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Janeiro 2007 Assim-assim? Miguel Vale de Almeida * Le Monde diplomatique – edição portuguesa; Movimento
Cidadania e Responsabilidade pelo SIM No debate sobre a
despenalização da IVG talvez convenha começar por recordar que um feto é “vida”.
Assim como o é também um embrião. É óbvio inclusive que ambos são vida da
espécie humana. É por isto ser tão óbvio que tanto os apoiantes do “Sim” como
os apoiantes do “Não” concordam que a decisão quanto a abortar é um problema
moral e ético que se coloca a quem tem que decidir. As pessoas de ambos os
campos partilham um universo de referências culturais, bem para lá do catolicismo
difuso ou do judaico-cristianismo ainda mais difuso: a vida constitui um
símbolo positivo e tudo o que signifique “mexer” com ela é fonte de
perturbação. Daí que o campo do “Não”
possa mesmo sentir uma espécie de maior “conforto moral”: se acredito
piamente no valor absoluto da “vida”, tenho todas as hesitações éticas
resolvidas; e posso inclusive engajar-me de forma mais militante na defesa da
causa. O “Sim” é à partida um campo em “perda”, com – digamos – um défice:
precisa de pensar, argumentar, explicar, convencer, distrinçar,
contextualizar. Em suma, vê-se obrigado a um trabalho extra de inteligência e
racionalidade, o que, convenhamos, é algo que não colhe propriamente a
atenção ou o aplauso da massa. Que embrião e feto são “vida”,
e vida da espécie humana, e cada vez mais percepcionados como potencial de
Pessoa (através de tecnologias como a ecografia, graças às expectativas sobre
a sobrevivência do feto à nascença, e através de práticas como a atribuição
pré-natal do nome) são evidências culturais partilhadas, creio, por todos e
todas. Ora, é justamente por isto
ser tão óbvio que há qualquer coisa de ridículo nas discussões sobre o “começo”
da vida – feitas por qualquer dos lados da “barricada”. É também
relativamente óbvio que é por todos e todas reconhecermos a vida do feto e do
embrião que o assunto é delicado e constitui uma política emocional ou uma
emoção política. É também por isso que a discussão se deve colocar no plano
político e das decisões democráticas e deve evitar ao máximo a autoridade dos
saberes especializados. Por que não concordamos,
então? Porque mostramos, de um lado, ecografias e contrapomos, do outro lado,
calendários sobre a formação do tronco cerebral? Concordamos com a realidade
biológica da “vida” e com o entendimento cultural sobre ela (e sobre a “verdade”
da biologia, mas essa é outra discussão…), mas empenhamo‑nos em
debater datas, pontos de viragem, momentos, antes e depois. Esquecemo-nos,
nesse debate, de que aquilo sobre que discordamos verdadeiramente é outra
coisa, colocada noutro plano. “AQUI MANDO EU”: A SOBERANIA
DA MULHER SOBRE O SEU CORPO Esse plano é o da comparação
entre a vida humana duma Pessoa individual e social, feita e com biografia e
projectos – a cidadã-mulher-pessoa que engravida – e a vida no sentido lato que
o embrião é. A primeira pré‑existe ao embrião; o embrião “acontece” no
seu corpo; e ela tem que pesar os prós e contras da consequência de ter um(a)
filho(a); a segunda “existe” num plano potencial, passivo e abstracto. É por
isto que o referendo não é – no plano cultural, não no da formulação da
pergunta – sobre a vida. É, nesse plano cultural, sobre a Pessoa. No plano da pergunta que é
colocada aos eleitores e às eleitoras, o referendo é sobre a despenalização,
não invalidando a punição do aborto feito depois das 10 semanas (tem que
haver sempre uma fronteira, por arbitrária que possa parecer nos casos
ambíguos – 10 semanas e 1 dia –, exactamente como na idade do consentimento,
por exemplo – x anos e um dia). Não invalida tão-pouco que continue a existir
o problema moral e ético referido acima. Problema ético e moral que deve ser
resolvido pela consciência de cada uma das Pessoas autónomas que se vejam
confrontadas com o problema. Incluindo as mulheres que, ganhando o “Sim”,
nunca serão obrigadas a interromper a gravidez (mas é mesmo preciso explicar
isto?) se forem radicalmente contra o aborto. Posto isto, confesso que me
impressiona a facilidade com que quase toda a gente, de um lado e outro,
parece censurar o discurso sobre o corpo feminino e a soberania de cada
mulher sobre ele. Faz-me impressão que o lado do “Não” consiga fazer passar a
mensagem de que esse discurso é “feminista” logo “extremista”. Que o outro
lado aceite estes termos, como geralmente aceita através do silêncio, mais
parece indiciador do atraso cívico do país e dos seus movimentos sociais. É
que o discurso sobre a soberania da Pessoa sobre o seu corpo nada tem de
extremista – é pura e simplesmente o resultado de uma visão moderna e liberal
sobre a autonomia dos indivíduos. Extremista e ultrapassado é o discurso
sobre a maternidade forçada como fado e destino. Chegamos então ao ponto mais
difícil: qualificar, historicizar e contextualizar a noção de Pessoa com que
funcionamos. Porque a Pessoa da modernidade e do pensamento liberal clássico
tem sido pensada como masculina, relegando a mulher para um campo específico,
assimétrico em relação ao masculino, um campo onde a desigualdade de género
torna ficcionais as proclamações de igualdade. Será mesmo necessário recordar
toda a história do controlo dos úteros e do potencial reprodutivo feminino? É
por isto que me parece surpreendente o receio – será ele apenas táctico, como
é comum sugerir-se? – de introduzir no debate sobre a despenalização da IVG a
questão dos direitos das mulheres e dos direitos sobre os seus corpos. Nem a
discussão bizantina sobre a bio-lógica (a “vida”), nem o ventriloquismo
neo-realista da “questão de saúde pública” ou do efeito de classe sobre a
prática do aborto conseguem fazer calar o reprimido: quando uma mulher escreve
sobre a sua barriga a frase “aqui mando eu” está a transmitir a mensagem mais
simples, clara e verdadeira que pode ser transmitida. Que o pânico se instale
no sector do “Sim” quando tal acontece é algo que não cessa de (me) espantar. UM “SIM” FEMINISTA E LIBERAL O sector do “Sim” tem que
ultrapassar estes complexos e não ficar totalmente prisioneiro da lógica
centrista do convencimento das “massas”. Não pode fazer como o PS que a cada
semana dá novos sinais de hesitar em fazer campanha: primeiro foi-nos
anunciado que o governo não vai afinal participar nela, ao contrário do que
fora dito; e depois soube-se que hesita em fazer cartazes de campanha. Há
razões para estas hesitações: a consciência de que o debate sobre a “vida” é
uma batalha perdida; e o pânico a-feminista de entrar num debate sobre os
direitos e a igualdade de género. Do outro lado, não há hesitações de espécie
nenhuma: a Igreja católica, por exemplo, promove um concurso de arte infantil
sobre a vida intra-uterina denominado “A minha primeira morada”. Reparem bem:
morada. A metáfora imobiliária é claríssima: o útero não é da mulher,
o útero é do inquilino (o feto) e/ou do proprietário – o Estado, a Igreja, a
sociedade. Pela parte que me toca não cedo um milímetro. Continuo feminista – isto é, alguém que acredita que a igualdade plena entre os sexos e o questionamento do género são uma questão de civilização –; e continuo radicalmente materialista e liberal – alguém que acredita que, apesar dos vários determinismos sociais, devemos pugnar pela autonomia e dignidade plenas das Pessoas, desde logo através da garantia da sua capacidade e liberdade de escolha. No referendo está em causa a despenalização da IVG até às 10 semanas, o tempo mínimo para que uma mulher possa decidir se quer deixar prosseguir o que lhe está a acontecer ao corpo. E no plano cultural – o que subjaz às emoções políticas ou à política emocional que geram o mal-estar da discussão – não está em discussão nem a “vida”, nem a saúde pública, mas sim o estatuto da mulher enquanto Pessoa e cidadã. ______ * Antropólogo, ISCTE, e
mandatário do Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo SIM. |