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Mundo

01/03/2007

 

Farsa ou primeiro passo? O acordo Estados Unidos-Coreia do Norte

 

Immanuel Wallerstein

Fernand Braudel Center

 

Em 13 de Fevereiro, os Estados Unidos, a Coreia do Norte e os quatro outro países das conversações a seis (China, Coreia do Sul, Japão e Rússia) fizeram uma declaração conjunta chamada pelo Departamento de Estado dos EUA de “plano de acção de desnuclearização”. John Bolton, um dos mais importantes neoconservadores e ex-embaixador de Bush nas Nações Unidas, denunciou-a imediatamente como uma «farsa» que «envia o sinal errado aos candidatos a proliferadores em todo o mundo». O presidente Bush descreveu o acordo de forma diferente. Disse que as conversações representavam «a melhor oportunidade de usar a diplomacia» e que o acordo era «o primeiro passo» em direcção a uma «península [coreana] livre de armas nucleares». Quem tem razão?

 

Em primeiro lugar, o que diz o acordo? Há várias partes. A Coreia do Norte concorda com «fechar e selar, com o propósito de eventual abandono, a instalação nuclear de Yongbyon» e convida ao regresso do pessoal da Agência Internacional de Energia Atómica. O acordo também estabelece a «discussão [apenas a discussão] de uma lista de todos os seus programas nucleares com as outras partes». Em contrapartida, os Estados Unidos concordam com o início de conversações bilaterais sobre o estabelecimento de relações diplomáticas plenas, retirando a designação da Coreia do Norte com um Estado que patrocina o terrorismo, e pondo fim ao Trading With the Enemy Act (Lei do Comércio com o Inimigo) em relação à Coreia do Norte. O Japão também concordou com conversações bilaterais «na base de um acordo sobre o infeliz passado e as excepcionais questões que suscitam preocupação» – uma agenda de certa forma vaga. E todos estão de acordo em dar assistência energética de emergência à Coreia do Norte num prazo de 60 dias.

 

Por que é que os Estados Unidos assinaram este acordo? O New York Times disse que o acordo «marca uma importante mudança de curso da administração Bush», com o que Bolton claramente concorda, assim como a maioria dos comentadores. Já foi dito que o acordo é muito próximo ao feito pela administração Clinton e que foi denunciado pelo regime Bush. Muitos comentadores também concordam que este acordo podia provavelmente ter sido feito há cinco anos, no momento em que a Coreia do Norte ainda não tinha feito testes de armas nucleares, se essa tivesse sido a vontade de Bush.

 

O que mudou então? O facto de haver cada vez menos opções parece ter tocado os decisores de Washington. O facto é que a Coreia do Norte tem hoje algumas armas e é duvidoso que desista delas. O facto é que os Estados Unidos estão atolados no Iraque e estão a concentrar as suas restantes energias políticas no Irão. O facto é que os republicanos perderam a última eleição, em grande parte devido a questões de política externa. O facto é que os seus aliados estão cada vez menos receptivos às políticas dos Estados Unidos a cada dia que passa. Do ponto de vista dos Estados Unidos, o acordo retira a questão da cena geopolítica temporariamente. Haverá muitas oportunidades para que os Estados Unidos voltem a ela mais tarde.

 

E porque é que a Coreia do Norte assinou? Por um motivo, estava sob forte pressão da China para assinar alguma coisa. E pode ter parecido pouco prudente aos norte­‑coreanos forçar demasiado a China nesta altura. Mais importante, a Coreia do Norte obteve algo que queria há muito tempo e que o regime Bush há muito recusava – a promessa de conversações bilaterais com os Estados Unidos sobre o estabelecimento de relações diplomáticas plenas. E conseguiu algum auxílio energético de que precisava urgentemente. Conseguiu tudo isto sem desistir de muita coisa. É verdade que tem de fechar o reactor de Yongbyon. Mas, para além disso, o resto está aberto à “discussão” e não se menciona o desmantelamento das armas nucleares actualmente existentes.

 

Do ponto de vista da China, este acordo reduz a pressão diplomática dos Estados Unidos para que controle a Coreia do Norte. Do ponto de vista da Coreia do Sul, isto permite que prossiga a sua algo embaçada sunshine policy (política de reconciliação entre o Norte e o Sul). Só o Japão está a resmungar, e já avisou que não vai contribuir com o auxílio energético, o que significa que a Coreia do Sul vai ter de assumir a parte do Japão – o que não vai ajudar ao reforço das já tremidas relações Japão-Coreia do Norte.

 

Trata-se então de uma farsa ou de um primeiro passo? Estou inclinado a acreditar que é certamente a primeira e só possivelmente o segundo. O que mais uma vez o acordo traz para o primeiro plano é o declínio da capacidade dos Estados Unidos para atingir os seus objectivos principais na arena geopolítica.