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12/02/2007 Depois do SIM, o que vão
fazer as populações que se deixaram levar pela
hierarquia e votaram NÃO? Padre Mário de Oliveira Com a inquestionável vitória
do SIM no referendo de ontem, a vida com dignidade e, mais especificamente, a
vida e a dignidade das mulheres portuguesas acabam de conhecer um
irreversível passo em frente no nosso país e, por arrastamento, na Europa e
no resto do mundo. O mesmo se diga da autonomia da sociedade civil portuguesa
frente à Igreja católica romana, cuja hierarquia (bispos residenciais e
párocos, assessorados por Movimentos de leigas/leigos feitos à imagem e
semelhança deles!), infelizmente, nesta matéria, não soube manter‑se
no seu lugar e continuou a comportar-se como se ainda vivêssemos sob o
famigerado regime de Cristandade que o próprio Concílio Vaticano II, de feliz
memória, oficialmente enterrou para sempre, mas que ela não se tem cansado de
tentar restaurar. No que tem sido vergonhosamente apoiada pela conservadora e
moralista Cúria Romana e seus sucessivos papas, os quais têm estado muito
longe do espírito de abertura e de macroecumenismo do seu antecessor João
XXIII, o mesmo que convocou aquele Concílio, para que ele fosse uma saudável
e fecunda Revolução no interior da Igreja católica em todo o mundo. Estou feliz com este passo em
frente, o primeiro de muitos outros que o país terá agora de dar, para
consolidar e corporizar esta vitória e para a alargar a outros âmbitos da
sexualidade humana e da vida humana em geral que, até agora, têm sido
tratados como tabu, também e sobretudo por estúpida imposição do Moralismo
sem moral da referida hierarquia católica. Estou feliz e acho que também
Deus, o de Jesus, está, porque a sua alegria é que a vida, e vida em abundância
e em qualidade tenha cada vez mais oportunidade na História e seja garantida
a todas as pessoas, a começar pelas mais fragilizadas e mais pobres. Dei muito de mim para esta
causa maior, assim como muitas mulheres e muitos outros homens, católicas e
católicos incluídos, do país. É legítimo que nos sintamos contentes e cheios
de esperança. Estaremos também vigilantes, para não consentir que o Poder do
Obscurantismo e do Moralismo eclesiástico tente recuperar na secretaria o que
acaba de perder no terreno. Por isso, não desmobilizo nesta Causa maior. E
peço às minhas irmãs, aos meus irmãos do SIM que não desmobilizem também.
Toda a atenção é necessária. E todo o acompanhamento lúcido. Porque os das
Trevas costumam ser sempre mais hábeis, nos seus negócios, do que os da Luz.
Vigiemos! A partir deste SIM, o
Parlamento tem agora ainda mais luz verde para alterar a actual lei e o
Código Penal e terá obrigação moral de ajudar a dotar progressivamente a
Sociedade civil de serviços que garantam às populações a possibilidade de
saírem de vez do obscurantismo e da ignorância em que grande parte delas
ainda hoje vive, neste campo da vida. É de esperar que os párocos e
os bispos aprendam a lição deste referendo e sejam os primeiros a converter‑se
ao Evangelho de Jesus que não suporta o Moralismo dos fariseus, nem o
legalismo em que eles gostam de dar cartas. Já que não evangelizaram as
populações, tenham ao menos agora a humildade de se deixarem evangelizar por
elas. Neste campo, as populações católicas portuguesas, sobretudo do Centro e
do Sul do país, mostraram estar muito adiante da hierarquia. Apenas no Norte
do país e nas Ilhas, as populações continuam ainda sob a tutela dos párocos e
dos bispos. Mas até aí a situação está em vias de alteração. As novas
gerações, mais escolarizadas e mais ilustradas que os seus pais e avós, já
não suportam as velhas catequeses eclesiásticas, carregadas de moralismo e de
mitos. Bem sei que correm o risco de atirarem fora com a água do banho a Boa
Notícia de Deus que é Jesus com a sua prática libertadora e cheia de
Misericórdia, mas, mesmo assim, é melhor do que permanecerem prisioneiras do
Moralismo e dos Mitos eclesiásticos, como aconteceu com a generalidade das
gerações que, desde o imperador Constantino, as precederam até agora. Afinal,
a Boa Notícia de Deus que é Jesus chega-lhes, hoje, por outras vias mais
seculares, com destaque para a via das Ciências sociais e humanas, que se
debruçam sobre os seres humanos e a vida em geral, uma vez que entre Deus, o
de Jesus, e a Ciência não há contradição mas convergência, ao contrário do
que se passa entre Deus e a Religião, em que a contradição é total. Perante os resultados do
referendo, os bispos residenciais e os párocos católicos farão bem, se
reconhecerem humildemente perante o país que perderam em toda a linha. Mas
não só. Para que esta sua confissão seja sinónimo de conversão, os bispos e
os párocos católicos têm de reconhecer igualmente que a derrota deles é a
grande vitória do Evangelho de Deus que é Jesus e a sua prática libertadora e
misericordiosa. Se o não fizerem, permanecerão no seu pecado e, como estão
canonicamente à frente da totalidade do institucional na Igreja católica,
constituem-se num dos mais perigosos inimigos das populações que continuarem
a dar‑lhes credibilidade e atenção. Serão contumazes guias cegos que
arrastarão as populações para o abismo. Dos quais as populações precisam de
saber defender-se a toda a hora. E de ensinar as suas filhas, os seus filhos
a defender‑se também. Por sua vez, as populações
católicas têm que tirar igualmente as suas conclusões. Se votaram NÃO no
referendo, por instigação dos párocos e dos bispos, terão de concluir que
fizeram mal, porque, em questões de tanta monta, como são as questões da
bioética, ninguém, nenhuma pessoa pode alguma vez decidir pela consciência de
outro, nem por indicação de outro. Apenas pela própria consciência. E se o
outro em questão é pároco ou bispo da Igreja, ainda mais grave será terem
decidido por sua indicação ou por sua instigação. Será gravíssimo. Neste
caso, farão bem as populações se, de agora em diante, nunca mais derem
ouvidos aos conselhos e às ameaças dos respectivos párocos e dos bispos em
geral. O descrédito deles, perante as populações do país, é agora ainda
maior, depois desta vitória do SIM à Lei de despenalização do aborto. E se,
nem assim, os bispos e os párocos derem mostras de verdadeira conversão ao
Evangelho de Deus que é Jesus e a sua prática cheia de Misericórdia e de
Ternura, então as populações católicas deverão afastar‑se
definitivamente das suas homilias e das suas catequeses. E passarem a
reunir-se umas com as outras em nome de Jesus, nas casas umas das outras,
guiadas pelo Espírito Santo que está presente e actuante, sempre que duas ou
três pessoas se reúnem em nome e em memória de Jesus. Esta é, por isso, uma hora de
grandes audácias, na Sociedade civil e na Igreja católica. A Vida humana deu
um grande passo em frente com a vitória do SIM. A dignidade humana também.
Sejamos dignas, dignos desta hora. |