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20/04/2007 Editorial A libertação sob fiança do terrorista Luis Clemente Faustino Posada
Carriles, decidida ontem por um tribunal estadunidense, coloca em evidência a
hipocrisia do governo dos Estados Unidos e a falsidade do seu pretenso
compromisso no combate ao terrorismo internacional. Nascido em Cienfuegos, Cuba, em 1928, este indivíduo encarna melhor
que ninguém neste continente a definição de terrorista internacional:
informante da polícia durante a ditadura de Fulgencio Batista, converteu‑se
em especialista em explosivos ao serviço das forças contra‑revolucionárias
depois do triunfo da insurgência encabeçada por Fidel Castro. Abandonou a
ilha em 1960, apareceu em Fort Benning, Georgia, Estados Unidos, onde foi
treinado para realizar atentados contra civis, e em 1965 a CIA situou‑o
em Veracruz, México, onde pretendia colocar uma bomba num barco soviético.
Nessa altura, Posada Carriles era já empregado dessa agência de espionagem, a
qual o enviou para assessorar os corpos repressivos da Venezuela, Guatemala,
El Salvador, Chile e Argentina. Em 1976, fundou o Comité de Organizações
Revolucionárias Unidas (CORU), que atacou à bomba escritórios e empresas
cubanas em Portugal, Costa Rica, Jamaica, Barbados, Colômbia e Porto Rico.
Nesse ano, Posada Carriles participou na qualidade de autor intelectual no
atentado contra o voo 455 da Cubana de Aviación, no qual morreram 73 pessoas.
Encarcerado pelo governo de Caracas, o terrorista escapou nove anos mais
tarde. Desde então serviu os regimes militares centro‑americanos em
tarefas de contra‑insurgência e participou no complô organizado pelo
governo de Ronald Reagan para abastecer de armas os grupos contra‑revolucionários
nicaraguenses, mediante uma triangulação entre narcotraficantes, a ditadura
salvadorenha e agentes encobertos que adquiriam o armamento no Irão. Em 2000,
foi detido no Panamá e acusado de planear o assassinato do presidente cubano,
que se encontrava de visita nesse país, mas algum tempo mais tarde foi
indultado por Mireya Moscoso no seu último acto de governo. Em princípios de
Abril de 2005, entrou de forma clandestina nos Estados Unidos e, no mês
seguinte, foi preso na Flórida. Apesar da petição de extradição interposta pelo governo venezuelano, Washington
limitou-se a atribuir‑lhe a responsabilidade por delitos migratórios,
e com base neles permaneceu preso até ontem. O tribunal encarregado do seu
caso fixou-lhe uma fiança de 250 mil dólares, a qual foi coberta de imediato,
o que coloca em evidência o enorme poder económico dos grupos terroristas
cubanos estabelecidos em Miami e dos quais o libertado faz parte. O facto central é que Posada Carriles recebe protecção do governo de
George W. Bush, o qual se mostra disposto a impedir que este criminoso seja
processado pelos seus gravíssimos delitos, na Venezuela ou em Cuba. A razão é simples: apesar das suas pretensões justiceiras, a Casa Branca
não vai permitir que um dos seus próprios terroristas compareça perante a
justiça. E é que, no passado recente, Washington foi o principal promotor do
terrorismo neste continente: sob as suas ordens, indivíduos como Posada
Carriles fizeram explodir aviões civis, semearam bombas em diversos países,
desestabilizaram governos democráticos como o de Jacobo Arbenz na Guatemala e
o de Salvador Allende no Chile, e participaram em crimes contra a humanidade
como a aniquilação de povoados inteiros na América Central. Para isso, a Casa
Branca montou uma maquinaria de guerra suja na qual tiveram um papel
destacado os sectores extremistas do exílio cubano na Flórida. Essas
atrocidades continuam, na sua grande maioria, impunes, e a actual
administração estadunidense está empenhada em que permaneçam assim. Enquanto
não se descartar da sua própria inclinação para o terrorismo, Washington carece
de autoridade moral para exortar à luta contra esse ominoso fenómeno. |