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10/05/2007 John Catalinotto Milhões de trabalhadores saíram à rua em todo o mundo numa grandiosa
jornada de luta. Nos EUA, as comemorações do Dia Internacional do Trabalhador
ficam marcadas pelas marchas dos imigrantes. Em várias cidades norte-americanas, centenas de milhares de
trabalhadores imigrantes, a maioria de origem latino-americana,
manifestaram-se pela implementação de direitos iguais nas comemorações do 1.º
de Maio. Este é o segundo ano consecutivo em que os imigrantes nos EUA saem à
rua no Dia Internacional do Trabalhador. Em quase todas as iniciativas realizadas foram feitos apelos à
legalização e exigido o fim da repressão e das deportações. Repúdio
generalizado também quanto ao STRIVE Act em discussão no Congresso e a
respeito das alterações propostas por George W. Bush à lei da imigração. Em Chicago, o número de participantes na marcha superou as 150 mil
pessoas, fazendo desta a maior do país. Em Milwaukee, no Estado do Wisconsin,
o protesto juntou 80 mil trabalhadores. Em Nova Iorque e Los Angeles foram 25
mil e em São Francisco, Phoenix e Tucson as acções contaram com centenas de
milhares de imigrantes e autóctones, realidade que se repetiu em outras
cidades um pouco por todo o território. A maioria dos manifestantes eram latino-americanos, sobretudo
mexicanos, excepto em Nova Iorque, onde apesar de um considerável contingente
de trabalhadores ser de origem hispânica, se podiam encontrar camaradas de
todos os continente. Chineses, coreanos e filipinos, irlandeses e polacos,
trabalhadores de países do Médio Oriente e dos países do Sul da Ásia. Actualmente, encontram-se nos EUA cerca de 35 milhões de imigrantes,
13 milhões dos quais sem a necessária documentação de residência. Muitos
foram às manifestações do 1.º de Maio desafiando o clima de terror provocado
pela recente campanha anti-imigração. A Polícia de Imigração e Alfândegas
(ICE, na sigla inglesa) deportou nos últimos meses um número recorde de 125.405
pessoas. De New Bedford, no Estado do Massachusetts – que há alguns anos
atrás recebeu milhares de imigrantes portugueses –, a São Fernando, na
Califórnia, a ICE separou famílias inteiras e chegou mesmo a manter detidas
várias crianças. Os imigrantes desafiaram estas ameaças para se incorporarem naquele
que foi o segundo maior 1.º de Maio dos EUA nos últimos 60 anos, apenas
superado pela jornada do ano passado quando a reivindicação central da
revogação do diploma Sensenbrenner garantiu uma mobilização ainda mais
compacta. EXPLORADOS E SEM DIREITOS Os trabalhadores imigrantes indocumentados nos EUA representam cerca
de cinco por cento do total da força de trabalho e desempenham um papel vital
nos sectores da agricultura, construção civil e serviços. São eles que
plantam e apanham frutas e vegetais, são eles que constróem casas,
escritórios e estradas, são eles que servem nos restaurantes e hotéis. Apesar
de votados à permanente insegurança e à precariedade, os imigrantes estão
conscientes do papel que desempenham na economia e da força que esse facto
lhes dá. Entre os imigrantes provenientes do Sul do continente, sobretudo os
mexicanos, até se conta com gosto uma piada sobre o atraso na construção do
muro que Washington está a erguer na fronteira com o México: «O problema –
dizem – é que os empreiteiros não podem contratar mexicanos». A lei Sensenbrenner representava a mais crua repressão. Além de
criminalizar uma grande parte das comunidades imigrantes, indiciava
professores das escolas públicas, familiares de imigrantes, membros de
igrejas ou serviços sociais que prestavam auxílio aos imigrantes ilegais. O STRIVE Act, muito embora faça algumas concessões, mantém-se longe
do exigido pelos trabalhadores imigrantes. Mantém a sua criminalização e
apela às autoridades locais para que apliquem a legislação em vigor. Continua
a obrigar os que vivem e trabalham nos EUA sem os necessários documentos de
autorização de residência a pagar fianças na ordem dos dois mil dólares caso
pretendam iniciar o processo de legalização. Mais, os imigrantes têm de
regressar aos respectivos países e pedir formalmente ao governo
norte-americano que os deixe regressar. Tal como o programa que Bush deseja
implementar, também o STRIVE Act se consubstancia no conceito de “trabalhador
convidado”, o qual, na prática, cria um grupo permanente de assalariados de
segunda classe e sem quaisquer garantias. UNIDADE NECESSÁRIA O incremento das operações policiais anti-imigração no seio das
comunidades levou muitos dos activistas que o ano passado estiveram com as
marchas a capitularem perante a repressão, apelando aos trabalhadores para
que apoiem o STRIVE Act. Não obstante, a maioria dos grupos e associações
trabalhou muito na mobilização para o 1.º de Maio, ajudando a fazer desta uma
data de permanente luta dos trabalhadores também nos EUA. Em muitas das marchas, activistas de organizações políticas e sociais
afro-americanas intervieram expressando a sua solidariedade para com os
imigrantes. Alguns dirigentes sindicais também quiseram estar presentes,
embora a jornada de luta não tenha granjeado grande simpatia da parte do
movimento sindical norte‑americano. REPRESSÃO AUMENTA Em Chicago, a marcha do 1.º Maio realizou-se no rescaldo de uma
operação policial que intimidou muitos imigrantes, mas que certamente
enfureceu a maioria. A 24 de Abril, uma operação envolvendo cerca de 60 elementos
fortemente armados da polícia de imigração foi levada a cabo num
supermercado. As autoridades entraram, arrombaram portas, obrigaram todos os
que «aparentavam ser de origem latina» a sentarem-se no chão culminando com a
detenção de 150 pessoas entre trabalhadores e clientes. A marcha de Los Angeles, na qual seguiam famílias inteiras, foi alvo
de um brutal ataque da polícia que para além de carregar sobre a multidão
pacífica usou granadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha. O principal resultado das acções realizadas no 1.º de Maio nos EUA
foi a afirmação de que este será sempre o dia em que os trabalhadores de todo
o mundo lutam pelos seus direitos, sobretudo quando o fazem no coração do
imperialismo. JORNADA DE LUTA CONTRA A REPRESSÃO A jornada do 1.º de Maio foi aproveitada pelos trabalhadores para
reivindicarem melhores condições de vida, defenderem direitos laborais e
exigirem respeito pela liberdade de associação e protesto. Mais de um século
depois do Dia Internacional dos Trabalhadores ter sido instituído e, desde
logo, amplamente comemorado pelas massas, subsiste o perigo da sua repressão
e, em vários países do mundo, as comemorações estão mesmo proibidas. Em Moscovo, o Partido Comunista da Federação Russa juntou mais de 50
mil pessoas junto à estátua de Karl Marx, isto apesar do forte contingente
policial. Só na capital russa foram detidas cerca de 400 pessoas, mas nem a
repressão movida pelo governo impediu que centenas de milhares comemorassem o
1.º de Maio em todo o país, incluindo em Grozny, capital da Tchéchénia, onde
as comemoração não decorriam há 16 anos. Havana, São Paulo e Quito registaram gigantescas manifestações. Na
capital cubana, milhões desfilaram no Malecón exigindo o fim do bloqueio
norte-americano e a liberdade para os patriotas cubanos detidos nos EUA; na
maior cidade brasileira, mais de dois milhões de trabalhadores rejeitaram a
precariedade, e no altiplano andino o presidente Rafael Correa juntou-se ao
trabalhadores. Em Santiago, no Chile, 40 mil exigiram empregos estáveis e salários
justos, reivindicações semelhantes às dos trabalhadores do outro lado do
Atlântico. Em Roma, Atenas e Madrid (30 mil na capital mais 50 concentrações
em outras cidades), foram dezenas de milhares a lutar contra o neoliberalismo,
e em França, antes de irem a votos, concentraram-se 200 mil trabalhadores em
cerca de 250 cidades. Em Dortmund, na Alemanha, o presidente da Confederação dos Sindicatos
Alemães (DGB) exigiu a ilegalização do partido nazi NPD, enquanto em Berlim
50 mil festejaram Maio nas comemorações populares no bairro de Kreuzberg. Às portas da Europa, na Turquia, onde o 1.º de Maio está proibido
desde 1980, milhares foram impedidos pelas autoridades de viajar para
Istambul. Os que se conseguiriam juntar na cidade foram brutalmente
reprimidos. 900 manifestantes acabaram detidos quando tentavam chegar à praça
Taksim, local que se tornou simbólico na luta dos trabalhadores turcos depois
dos militares terem assassinado, em 1977, vários operários. Na Palestina, o
exército israelita dispersou com violência uma marcha convocada pela União
Geral dos Sindicatos, e em El Aiun, no Saara Ocidental ocupado por Marrocos,
jovens levantaram a bandeira da independência e pintaram murais. Em Manila, nas Filipinas, as palavras de ordem denunciaram a política
antipopular da presidente Gloria Arroyo, situação que se repetiu na Malásia,
onde os trabalhadores do sector público não beneficiam de um aumento há 15
anos. Em Singapura, as concentrações de trabalhadores são “desaconcelhadas”
mas nem por isso deixaram de se realizar, e na Indonésia, apesar do 1º de
Maio não ser feriado nacional, milhares de pessoas saíram à rua em Jacarta e nas
principais cidades do país. |