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28/12/2006 Aurélio Santos Há 150 anos Almeida Garrett no seu livro Viagens na Minha Terra
lançava a seguinte pergunta: «Já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à
miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à ignorância
crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta – para produzir um
rico?» Um estudo da Universidade das Nações Unidas, realizado pelo World
Institute for Development Economics Research, (WIDER) divulgado este mês em
Helsínquia, dá uma resposta actualizada à pergunta feita por Garrett há 150
anos atrás. É um estudo que quantifica a distribuição da riqueza à escala
planetária e constitui uma boa radiografia do mundo neste final de 2006. Segundo essa investigação, 2% dos adultos mais ricos do mundo (isto
é, 37 milhões de pessoas) possuem mais de 50% da riqueza mundial, enquanto os
bens de metade da população (ou seja, mais de 4 mil e 300 milhões de pessoas)
não ultrapassam, no seu conjunto, 1% da riqueza global. Façam-se as contas e concluímos que cada um dos considerados ricos
pelo WIDER custa em média mais de 4 milhões e 300 mil pobres. Mas também neste caso as médias em estatística podem enganar. É que
entre os 2% de “ricos” o WIDER inclui tanto os que possuem um modesto
património de 1700 euros como os 499 bilionárlos que a ONU estima terem bens
no valor de mais de 1.000 milhões de dólares, e os 13 milhões de milionários
recenseados no ano 2000, um pouco por todo o mundo mas especialmente nos
Estados Unidos, no Japão e na Europa Ocidental. Ora 1% dos mais ricos
possuíam 40% dos activos globais e 10% dentre eles detinham 80% do património
mundial. A concentração da riqueza nas mãos de um punhado de bilionários e
milionários não se verifica todavia apenas à escala planetária, com a brutal
exploração característica do imperialismo. Regista-se também dentro dos
próprios países imperialistas como os Estados Unidos ou a Inglaterra, que na
União Europeia disputa com Portugal o primeiro lugar no fosso entre pobres e
ricos. É o funcionamento “normal” do sistema capitalista que reproduz estas
situações e as agrava compulsivamente se não tem quem lhe faça frente. Bem podem os sócrates de serviço anunciar em sermões de Natal que a
vida vai melhorando, enquanto dão empurrões ao processo de acumulação da
riqueza e do empobrecimento, com meio milhão de desempregados, abaixamento
dos rendimento de agricultores, operários e empregados, redução dos serviços
sociais como a saúde e o ensino, agravamento dos transportes, serviços
públicos e condições de vida da população – para que cresçam tranquilamente
os milhões nos bancos e enriqueçam mais ainda os milionários nativos ou
cosmopolitas, à sombra da ofensiva do capital. Garrett, se ainda cá estivesse, talvez dissesse: – Afinal o tal Marx que eu só conheci de raspão, tinha razão com aquela teoria da concentração da riqueza e da pauperização que me parecia tão chata... |