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09/10/2006 O que faz correr Jardim Violante
Saramago Matos Durante 30 anos, e em espiral
crescente, o presidente do Governo Regional da Madeira tem agido de acordo
com uma estratégia muito clara: tudo, “em nome da Madeira” ou, melhor
dizendo, em nome dos interesses dos afilhados do poder na Madeira. É preciso
insultar? Insulte-se. É preciso cuspir no prato onde se comeu? Cuspa‑se.
É preciso vitimizar-se? Vamos a isso, que nada melhor que responsabilizar
Lisboa (“eu queria fazer, a culpa é de Lisboa que tira dinheiro à Região”)
procurando, acima de tudo, manter o poder. Estamos, com a discussão da lei
das finanças das regiões autónomas, num momento desses. A precariedade financeira da
Região é cada vez maior – o endividamento cresce de forma assustadora: a
discussão do Orçamento para 2006 revelou uma dívida pública regional de 1 348
M € – 1,5 vezes a receita corrente e quase o dobro do PIDDAR. Não há centelha
de sustentabilidade. O governo regional sabe disso. E o governo da República
também. A distorção introduzida pelo
Centro Internacional de Negócios é particularmente grave – mesmo descontando
a componente financeira do CINM, a verdade é que a sua influência sobre uma
economia de escala reduzida como é a da Madeira, é enorme. E é prejudicial,
percebe-se, quando se vêem os resultados: saída do estatuto de Região de
Objectivo 1 e perda de cerca de 500 milhões de euros no Quadro 2007/2013. O
governo regional sabe disso. E o governo da República também. Embora
continuem a defender em conjunto esta praça financeira nas negociações na
União Europeia. A realidade é bem diferente:
a realidade é um dos maiores índices de falta de coesão social; são cerca de
30 mil pessoas com reformas abaixo do salário mínimo; é o significativo
aumento do desemprego – em 2001 foram pagos 2.283 subsídios de desemprego, em
2005 os números são de 7.981; são 1.926 os rendimentos mínimos garantidos em
2001 e, em 2005, 8.038 subsídios sociais de reinserção. Estas são realidades
que o governo regional quer esconder mas que o governo da República não pode
desconhecer. Por isso, definir novas
regras para as finanças das regiões autónomas tendo por princípio base a “riqueza
da Região” é absolutamente inaceitável. Há, sim, que eleger os
princípios do rigor orçamental, da prestação e da transparência das contas
públicas, que esse é que é o verdadeiro busílis da questão: Jardim não quer
prestar contas a ninguém. E é por isso que ele nem fala
nesta questão. Dispara para o lado, falando do dinheiro que não vem, num tom
tal que, se por um lado agudiza um sentimento nacional muito generalizado
contra a Madeira – e que claramente é preciso combater –, por outro, lhe
serve para cerrar fileiras internas, fundamentais para tentar conservar o
poder, numa altura em que se começam a perspectivar sentimentos de necessária
mudança, de saturação com o poder instituído, de desagrado com as atitudes do
chefe do executivo. O Rei vai nu. Não o façam parecer vestido de cordeiro. |