Informação Alternativa

Portugal

21/07/2008

 

Quinta da Fonte: nenhum ruído pode impedir o debate que se impõe

– Comunicado de imprensa –

 

SOS Racismo

 

Convém, antes de mais, deixar claro que o SOS Racismo não se pronunciou sobre a Quinta da Fonte no calor dos acontecimentos, não por procurar fugir da suposta questão racial subjacente, mas porque, e como aliás vai sendo assumido pelos próprios moradores e todas as instituições e actores sociais que trabalham no terreno, por julgar que não se tratou substancialmente de uma questão de violência racial entre as comunidades do bairro, como muitos pretendem fazer passar a ideia. Foi uma desavença que ocorreu ali como podia ter ocorrido em qualquer lugar do país com as mesmas características; sendo porém evidente que neste caso em concreto as tensões que existem entre as comunidades não estão verdadeiramente arreigadas no racismo ordinário como o conhecemos, mas antes numa tensão social resultante das degradadas condições de vida dos moradores do bairro, sejam eles de que etnia for. Sobre isto, a história já está suficientemente contada e ainda por cima pelos próprios envolvidos, e portanto nada mais há a acrescentar. E mais, se dúvidas ainda subsistissem quanto à falsidade da tese racista, elas foram dissipadas pela entrevista dada pelo Presidente do Agrupamento de Escolas da Apelação, Dr. Félix Bolaño, à Renascença e ao Público, colocando os problemas no seu devido lugar.

 

Mas se, por um lado, o SOS Racismo nunca pretendeu defender a imunidade de qualquer sociedade ou cultura ao racismo, por outro lado, não pactuamos, de maneira nenhuma, com todo o ruído que procura impedir a verdadeira discussão das causas que estão na origem dos problemas no bairros sociais, como por exemplo a guetização das minorias, consequência da sua discriminação institucional.

 

O que importa discutir são as políticas que estão na origem das miseráveis condições de vida nos bairros sociais e, no caso em apreço, na Quinta da Fonte.

 

Aliás, o senhor Presidente da Câmara de Loures reconhece que o realojamento da Quinta da Fonte foi um erro, mas persiste no mesmo erro ao querer realojar no mesmo bairro e à sua revelia, os moradores do Bairro do Talude! O Senhor Presidente vem dizer que existem muitas rendas em atraso, quando a primeira medida que tomou, mal tomou posse, foi tentar aumentar exponencialmente e de forma indiscriminada as rendas dos bairros sociais! Só não o conseguiu porque enfrentou a mobilização dos moradores!

 

Alguns políticos vêm agora derramar lágrimas de crocodilo ao falar na degradação do edificado e na falta de infra­‑estruturas, quando o SOS Racismo, já em Maio de 1999 (vide Público, Capital e Diário de Notícias do 7 de Maio de 1999), alertava para a incúria das autoridades municipais e centrais na adjudicação da obra para a construção do Bairro da Quinta da Fonte! Já nessa altura, havia problemas com o sistema de saneamento, nomeadamente dos esgotos! Esta obra, como aliás a maior parte das obras de bairros sociais, foi feita contra todas as regras de urbanismo e de arquitectura. Porque, neste caso por exemplo, e em muitos casos de construção de bairros de realojamento, as necessárias fiscalizações foram omissas, a qualidade dos materiais de construção deixam muito a desejar e o envolvimento dos visados foi nulo.

 

As políticas de realojamento basearam-se sempre em remendos, em vez de assentarem numa organização territorial que permitisse uma gestão democrática do território que fomentasse a convivência de todos os grupos étnicos em igualdade de circunstâncias! A filosofia política dos bairros de realojamento foi substituir barracas de lata por barracas de betão!

 

Portanto, querer situar os acontecimentos da Quinta da Fonte numa suposta questão racista entre comunidades é querer tapar o sol com a peneira, porque o que acontece na Quinta do Conde, no Porto; na Bela Vista, em Setúbal; nas Maraianas, em Carcavelos; em Santa Filomena, na Amadora; na Quinta da Torrinha, na Ameixoeira; etc., etc., não é em nada diferente dos últimos acontecimentos e não são manifestações de racismo, convenhamos!

 

Pois, daria jeito a muita gente atiçar o conflito das vítimas do racismo quotidiano para legitimar as suas barbáries e desculpar-se dos seus pecados! Se até os pretos, os ciganos, os pobres, são racistas, porque não assumir a inevitabilidade do racismo, pensarão assim muitos pseudo politicamente incorrectos!

 

O SOS Racismo nunca pactuou com qualquer espécie de violência e muito menos com o racismo, venha ele donde vier, no entanto, que fique claro, nenhum ruído nos impedirá de apontar o dedo aos responsáveis da situação que se vive nos bairros sociais: os políticos dos sucessivos executivos governamentais e camarários que, numa clara política de segregação espacial, empurraram as minorias étnicas em guetos sem condições nenhumas.

 

Mamadou Ba

938831242

José Falcão

919116269