no caso do
livro de Nazim Babaoglu – jornalista curdo sequestrado e assassinado em 1994
por um grupo paramilitar – a sentença foi de 6 meses de prisão, embora actualmente
se encontre em recurso e pendente de revisão. O livro critica a actuação das
forças paramilitares e os seus vínculos com o Estado. De modo que, como
existe uma proibição de publicar qualquer tipo de crítica às instituições do
Estado, os magistrados escudam‑se nisso para emitir o seu veredicto.
Eles não se põem a valorizar se o que foi publicado é verdadeiro ou se
existem provas para o afirmar. E isso é justamente o que nós procuramos
fazer, que se procure valorizar a verdade ou a falsidade do que se diz. – O governo fala de uma modificação do artigo 301... Mas as mudanças
possíveis não são significativas. O que se propõe é a mudança de uma palavra
que não afecta em nada o conteúdo nem o sentido da lei. O que pretende é
substituir “identidade turca”, por “nação turca”. – O que implica este acosso a uma pequena editora? Evidentemente, a editora
encontra-se numa situação económica muito difícil. Mas tratamos de aproveitar
esta “publicidade” para aumentar as nossas vendas. Felizmente, estas
denúncias não influíram negativamente nem entre os distribuidores dos nossos
livros, nem entre os livreiros que os vendem. Os trabalhadores da editora
também passam por dificuldades, mas colaboram, inclusive deixando de cobrar o
seu salário nas ocasiões em que economicamente estiveram muito complicadas. Como as leis foram
mudando, fomos aproveitando os resquícios legais para ir esquivando as
numerosas denúncias existentes contra nós. Mas encontramo-nos intimidados e
ameaçados. Embora actualmente não
haja ninguém na prisão por este tipo de delitos, a verdade é que isso se deve
mais à pressão da UE, do que ao respeito pelos direitos humanos, embora seja esse
o modo como o governo o apresenta à opinião pública. Pela mesma razão,
enquanto dantes a polícia recolhia os livros das lojas quando se interpunha
uma denúncia, agora só se chega a esse extremo se existe uma condenação firme. A editora tem quase 10
anos de vida, mas foi em 2001 que Fatih se encarregou dela. A partir desse
momento, a linha editorial adoptada fez com que se fossem sucedendo os casos
um atrás doutro.. _____ [1] Na quinta-feira, 16
de Novembro, um tribunal suspendeu a publicação do jornal Ozgur Gündem durante 15 dias. Embora este meio de comunicação
já tenha sofrido igual condenação há uns meses, a decisão foi objecto de
recurso e, posteriormente, suspensa. Agora foi acusado de fazer apologia da
violência e do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado uma
organização “terrorista”. Entre os artigos que motivaram a suspensão do
diário encontravam‑se os de Mehmet Agar, líder do Partido do Caminho
Verdadeiro (DYP), de direita, que pedia ao governo a abertura de um diálogo
com o PKK e com aqueles que o apoiam para conseguir o abandono das armas e a
sua participação na vida política. |