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Setembro 2006 Ana Barradas 1º – A ofensiva capitalista neoliberal tem feito recair sobretudo
sobre as mulheres a precarização dos vínculos contratuais, o trabalho clandestino,
a erosão dos direitos laborais, o abaixamento do custo da força de trabalho e
o desemprego. 2º – Por seu lado, o Estado tem vindo a transferir para o trabalho
doméstico e não remunerado das mulheres funções de assistência social que antes
estavam entregues aos serviços públicos. É sobre elas que pesa a principal
carga da redução da intervenção estatal a este nível, pois têm de cuidar a
tempo inteiro dos filhos pequenos, dos deficientes, dos acamados e idosos não
abrangidos pela previdência social. 3º – Os códigos de trabalho neoliberais reforçaram a concepção
conservadora da família e a precarização de direitos das mulheres. As jornadas
múltiplas de trabalho fazem com que a maioria das mulheres trabalhe por dia
mais horas do que os homens, porque acumulam tarefas domésticas e de apoio à
família. Em todo o mundo as mulheres ganham menos que os homens pelas mesmas
funções; e estão sujeitas a todo o tipo de violência sexista: no trabalho, na
rua, em casa. A mulher continua a ser a proletária do homem, a criada para todo
o serviço. Os cuidados prestados pelas mulheres na esfera doméstica
constituem efectivamente um sistema não oficial de saúde e por isso mesmo
deveriam ser introduzidos e valorizados nas políticas sociais. 4º – As mulheres estão limitadas a sectores tradicionais do emprego
feminino e de mão-de-obra mal paga e instável (têxteis, confecções, calçado,
indústrias alimentares, indústria eléctrica e electrónica, hotelaria). Em
momentos de crise, elas são as primeiras a ser despedidas e as últimas a ser
contratadas. A participação das mulheres no mercado de trabalho não tem sido
acompanhada de mais qualidade e valorização no emprego. Acentua-se a
desvalorização do trabalho feminino, aumenta a precarização e a exploração. 5º – A libertação feminina continua a ser uma utopia. E não serão as
actuais organizações feministas a promover essa emancipação, porque as
correntes dominantes não têm orientação revolucionária. Precisamos de um
movimento aberto sem ser promíscuo (que recuse alianças com mulheres de
direita e não subordine as suas tácticas às ambições institucionais de
partidos reformistas), sensato sem perder a ousadia, antipatriarcal sem ser sexista
ou antimasculino, subordinando todo o seu programa às necessidades das mais
exploradas e não da elite, preocupado em gerar novas ideias e uma nova
audácia da parte das oprimidas. 6º – As principais causas de género que estão por resolver são o
direito a salário igual para trabalho igual, o direito à descriminalização do
aborto, a denúncia da violência conjugal, familiar ou social contra a mulher.
A estas há que contrapor a luta pela igualdade em casa, no trabalho, na
sociedade e na política e a recusa das mulheres a substituir-se aos serviços
estatais de segurança social e assistência na doença, contrapondo-lhe a
socialização das tarefas domésticas e dos cuidados infantis e de saúde. 7º – A mobilização das mulheres para estas frentes de luta, em vez de
as “desviar da luta política”, como argumentam activistas imbuídos de
machismo inconsciente, estimularia enormemente a presença das mulheres nas
lutas políticas e sociais mais gerais. 8º – Contudo, só um ascenso do movimento sindical e reivindicativo ou
uma crise social e política aguda poderá suscitar o envolvimento das
trabalhadoras em geral nesta luta. Nesse momento, um maior protagonismo como
cidadãs e lutadoras poderá despertar tal consciência na grande massa das
mulheres. 9º – As mulheres dividem-se por classes, mais do que se identificam
por razões de sexo. Mas não só. A sua situação é mais complexa porque elas
têm uma posição paradoxal e contraditória na luta de classes: são vistas, por
um lado, como mão-de-obra barata pelo capital e, pelo outro, como
concorrentes pelos trabalhadores homens; além de serem assalariadas,
debatem-se com a necessidade de atender também à sua tarefa, executada a
título gratuito, de esposas, mães, repositoras da força de trabalho e
fornecedoras de cuidados infantis e de saúde. 10º – As organizações sindicais ou de classe não têm sabido lidar com
estas quatro contradições (exploração, patriarcalismo, desigualdade e
violência) nem parecem aperceber-se da combinação complexa de papéis e
funções contraditórias que pesam sobre as mulheres. Respondem‑lhe
apelando à organização imediata das exploradas, criam secções femininas nas
suas estruturas, de imediato secundarizadas, e apelam para que se integrem na
luta geral, sem querer saber se existem condições para tal. A burocratização
e colocação em surdina dos “assuntos da mulher” tem servido de alavanca para
a promoção de algumas funcionárias, que agem como representantes do conjunto
de todas as suas companheiras, mas não resolvem um só dos problemas
apontados. 11º – Por seu lado, os partidos de vanguarda também não têm abordado
com a necessária energia a sua responsabilidade em transformar as novas e
velhas realidades do mundo feminino. Fazem por ignorar um fenómeno iniludível,
ao qual não dão resposta: os revolucionários do século XX pensavam que o
ingresso das mulheres no trabalho produziria a sua emancipação social e
política. No entanto, e apesar da relativa independência económica obtida,
não foi isso que se passou. Os valores dominantes que fazem da mulher a
proletária do homem transportaram-se integralmente para a esfera da produção
e reflectem-se em novas desigualdades. 12º – Esta realidade objectiva não pode ser escamoteada com palavras
de consolo que apenas escondem, muitas vezes, uma insensibilidade patriarcal
empedernida. Há que dizer que as desigualdades em relação aos homens se mantêm
e se agravam e que as discriminações ancestrais subsistem. Prossegue a
dominação masculina no local de trabalho, no universo doméstico ou na esfera
pública. 13º – Também não há igualdade na esfera política. A hipocrisia dos
programas oficiais pela igualdade revela‑se a todos os níveis, mesmo
entre os quadros superiores. Nos governos, a maioria dos cargos são ocupados
por homens. Na administração pública, o número de mulheres decresce à medida
que se sobe na hierarquia. Nas empresas, as mulheres, mesmo as mais
qualificadas que os homens, raramente ascendem aos cargos máximos. 14º – Por causa da violência contra a mulher, não lhe estão
assegurados direitos humanos tão fundamentais como o direito à vida, à
integridade pessoal e à dignidade. Mais de metade das esposas foram já
vítimas de violência conjugal – ou seja, uma em cada duas mulheres foi
sujeita a violência física pelo companheiro ou ex‑companheiro. Pior:
morrem por ano milhares de mulheres em consequência de agressões violentas e
de sequelas de maus tratos, fenómeno generalizado que abrange todas as
classes sociais sem excepção e causa mais mortes e incapacidades entre mulheres
do que o cancro, a malária, os acidentes rodoviários ou a guerra. A casa onde
vivem as mulheres é o local mais perigoso para elas, porque é aí que se
regista mais violência. 15º – Pior ainda, a violência começa antes do nascimento: devido a
infanticídio ou aborto selectivo, há no mundo um défice de 200 milhões de
mulheres, segundo estudos da ONU. 16º – Aumentam as famílias monoparentais e a maioria destas são
constituídas por mulheres. São famílias mais pobres, mais disfuncionais e
mais vulneráveis do que as outras e é sobre a mulher que recai toda a
responsabilidade. 17º – A vulnerabilidade das mulheres face à exclusão social e a
fragilidade da rede de apoio social faz com que a feminização da pobreza se
acentue cada vez mais. Neste quadro global, as condições de vida, de trabalho
e de sobrevivência das mulheres do mundo subdesenvolvido são muito mais
precárias e mais difíceis do que as dos países desenvolvidos. 18º – Recusar à mulher o direito de decidir quando ter filhos e
penalizar o aborto é a forma mais brutal de discriminação e um atentado à
liberdade da mulher. Ser mãe não é só um acto físico, é uma empresa que
pressupõe, para a mulher, um empenhamento pessoal e emocional para toda a
vida, condicionando-a de forma indelével. A mulher não é uma parideira ou
incubadora, é o ser humano mais dotado de aptidões naturais e inteligência
para criar e fazer crescer outros seres humanos, como tem sido provado ao
longo de toda a história natural e social da humanidade. 19º – Todas as medidas paliativas postas em prática pelos governos
têm como objectivo interesses capitalistas: elevar a taxa de lucro, diminuir
custos estatais, minimizar a conflitualidade. Os direitos humanos só lhes
interessam se puserem em jogo o direito do capital a uma mão-de-obra
escorreita e em boas condições de exploração. 20º – São precisas grandes mudanças civilizacionais para subverter
esta ordem patriarcal. Só a luta das mulheres pelos seus direitos poderá
conferir à luta geral pela emancipação um cunho feminista e só essa marca
imposta pelas mulheres à luta geral poderá salvar a revolução futura de
soçobrar. 21º – A persistência em todo o mundo de factores de desigualdade e de
discriminação da mulher, enraizados desde há séculos, reforçados e agravados
pela globalização do capitalismo, indica-nos como constatação inevitável que
o caminho que falta fazer é muito longo e não será fácil de percorrer. Os
sinais crescentes de barbárie, visíveis na brutalidade da exploração dos
povos, na selvajaria das recentes guerras do Afeganistão, Iraque e Palestina,
na natureza cada vez mais celerada do imperialismo, vão-se delineando com tal
clareza que é fácil perceber que só poderão ser conjurados por uma vaga
revolucionária geral que tarda em levantar-se. 22º – O caminho que falta percorrer para as mulheres porem a sua
marca própria no levantamento anticapitalista é tão grande, que não se pode
perder tempo. É hoje, agora, que tem que começar a derrocada do sistema
milenar de servidão da mulher. 23º – A organização e luta pelo socialismo deverá ter como eixo, ao
mesmo tempo, a questão de classe e a questão de sexo. Essa evolução requer
investimentos de longo prazo em debate ideológico, formação e outras
actividades práticas que desestabilizem as ideias e atitudes vigentes, além
de exigir o combate a expressões de conservadorismo popular entre as massas. 24º – Caso a revolta dos oprimidos se verifique antes que ocorra uma catástrofe global, há razões para acreditar que a história da humanidade, que tem sido também a história da opressão das mulheres, evolua numa direcção diferente, para um mundo construído sobre o caos deste que urge destruir. Aí, talvez se possa dizer finalmente, como Louis Aragon, que «a mulher é o futuro do homem». |