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15/03/2007 Padre Mário de Oliveira Decididamente, a Cúria romana e o papa Bento XVI parecem apostados em
resistir ao Espírito Santo e em pecar sistematicamente contra Ela/Ele. Prova
cabal disso é o extenso documento Sacramentum Caritatis [Sacramento
do Amor] que o papa acaba de assinar e publicar como doutrina oficial da
Igreja católica sobre a Eucaristia, para ser acatada e praticada por todas as
Igrejas locais espalhadas pelo mundo. O documento, se vier a ser acatado e
praticado pela generalidade das Igrejas locais, o que duvido e desejo que não
suceda, converterá ainda mais a Eucaristia num museu, porventura, muito
respeitável, mas totalmente estéril, porque completamente à margem do ritmo
da História e da caminhada da Humanidade para a plenitude da sua criação que,
como facilmente se depreende, está toda no futuro e não no passado. O
documento ainda chega a falar na implementação da justiça no mundo,
nomeadamente no tocante à repartição por todos os povos da riqueza produzida,
como um dos frutos maiores da celebração da Eucaristia, mas até essa oportuna
referência não passará de mera retórica papal, se a Eucaristia for, ainda
mais do que já é, concebida e celebrada segundo as regras que este documento
cegamente pretende impor, daqui para a frente, a toda a Igreja. Na verdade, a preocupação maior e quase exclusiva do documento do
papa esgota-se toda nas normas litúrgicas a respeitar e a executar, o que
reduz ainda mais a Missa católica romana a um rito obsoleto, dito de novo, a
partir de agora, preferencialmente numa língua mais do que morta que é o
latim, acompanhado ao som do canto gregoriano de outras épocas de má memória
que, felizmente, já não voltam mais, presidido exclusivamente por ministros
ordenados, os presbíteros e os bispos, todos absolutamente celibatários (nada
de mulheres católicas neste ministério, nem homens casados), em altares
preparados para o efeito, perante assembleias-faz-de-conta, porque sempre sem
voz nem vez. Numa palavra, o documento do papa faz a Igreja católica
regredir, a passos largos, para a situação anterior ao Concílio Vaticano II.
Não é ainda o regresso completo ao pré-Concílio, mas é um grande passo nessa
direcção. Um pouco mais de tempo e ainda voltaremos às missas com o padre de
costas para a assembleia e a falar sozinho uma língua que ninguém entenderá. Só que por este andar, nem os cerca de 20 por cento de católicos que,
em Portugal, ainda têm pachorra para sair de casa ao domingo e ir participar
num rito eclesiástico cada vez mais mumificado, aflitivamente esvaziado do
fecundo e libertador Sopro de Jesus e por isso sem o mínimo de profecia, se
manterão por muito mais tempo fiéis a esta estéril e rotineira prática social
tipicamente católica. As novas gerações, hoje já a crescer fora da Igreja,
encontrarão neste documento de Bento XVI mais um argumento para radicalizarem
as suas posições de distanciamento e de indiferença, o que constituirá, não
um sinal de alarme, mas um sinal de saúde da parte delas, ainda que,
objectivamente, constitua um desastre completo para a Igreja católica
enquanto tal. Deste modo, a Igreja católica confirmar-se-á cada vez mais como
uma Igreja completamente fora do tempo, fora da História, porventura, uma
referência museológica interessante, mas sem nada que faça dela, aqui e
agora, a Maria Madalena-irmã-companheira-esposa-de-Jesus que a Igreja
simbolicamente/sacramentalmente sempre deve ser, através dos tempo, capaz de
suscitar generosidades e dedicações, as mais fecundas, entre os seres humanos
que continuam a vir a este mundo. Pelo contrário, ao insistir na via imposta
por este documento de Bento XVI, o mais que a Igreja católica poderá suscitar
nos seres humanos que continuam a vir a este mundo é um estéril e inofensivo
espanto, à semelhança do que as notícias dos dinossauros hoje suscitam em
nós, seres humanos do século XXI. Para cúmulo, o documento papal acabou por ser distribuído ao mesmo
tempo que está a ser difundida em todo o mundo a má notícia de mais uma
vítima da famigerada Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, essa
mesma que, durante o pontificado de João Paulo II, foi administrada pela mão
de ferro do então cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI. A vítima, desta
vez, é o teólogo da libertação mais conhecido e mais estudado no mundo das
Igrejas cristãs, o padre jesuíta Jon Sobrino, por sinal, meu querido amigo e
amigo do Jornal Fraternizar, um basco de quatro costados, por nascimento, mas
há muitos anos radicado e naturalizado salvadorenho, na cidade capital de São
Salvador, da empobrecida e violentada América Central. Nem o facto de se
tratar de um mártir vivo (estava ele então em digressão pelos Estados Unidos
da América, a proferir várias conferências, e só isso impediu que fosse
massacrado juntamente com o padre Ellacuría e todos os outros seus irmãos
jesuítas que leccionavam e residiam nas instalações da UCA, a Universidade
centro-americana mais conhecida em todo o mundo) impediu a Cúria Romana de
sair ao seu caminho como Caim contra Abel. Deveriam os cardeais da Cúria
romana descalçar as sandálias e despojar-se das suas vestes de príncipes da
Igreja, em sinal de respeito e de comunhão, mas está visto que eles não
conhecem o Evangelho de Jesus, muito menos estão empenhados em ser discípulos
de Jesus, apenas sucessores do governador do defunto Império Romano que o
matou na cruz e agora, através deles, mata os discípulos, as discípulas dele,
nomeadamente, os mais notórios. De resto, a sua simples existência como
cardeais da Igreja constitui a negação pura e simples do Evangelho e de
Jesus. Por isso, acabam sempre a fazer o que mais sabem, que só pode ser o contrário
de Jesus. Como tal, não perdoam a Jon Sobrino que ele ainda esteja vivo e
continue aí, aos 69/70 anos, a fazer Teologia com a força do Espírito de
Jesus, como ele, na sua humildade e pobreza, tão bem sabe fazer. Pelos
vistos, há uns anos a esta parte, têm-lhe dirigido, através da sua Cúria
romana, sucessivas advertências para tentar perturbá-lo e desencorajá-lo. Em
vão. E, agora, precisamente nestes dias que antecedem a Semana Santa da
Páscoa 2007, decidiram ironicamente silenciá-lo por completo, pelo menos,
naqueles espaços eclesiásticos ainda controlados por eles, felizmente, cada
vez em menor número. Resta, por isso, ao insigne teólogo Pe. Jon Sobrino, depois desta
sanção eclesiástica, todo o nosso vasto mundo, a humanidade no seu todo. O
que, bem vistas as coisas, nem será assim tão negativo para ele e para a
Teologia de libertação que ele tão bem vive, reflecte e capta, a partir das
vítimas. É até de crer que esta censura eclesiástica acabe por ter um efeito
contrário ao pretendido pelo cardeais da Cúria Romana. Se assim for, a
Teologia da libertação que Sobrino vive, reflecte, diz e escreve passará a
ser muito mais lida e escutada pela Humanidade que, hoje, na sua esmagadora
maioria, já não se revê nas posições museológicas provenientes dos cardeais
de Roma. Contudo, a decisão da Cúria romana não deixa de constituir
objectivamente mais um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que
contribuirá para a descredibilizar ainda mais e à nossa Igreja católica, já
de si tão descredibilizada. Por mim, prosseguirei com mais entusiasmo no caminho que estou a
trilhar desde há muitos anos, como presbítero da Igreja que está no Porto e
que tem muito mais a ver com o Caminho ou Via que Jesus abriu e em que acabou
por se constituir para todos os seres humanos que o queiram ser em plenitude.
Concretamente, prosseguirei como presbítero definitivamente longe dos templos
e dos altares, longe dos ritos obsoletos que não têm a marca de Jesus, o de
Nazaré, nem do seu Espírito, apenas a marca das religiões do Paganismo e do
Judaísmo, nomeadamente, do livro do Levítico. Sempre em redor de Mesas comuns
e partilhadas, nas quais se sentam pessoas de carne e osso, mulheres e
homens, com as suas esperanças e as suas dores, as suas alegrias e as suas
mágoas, os seus entusiasmos e as suas desilusões. Em refeições/assembleias
conspirativas, nas quais os interesses dos poderosos e dos privilégios não
têm entrada, nem sequer como ameaça que nos assuste e desmobilize. São Eucaristias assim, em nome e em memória de Jesus, o Crucificado
pelo Templo e pelo Império e o Ressuscitado pelo Deus Vivo, que é sempre o
Deus das vítimas, que acabam por alimentar-nos como seres humanos,
vacinam-nos contra as tentações do Templo e do Império, tornam-nos
resistentes às suas seduções, ao mesmo tempo que frágeis mas fecundos
sacramentos vivos de Jesus que, sem que ninguém dê por isso, fecundamente
contestam/subvertem/enfraquecem a Ordem Mundial dos ricos‑poderosos e
dos seus sacerdotes, e estimulam as suas inúmeras vítimas a distanciar-se
cada vez mais deles, dos seus espectáculos, das suas religiões, das suas leis
e das suas ordens. |