|
Informação Alternativa |
|
União
Europeia |
|
Janeiro 2006 Mercado europeu da educação anuncia-se para breve – Entrevista a Richard Hatcher – Ricardo Jorge Costa Richard Hatcher é Director do Departamento de Investigação da
Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Central England, em
Birmingham. Antes de ingressar na carreira universitária, Hatcher foi
professor do ensino primário e de “Further Education”, que em Inglaterra
equivale ao ensino recorrente de formação pós-estudos. As suas áreas de interesse vão desde política educativa a temas
ligados à governação e à participação, a contextos internacionais de reforma
educativa e à igualdade de oportunidades, no âmbito dos quais tem coordenado
diversos programas de investigação, acompanhamento e avaliação. Tem publicado, desde 1991, uma vasta obra sobre política educativa,
com um ênfase nas questões de justiça social. A sua linha de investigação
mais recente inclui estudos sobre zonas de intervenção educativa em
Inglaterra e em França e sobre a experiência de educação e democracia
participativas no Brasil, em particular no Estado do Rio Grande do Sul e da
sua capital, Porto Alegre. É co-fundador da revista Education and Social Justice, membro
do Conselho Editorial da Race Equality Teaching e conselheiro do
Conselho Editorial do Journal for Critical Education Policy Studies. A Página conversou com Richard Hatcher durante a realização
do I Fórum Social Ibérico para a Educação, que decorreu em Córdoba no final
de Outubro do ano passado, no qual era orador convidado. A crescente
mercantilização do ensino público britânico, que Hatcher acredita vir a
estender‑se aos restantes países europeus, e a falta de resposta por
parte das entidades sindicais do país são os temas dominantes desta
entrevista. Qual tem sido a política educativa seguida pelo actual governo
trabalhista e em que medida está a transformar o conceito de ensino público? Após dezoito anos de poder conservador em Inglaterra, havia a
esperança de que o governo trabalhista mudasse o rumo da política educativa. Anteriormente à eleição do actual governo, em 1997, havia muita
contestação à política educativa do Partido Conservador, mas, ao contrário do
que se esperava, os trabalhistas foram ainda mais longe do que os
conservadores em determinadas áreas, como é o exemplo do estabelecimento de
propinas no ensino superior público. Mas este não é o único exemplo. O governo de Tony Blair aprovou
também uma lei que oferece a possibilidade às escolas públicas de se
demarcarem da jurisdição das autoridades educativas locais, cuja tutela
pertence aos municípios. As escolas são desta forma encorajadas a seguir uma
via completamente autónoma, à semelhança do que defendiam os conservadores,
fórmula que os trabalhistas haviam abolido quando chegaram ao poder. Em 2001, o principal conselheiro sobre temas educativos de Tony Blair,
Michael Barber, afirmou que «no século XX, o impulso para o progresso
educativo vinha do sector público. No final do século XX, com a frustração
dos sistemas existentes, esta herança foi desafiada por um sector privado
crescente e vibrante...». É esta a ideia que tem marcado a actuação do
governo trabalhista? No passado, os trabalhistas baseavam os seus projectos de reforma
educativa nos pareceres dos professores e das autoridades educativas locais,
órgãos legitimamente eleitos. A situação alterou-se bastante desde então. Os
professores deixaram de ser vistos como parte da solução para passarem a ser
encarados como parte do problema, à semelhança dos conselhos locais de
educação, que o governo encara como órgãos burocráticos e conservadores – apesar
de a maioria ser composta por elementos afectos ao Partido Trabalhista. No seguimento desta linha de actuação, o governo tem procurado novos
agentes que lhe permitam alcançar as mudanças pretendidas: agências estatais
com enorme poder de intervenção, nomeadamente ao nível da inspecção das
escolas, do controlo dos professores estagiários, da progressão profissional
dos professores efectivos, da transição da escola para o mundo do trabalho,
etc. O segundo agente desta mudança são os pais, a quem o governo quer
dar maior poder, nomeadamente através da possibilidade de estes convocarem
uma inspecção e poderem encerrar uma escola, abrindo outra no lugar da
anterior. Pessoalmente, acho que este tipo de situações será esporádico
porque, na maioria dos casos, os pais não querem ter esse tipo de decisão em
mãos. O terceiro agente é o sector privado, que pode assumir diversas
formas: desde empresas privadas, a homens de negócios multimilionários, à
própria igreja, quer a anglicana quer a católica. Isto, porque Tony Blair
acredita que a igreja – que já administra escolas no sistema público – pode
ser particularmente bem sucedida em transmitir valores morais aos jovens. Que tipo de actuação têm essas empresas privadas? Algumas empresas actuam numa base não lucrativa, mas outras têm um
intuito claramente comercial, prestando os mais diversos serviços às escolas
e às autoridades educativas locais. Esses serviços não se limitam à limpeza e
manutenção das instalações ou à gestão de cantinas, mas sobretudo à
implementação das próprias políticas do governo em áreas fulcrais como as
inspecções escolares, actualmente conduzidas, na sua maioria, por empresas
privadas. A actividade das empresas privadas estende-se ao próprio programa nacional.
O governo britânico acha que sabe melhor do que os professores de que forma
devem os alunos ser ensinados nas escolas, pelo que introduziu um plano
bastante descritivo onde mostra aos professores de que forma devem fazê-lo,
abrangendo numa primeira fase as escolas básicas e, mais recentemente, as
escolas secundárias. A implementação deste programa está a cargo de uma
empresa que detém um contrato de cinco anos no valor de 250 milhões de euros,
o que o torna num negócio altamente lucrativo. Esta supervisão estende-se também a um novo sistema de avaliação do
desempenho dos professores, que faz variar a remuneração em função da
prestação individual dos docentes, monitorizada por uma série de empresas
privadas. UM LABORATÓRIO À ESCALA EUROPEIA Uma das facetas desta tendência privatizadora traduz-se igualmente
na criação das chamadas “Academies” (Academias). Pode explicar-nos melhor em
que base assenta este conceito? As Academias são uma das formas de o sector privado se envolver numa
base não lucrativa no sistema educativo. Essa participação pode assumir dois
modelos. Um deles passa por apoiar financeiramente as escolas secundárias,
que estão a ser incentivadas pelo governo a especializarem‑se em
determinadas áreas do currículo nacional. Para se tornar numa escola
especializada, a escola deve recolher verbas no valor de 80 mil euros a
partir de fontes privadas, habitualmente junto de empresas como bancos ou
supermercados, que são habitualmente quem tem poder para tal. Apesar desta
doação, a empresa não adquire qualquer direito sobre a gestão da escola. Mais grave é uma outra forma de patrocínio que criou um novo tipo de
escola secundária, as chamadas “Academias”. Através deste financiamento,
substituem-se escolas já existentes por outras construídas de raiz, mais
caras e com melhores condições do que aquelas que são construídas com
dinheiros públicos. As Academias têm um patrocinador principal, na maioria dos casos
grandes empresas, homens de negócios ou a própria igreja, que pagam cerca de
três milhões de euros para garantir todas as despesas de funcionamento. Em
troca desse pagamento, o patrocinador ganha controlo total sobre a academia,
podendo nomear o conselho escolar e decidir sobre o currículo, a contratação
e a promoção dos professores, funcionando independentemente das autoridades
locais de educação e à margem das regras de contratação estabelecidas a nível
nacional. A igreja é uma das partes interessadas neste negócio porque ele
representa uma forma relativamente barata de controlar um maior número de
escolas públicas. Desde que este modelo foi criado, já foram abertas 27 escolas. O
objectivo é chegar às duzentas nos próximos cinco anos, sobretudo
implementadas em zonas pobres, sob o pretexto de que elas elevarão os níveis
de sucesso educativo entre os alunos. Que razões estão por trás desta tendência desreguladora e quais os
interesses dos agentes privados neste processo? O governo britânico acredita que a transformação do sistema
educativo num modelo eficiente e produtivo, com vista a formar trabalhadores
para uma economia competitiva, passa por dar-lhe um toque empresarial. É por
essa razão que pretendem ver as empresas e a igreja envolvidas, porque
acreditam que esta nova escola assenta no tipo de valores defendidos por
estas instituições. O objectivo principal das empresas não é tanto o de obterem lucro,
mas antes impregnar o sistema educativo de valores económicos e empresariais.
As grandes companhias têm habitualmente orçamentos destinados a investimentos
na área social – é esse o nome que lhe dão – e uma das formas de o gastarem é
patrocinarem escolas. Para estas grandes empresas três milhões de euros
representam uma ínfima percentagem do seu orçamento, mas é uma excelente
forma de promover a imagem da companhia, mostrar que são socialmente
responsáveis e fazer com que o governo olhe favoravelmente para elas. No caso
dos empresários individuais esta é sobretudo uma forma de auto-promoção. A área mais popular de especialização destas academias são os
negócios e a gestão, e é aí que elas tendem a apostar. A Academia de
Berksley, em Londres, por exemplo, cujo patrocinador é David Garrad, um
grande promotor imobiliário, é uma destas escolas. Todas as sextas-feiras, os
alunos dedicam a jornada escolar a simular a actividade de homens e mulheres
de negócios. Existem até televisores na escola parecidos com aqueles que
estamos habituados a ver nas bolsas de mercados para os alunos jogarem à
compra e venda de acções… Acha que este tipo de processo se pode alargar ao resto do
continente europeu? Ouvi-o, nesse sentido, falar do chamado “Método Aberto de
Cooperação”. O que é? O texto da proposta de Constituição Europeia refere que a educação é
uma matéria do foro interno de cada estado. A Estratégia de Lisboa, porém,
tem como objectivo desenvolver a sociedade do conhecimento e fazer da Europa
a zona económica mais competitiva do mundo, afirmando que os sistemas
educativos são cruciais para essa tarefa. Daí que, apesar das garantias dos
governos e da própria UE, decorre actualmente, de facto, um processo de
harmonização e de convergência na área da educação na Europa. O método aberto de cooperação não é mais do que um dos principais mecanismos
para atingir este objectivo, decorrendo de um processo de avaliação formal e
de comparações dos diferentes sistemas educativos europeus. Aqueles que a UE
considera mais bem sucedidos acabam por tornar-se referências para os
restantes países. A partir desta altura, a avaliação passa a processar-se
tendo em conta os esforços realizados por cada país no sentido de se
adaptarem a estes modelos. Tendo em conta o modelo neoliberal que caracteriza os países mais
avançados da UE, é natural que as propostas educativas por eles adoptadas se
tornem os exemplos a seguir. E um dos principais exemplos é a Inglaterra. Por
isso, apesar de os governos dos países do sul da Europa estarem a ter mais
dificuldades em implementar este modelo neoliberal, não tenho dúvida que será
esse o caminho que acabarão por tomar. PAIS E PROFESSORES DIVIDIDOS Como estão os pais e os professores a reagir a este processo? Uma parte dos professores, e mesmo dos encarregados de educação,
concorda com este sistema, incluindo a maioria dos que trabalha neste tipo de
escolas. Para os professores significa mais trabalho e, consequentemente,
salários melhores. Mas nem sempre é pacífico. Os pais, por seu lado, acham
atraente a ideia de uma nova escola, mais bem equipada. Mas há uma forte oposição local a este processo, tanto por parte de
professores como de encarregados de educação, sobretudo à medida que se vão
apercebendo das suas implicações. Estas escolas distorcem a realidade do
sistema educativo local, já que, ao contrário do que se pretende, tendem a
atrair alunos oriundos das classes médias e acentuam o desequilíbrio das
oportunidades de acesso. Que posição têm tomado os sindicatos? Também eles estão divididos. De acordo com uma recente sondagem,
apenas 6 por cento dos elementos afectos ao sindicato dos directores de
escola são favoráveis às Academias, 40 por cento são contra e os restantes
não têm opinião formada. O sindicato a que pertenço, o Sindicato Nacional de Professores
(National Union of Teachers), que é o mais representativo da Grã-Bretanha, já
afirmou opor-se a este tipo de escolas. Porém, até ao momento, não foi tomada
nenhuma iniciativa concreta contra este processo. Outros sindicatos, como o NASUWT, quase tão influente e numeroso
como o nosso, ainda não tomaram posição, porque os seus interesses são
demasiado sectoriais e não vêem qualquer problema nisto desde que os sócios
continuem a pagar as quotas… Porém, ao longo do último ano, tem-se assistido a um número
crescente de campanhas locais contra a criação de Academias. Juntamente com
um colega, tenho realizado alguma investigação sobre esta matéria, conduzindo
entrevistas junto de professores e pais um pouco por todo o país, de Londres
ao norte de Inglaterra, passando pelas Midlands, onde resido, tendo
constatado que este processo tem gerado o maior empenho da população em torno
da educação desde há muitos anos. O empenho em torno desta matéria é
surpreendente, com pais e professores a irem de porta em porta, convocando
assembleias, gerando protestos… Isso no que se refere às Academias… Mas qual tem sido a reacção a
este crescente processo de privatização do sector educativo. As estruturas
sindicais têm organizado formas de luta? Gostaria de dizer que sim, mas de facto estes protestos locais não
irão ser capazes de parar este processo. Não tem havido qualquer processo
concertado de luta dos professores desde 1985, altura em que se registou uma
longa greve em torno de questões salariais, mas cujo protesto era mais
abrangente e se dirigia contra a tentativa do governo Thatcher de tentar
quebrar a força colectiva dos sindicatos – os mineiros também entraram em
greve por essa altura – mas o movimento acabou por sair derrotado. Desde então, a liderança sindical assumiu uma posição de resignação
face ao poder do governo. Nessa altura ainda houve esperança de que uma
mudança de governo para os trabalhistas pudesse alterar a situação, mas,
dadas as actuais condições, não queremos ser o primeiro sindicato a tomar
medidas. Um passo importante, no entanto, foi dado este ano na conferência do movimento intersindical a que pertencemos, com uma moção a opor-se à privatização, e em particular ao crescimento das Academias, apoiado pela federação de sindicatos de professores da Escócia, documento que foi aprovado por unanimidade. O importante é que a decisão não ficou apenas no papel, existindo a intenção de convocar uma reunião nacional para discutir a aprovação de uma manifestação nacional. |