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30/11/2006
Contrato
(anti)social Anabela Fino A ideia foi apresentada
pelo primeiro-ministro britânico, Blair, e apresentada esta segunda-feira
pelo Diário Económico com o objectivo,
segundo o director do periódico, de «deixar Portugal a pensar». Trata-se, nem
mais nem menos, de implementar um pretenso «contrato social» que estabeleça
uma «relação completamente nova entre o Estado e os cidadãos», de forma a
definir o mais exaustivamente possível as responsabilidades do cidadão para além
de «pagar impostos e cumprir a lei». Do cumprimento da sua
parte do “contrato” dependerá o acesso de cada indivíduo aos serviços básicos
de qualidade, como a assistência médica, a educação e a protecção policial. Blair ilustra esta
ideia peregrina com um exemplo: um hospital público poderá exigir, antes de
colocar uma banda gástrica a um doente sofrendo de obesidade, que o paciente
se comprometa por escrito a não voltar a ganhar peso, sob pena de perder no
futuro o direito a cuidados de saúde. A menos que se trate de
uma brincadeira de mau gosto de Blair, o que não é crível, o referido “contrato
social” – que o DE considera como
sendo «uma evolução, muito interessante, da lógica inicial do welfare
to work (assistência social)» – representa
mais um brutal atentado a elementares princípios de uma sociedade civilizada. A ser implementado,
este “contrato social” consagraria não só o primado do governo policial como
liquidaria o próprio conceito de Estado enquanto entidade colectiva e
solidária. Na prática, trata-se de defender a criação de um corpo de
vigilantes, dotado de plenos poderes, que para além de fazer as leis e cobrar
os impostos decide o que cada cidadão tem de fazer para usufruir do “direito”
de pertencer à comunidade. O que está em causa não
é a exequibilidade de um tal «contrato», como referem alguns comentadores ao DE, mas o facto de ter sido enunciado na Grã-Bretanha
e de haver entre nós quem considere a ideia digna de reflexão. Com semelhante “contrato”,
o Estado deixaria de ser o resultado da organização da sociedade como um todo
para se assumir como um corpo estranho, uma entidade prepotente formada pelas
elites dominantes cuja função seria – numa escala infinitamente superior à
que já existe – a de dominar e explorar a população, reduzida à condição de
mão-de-obra acéfala. A diferença em relação a uma sociedade esclavagista
seria um mero acaso. Certamente não por
acaso, o mesmo DE lançou anteontem
novo tema de “reflexão”: a flexisegurança, que é como quem diz o novo
embrulho do governo PS para a liberalização do desemprego. E ainda há quem
não acredite em coincidências! |