Informação Alternativa

Estados Unidos da América

05/11/2005

 

Voos secretos e sequestros da CIA em solo europeu

– A denúncia da existência de prisões clandestinas da Agência de Inteligência tem como precedente pelo menos três operações ilegais na Europa desde 2001 –

 

Roberto Montoya

El Mundo; retirado de Rebelión

 

A Comissão Europeia disse na quinta-feira através do porta-voz de Justiça e Interior, Frisso Roscam, que se realizarão as «averiguações necessárias» para verificar se é verdade que existem prisões secretas da CIA na Europa, tal como denunciou The Washington Post. Por sua vez, o comissário de Justiça e Interior, Franco Frattini, emitiu um comunicado para recordar que «não é apropriado» fazer comentários quando a única informação com que se conta provém da imprensa.

 

Se bem que a informação da jornalista Dana Priest, uma das maiores especialistas de Inteligência da imprensa dos EUA, não mencionava explicitamente os países «por pressão de funcionários da Administração Bush», segundo ela mesma aclarou, a Comissão Europeia tem desde há algum tempo suficientes precedentes de graves acções ilegais levadas a cabo pela CIA em solo europeu, para pensar em levar a cabo algo mais do que simples «averiguações».

 

SUÉCIA, 18 DE DEZEMBRO DE 2001

 

O sequestro na Suécia a 18 de Dezembro de 2001 dos egípcios Ahmed Agiza e Mohammed al-Zari por parte de agentes da CIA em colaboração com agentes da SÄPO [Polícia de Segurança], foi um dos primeiros casos de extraordinary renditions denunciados pela Amnistia Internacional e a Human Rights Watch. Calcula-se que poderia haver entre 100 e 150 casos como esses. Os dois egípcios foram transportados para o Cairo num dos três aviões civis mais conhecidos da CIA, um Gulfstream V, pertencente a empresas fantasma.

 

Os sequestrados apareceram torturados numa prisão egípcia. O seu caso, objecto do documentário Promessa quebrada, é ainda motivo de uma investigação judicial. O Governo sueco terminou pedindo explicações ao Egipto pelas torturas sofridas pelos detidos. Al-Zari obteve posteriormente a liberdade provisória mas Agiza pelo menos até Abril de 2005 permanecia em prisão.

 

MILÃO, 17 DE FEVEREIRO DE 2003

 

Cronologicamente, o segundo caso conhecido de sequestro protagonizado por 13 agentes da CIA em solo europeu produziu­‑se em pleno centro de Milão a 17 de Fevereiro de 2003. A vítima foi um imã radical, Abu Omar, capturado perto da sua mesquita depois de ser imobilizado com um spray paralisante. A impunidade com que actuaram os agentes, que utilizaram para as suas comunicações telemóveis italianos, e a escrupulosa investigação levada a cabo pelos procuradores Armando Spataro e Ferdinando Enrico Pomarici, permitiu a estes identificar os 13 agentes da CIA que intervieram no sequestro e saber que tinham tirado a vítima do país através da base militar norte­‑americana de Aviano para o Egipto.

 

Meses depois, familiares da vítima puderam finalmente visitá-lo na prisão, onde Abu Omar corroborou que os agentes da CIA o torturaram primeiro na própria base de Aviano, antes de fazê-lo conjuntamente, já no Egipto, com a polícia secreta desse país, a Mukhabarat.

 

No entanto, e apesar de que a oposição pressionou o governo de Berlusconi para que exigisse explicações aos EUA, a Administração Bush negou­‑se a entregar os sequestradores ou a prestar qualquer tipo de colaboração por «questões de segurança». Segundo meios de comunicação estado­‑unidenses, todos os agentes, três mulheres e 10 homens cuja identidade já foi revelada pela imprensa, foram recolocados noutras estações fora da Europa.

 

A DIGOS [Divisão de Investigações Gerais e Operações Especiais] conseguiu obter fotografias de todos eles nos 23 hotéis onde estiveram hospedados durante os três meses de preparação do sequestro, e transmitiram­‑nas à Eurojust e à Europol.

 

SKOPJE, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

 

O terceiro dos casos mais conhecidos de sequestros deste tipo que teve lugar na Europa foi o do cidadão alemão Jaled el-Masri, nascido no Líbano, residente na cidade alemã de Ulm desde os anos 80. A 31 de Dezembro de 2003 dirigia­‑se de autocarro em direcção a Skopje (Macedónia), quando no controle fronteiriço com a Sérvia os guardas retiveram o seu passaporte, sustentando que era falso e ante a suspeita de que era um militante da Al Qaeda. Só muito tempo depois saberia que o confundiam com um homem da Al Qaeda chamado Jalid al-Masri. Esse nome figurava numa lista de procurados pela CIA que os guardas de fronteira tinham.

 

Ao cidadão alemão negaram­‑lhe todo o direito a comunicar-se com a embaixada do seu país e depois de semanas de interrogatórios foi transladado para Bagdade e depois para o Afeganistão num avião civil Boeing da CIA que previamente tinha feito escala no aeroporto Son Sant Joan de Maiorca. Depois de três meses de torturas El-Masri foi libertado e pôde voltar ao seu lar na Alemanha, onde o procurador alemão Martin Hofmann abriu uma investigação.

 

Aparte destes casos, a Comissão Europeia vem recebendo desde há anos as denúncias de organismos humanitários, com todo o tipo de detalhes e datas, de que por aeroportos europeus fazem escala regularmente pelo menos três dos famosos aviões da CIA. Eles são o Boeing N313P (usa também a matrícula N4476S); o Gulfstream V N379P (ou N8068V) e o Gulfstream IV N85VM (ou N227SV). A CE parece portanto não carecer de precedentes de acções ilegais da CIA na Europa para levar a sério as novas acusações.